A alma de um bairro: como a Associação de Moradores do Itararé ajudou a construir o Grande Dirceu

Entidade fundada na década de 80 promoveu lutas e esteve à frente de conquistas sociais na zona sudeste da capital

Por Camila Sampaio e Eric Souza

Há quase 40 anos, a região que abrigava conjuntos habitacionais de casas populares destinados a famílias de baixa ou nenhuma renda, estabelecidos na Fazenda Itararé, passou a se chamar Dirceu Arcoverde em homenagem ao ex-senador e então governador do Piauí. Nessa época, um grupo de moradores percebeu as necessidades urgentes do local e decidiu formar uma associação para saná-las de forma coletiva.

A Associação de Moradores do Itararé (AMI), fundada em 16 de dezembro de 1984, nas palavras de seus próprios integrantes, é a “principal ferramenta de luta do povo em busca de soluções para os problemas enfrentados pela comunidade do Grande Dirceu”. Localizada na zona sudeste de Teresina, a entidade se ocupa de atender às principais demandas dos moradores do bairro.

Fachada da sede da AMI traz principais conquistas dos moradores do Dirceu (Foto: Eric Souza/Portal Luneta)

Dentre os fundadores, figuram a contadora Conceição Mendes, o jornalista e geógrafo Antônio Araújo, o professor Libonato Rocha e o advogado Raimundo Mendes. Tais personagens, de singular importância à construção do Itararé, narraram ao Portal Luneta suas experiências à frente da AMI e os frutos do trabalho incansável que realizaram ao longo das décadas.

Breve histórico

Escolhida nas últimas eleições para liderar a AMI, Conceição Mendes chegou ao Itararé em 1977 quando era apenas uma estudante do Liceu Piauiense. Naquela época, não havia calçamento, energia elétrica ou sequer distribuição regular de água. Ao ingressar no grupo de jovens Juventude Franciscana, logo desenvolveu o ímpeto de batalhar pela resolução das dificuldades dos mais empobrecidos.

“Começamos pela construção da Igreja de São Francisco, que se transformou em um santuário. Depois erguemos o Mercado do Dirceu e nos engajamos na luta pelo acesso à água potável e de qualidade”, elenca a presidenta da associação.

Presidenta da associação iniciou militância pelo bairro no final dos anos 70 (Foto: Eric Souza/Portal Luneta)

Historicamente, a sede da AMI foi edificada sem nenhum apoio governamental, apenas com o auxílio dos moradores que doavam materiais ou participavam dos mutirões durante a construção.

“Na época fizemos campanhas na comunidade. Um dava tijolos, outro dava telhas. Se um não tinha nada, participava dos mutirões aos finais de semana. Foi assim que levantamos a sede da associação”, complementa Raimundo Mendes, morador do bairro desde 1986.

Raimundo conta que conheceu a AMI assim que se mudou para o bairro, através de alguns amigos e logo que conheceu quis fazer parte por conta da alta demanda que o bairro apresentava. “Quando eu cheguei, a associação já existia, e o que me fez de fato entrar foi a necessidade. O bairro tinha sido criado há poucos anos e ainda apresentava problemas em todas as áreas, desde transporte, educação, saúde e até moradia, porque boa parte das famílias tinha dificuldades de pagar os carnês das casas”, explica.

Em meio a reuniões, a AMI sediou uma assembleia com o ex-governador Mão Santa, que se comprometeu a financiar a construção do campus Clóvis Moura, da Uespi

Educação

O estatuto da AMI prevê a luta dos associados pela educação pública e de qualidade em todos os níveis de ensino. Por essa razão, sempre motivou a criação de grêmios estudantis, participou de conselhos escolares e liderou movimentos em prol da instalação de escolas de ensino médio e técnico no Grande Dirceu.

No entanto, a principal conquista da entidade na área da educação certamente se trata do campus Clóvis Moura, da Universidade Estadual do Piauí, no qual funcionam os cursos de geografia, história, letras, pedagogia, matemática, ciências contábeis, direito e administração de empresas. Em meio a ofícios, manifestações e reuniões, a AMI sediou uma assembleia de moradores com o ex-governador Mão Santa, que se comprometeu a financiar a construção do espaço universitário, erguido no espaço do antigo Centro Social e Urbano.

Campus universitário no Dirceu foi mais uma conquista dos associados da AMI (Foto: Divulgação/Uespi)

“Com o advento do Clóvis Moura, criamos um cursinho preparatório para o vestibular, que por sua vez fez ingressar centenas de estudantes do bairro nas universidades públicas e particulares do Piauí”, conta o líder comunitário e assessor de comunicação da entidade, Antônio Araújo.

Economia e transporte

Araújo explica que, numa época em que os bancos eram privatizados, vendidos ou fechados, a AMI solicitou uma agência para o Itararé. A partir de uma pesquisa socioeconômica empreendida pelos membros da associação, verificou-se que o bairro se transformara em uma nova centralidade, de modo que adquirira certa independência das outras zonas de Teresina.

