Mulheres trans na política: cenário é positivo, mas representatividade ainda é baixa no Brasil

Por Nathalia Carvalho

A história da política brasileira sempre foi majoritariamente branca e masculina. Há apenas 89 anos, as mulheres sequer participavam da vida política do país, uma vez que eram proibidas de votar. A primeira mulher a ser eleita prefeita no Brasil foi Alzira Soriano, que tomou posse em janeiro de 1929. Mas se já foi difícil para a mulher cisgênero ingressar nos quadros da política, para as mulheres transexuais isso era um sonho quase que impossível.

A história começou a tomar um rumo diferente a partir de 1992, quando Kátia Tapety, genuinamente piauiense, ocupou o pódio de primeira mulher transexual a se eleger para um cargo político no país. Natural do município de Oeiras, primeira capital piauiense, Kátia foi eleita vereadora na cidade de Colônia do Piauí e permaneceu no cargo até o ano de 2000.

Kátia Tapety (foto: arquivo pessoal)

O Portal Luneta conversou com Kátia Tapety, que hoje, aos 72 anos, já não participa da política de forma direta, mas conta sua história com muito orgulho. Ela vem de uma família de políticos e até os dezesseis anos viveu praticamente escondida.

 “A família dos Tapety foi uma família de coronéis e políticos em Oeiras, um dos nomes de peso é o de Juarez Tapety que foi deputado estadual e também secretário de segurança do Piauí, eu era cabo eleitoral da família. Nessa época a Colônia do Piauí ainda era um povoado de Oeiras e eu sempre desenvolvi um trabalho voltado para os menos favorecidos da comunidade. Houve um plebiscito para que Colônia do Piauí fosse emancipada para ser uma cidade. Como eu já tinha esse entrosamento com a política de Oeiras e já conheciam o meu potencial de trabalho, houve um consenso para que eu fosse candidata a vereadora de Colônia e a sociedade me abraçou”, relembra.

Kátia já estava em sua terceira legislatura como vereadora pelo Partido da Frente Liberal (PFL) e trocou a legenda para ingressar no Partido Popular Socialista (PPS) e fazer parte da chapa da empresária Lúcia de Moura Sá, como candidata a vice-prefeita. Elas venceram com 62,13% dos votos, o que representa 2.509 votos.

“Fui uma vereadora bem votada. Na primeira e na segunda vez eu saí em disparada na quantidade de votos, na terceira vez também fui eleita e foi quando surgiu o convite para ser vice-prefeita na chapa de Lúcia de Moura Sá, topei e também fomos bem votadas e eleitas. Tenho orgulho de ter sido a primeira trans a ser vice-prefeita no Brasil”, ressalta Tapety.

O pesquisador e cientista político formado pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Ivan Machado, ressalta que apesar do avanço na ocupação de mulheres transexuais em cargos políticos no Brasil, elas ainda representam uma parcela muito pequena se comparada aos homens eleitos.

Ivan Machado (foto: arquivo pessoal)

“Não só na política brasileira como praticamente em todas as posições de privilégio na sociedade há predominância da ocupação de homens brancos, mesmo que eles sejam minoria na população brasileira de maioria feminina. Ainda dentro dessa ‘marginalização’, a sociedade LGBTQIA+ ocupa ainda menos espaços. Mas, com os crescentes movimentos de aceitação, mobilizações a favor do movimento, personalidades midiáticas ocupando espaços na televisão aberta e redes sociais e a necessidade de mudanças diretas nas legislações em defesa dessa camada, levaram a mais candidaturas de pessoas assumidamente LGBTQIA+, bem como de mulheres trans”, explica.

Segundo um mapeamento da Associação Nacional de Transexuais e Travestis, nas últimas eleições de 2020 foram eleitas 30 pessoas transexuais no Brasil, esse quantitativo é quatro vezes maior que em 2016. O pleito passado também apresentou recorde de candidaturas na categoria, foram 294 candidaturas registradas no país.

“Apesar dos recordes de candidaturas e personalidades eleitas a cada ano eleitoral, ainda é uma parcela mínima quando comparado com todo o universo. No entanto, por mais que sejam poucas representações, as mulheres trans candidatas e eleitas carregam com si uma figura icônica para as demais mulheres trans da sociedade sobre quais os lugares elas podem ocupar e que existem pessoas tentando atender os seus interesses”, completa o cientista político.

E é esse o desejo de Kátia Tapety: que mais mulheres transexuais possam ocupar e mudar a política brasileira para que, em suas palavras, o ‘tabu’ seja enfim quebrado.

“Tive a sorte de nunca ter sofrido preconceito, mas eu sei que ele existe e ainda atinge muitas de nós. Eu gostaria que existissem mais mulheres trans na política do país para quebrar esse tabu, a nossa classe é a mais discriminada, mas eu também sempre digo: para que a sociedade nos respeite, temos que respeitar a sociedade”, finalizou a ex-vice-prefeita.

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