“Vimos que um volume considerável de dinheiro corria na comunidade. Levamos os resultados a diferentes bancos e conseguimos trazer um posto avançado do Banco do Estado do Piauí, que posteriormente virou agência do Banco do Brasil. Não demorou para que o posto começasse a crescer e as outras agências (Caixa, Bradesco, Banco do Nordeste) também viessem para cá”, lembra o assessor.

A respeito do transporte coletivo, o líder comunitário ressalta que a AMI, através de um plebiscito envolvendo milhares de usuários do sistema, rompeu o monopólio da frota de ônibus no Grande Dirceu que pertencia a uma única empresa, bem como implementou a rota do metrô no bairro. Em meio à atual crise, que reduziu significativamente as linhas que circulam pela capital, a entidade tem feito reuniões junto ao Conselho Municipal e à Prefeitura em busca de soluções.

Usuários entram em ônibus no Terminal Livramento, na zona sudeste de Teresina (Foto: Divulgação/Strans)

Saúde, empreendedorismo e agroecologia

A representante máxima da AMI salienta que a defesa da saúde dos moradores sempre foi uma preocupação da entidade, que garantiu um pronto-socorro e um hospital bem aparelhados e com profissionais suficientes para atender às demandas do Grande Dirceu. Paralelamente, a associação também oferece seminários e oficinas de medicina alternativa como um complemento à medicina tradicional.

Conceição destaca a realização de cursos técnicos na sede da associação, os quais motivam os alunos a se tornarem microempreendedores individuais e fortalecerem suas rendas familiares. “Atualmente, estudamos a possibilidade de uma parceria com horticultores para organizarmos a 1ª Feira Livre com produtos agroecológicos produzidos na maior horta comunitária e urbana da América Latina, localizada no Itararé”, completa a presidenta.

Cultura

Além de ter tido papel crucial na construção do Teatro João Paulo II, a AMI desenvolveu, durante a pandemia de Covid-19, uma parceria com a Secretaria de Estado da Cultura (Secult) com recursos da Lei Aldir Blanc: a Calçada Cultural. O projeto fornece espaço aos artistas da comunidade, por meio de transmissões ao vivo nas redes sociais, nas áreas da música, do teatro, da dança e da literatura.

O líder comunitário Antônio Araújo aponta toda a preparação por trás das apresentações, que inclui banda, iluminação, palco, sonorização e uma equipe de profissionais que transmitem as lives nos canais virtuais da entidade, como Facebook e YouTube. “Os artistas recebem um cachê específico para suas categorias, que refletem seu reconhecimento na comunidade, com o objetivo de divulgar a produção cultural da região do Grande Dirceu”, afirma.

Show da banda Brigite Bardot transmitido ao vivo pelas redes sociais da AMI (Foto: Reprodução/YouTube)

Principais dificuldades e legado

Devido à crise sanitária provocada pelo novo coronavírus, as reuniões presenciais da entidade tiveram de ser interrompidas e substituídas pelos encontros on-line. Tal mudança ocasionou o afastamento de muitos moradores, o que compromete os planos de ação da AMI. No entanto, o avanço da vacinação e o retorno gradativo das atividades, bem como a reforma em curso na sede, deve motivar os associados a retomarem uma postura mais ativa.

Mesmo durante a pandemia, a influência da associação na vida dos moradores permaneceu de forma significativa. Uma moradora, que quis se identificar somente como Luiza, mora no Grande Dirceu há 40 anos e se beneficiou da proximidade dos membros da entidade inclusive quando contraiu Covid. “Quando estive doente, Dona Conceição me prestou bons conselhos sobre remédios e alimentação. Também sempre frequento os eventos realizados na sede. Só tenho a agradecer à presidenta, que ajudou o bairro a crescer”, conta.

“Me sinto honrada de dizer que fiz parte da construção do Itararé. Para mim, é motivo de orgulho e glória para sempre”

Em análise da atual conjuntura, o vice-presidente da AMI Libonato Rocha considera que as conquistas do passado, embora muito importantes, geram nos mais jovens uma sensação de que tudo está resolvido, ainda que restem problemas graves a serem contornados. “Nosso grande desafio é resgatar a credibilidade e as demandas de interesse da comunidade a fim de que o morador volte para o seio da AMI”, pondera.

Libonato acrescenta que, apesar de todos os obstáculos, não há, em sua opinião, nenhuma outra associação que se compare em plenitude, número de filiados, tempo de existência ou resistência diante das lutas cotidianas. Para ele, a entidade é a grande responsável por moldar a identidade cultural do Dirceu, à qual a maior parte dos moradores do bairro se identificam.

De fato, a presidenta considera um privilégio ter contribuído durante tantos anos à atuação da AMI e garante que não pretende encerrar, por ora, sua trajetória de defensora das causas sociais do povo que lhe é próximo. “Agora eu dirijo essa associação, uma das maiores da América Latina, e me sinto mais honrada ainda de dizer que fiz parte da construção do Itararé. Para mim, é motivo de gratidão, orgulho e glória para sempre”, finaliza Conceição.

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