A leitura como um passo à liberdade de todes

Ao longo dos tempos, a censura e a queima de livros comandadas por governos autoritários, enxergam na leitura a ameaça de organização das classes exploradas pra compilação de leis que beneficiam o povo.

Por Ana Vitória Lima Machado

O caminho rumo ao desmonte na educação vem sendo anunciado desde antes da pandemia. Em 2019, as Universidades Federais já se encontravam em meio à bloqueios nas áreas de pesquisa como alternativa para adequação ao teto de gastos.

De lá pra cá, as tomadas de decisões acarretam em mais cortes. Nesse ano em comparação ao ano passado temos 18% do orçamento das universidades negados. A Procuradora Geral do Ministério, Cristina Machado junto ao Tribunal de Contas da União cita o risco atual das universidades paralisarem as atividades.

Fonte: UOL

Em 2021, a Receita Federal prevê o acréscimo de 12% sobre o tributo à livros, apoiada no argumento de serem produtos de elite e que pobre não lê. De modo contrário, grupos de resistência popular, da cultura marginal e a mídia independente, tentam facilitar o acesso à educação das classes marginalizadas, liderando investidas com arte, música, literatura, entre outros, na luta pelos direitos à todes.

Leandro Sousa, professor, rapper e criador do projeto Traficando a Literatura conta sobre como nasceram as ideias pra distribuição gratuita de livros em Teresina:

“O projeto foi acontecendo de forma gradual, até se tornar o que é hoje. Eu cantava rap em Teresina e através de um projeto levamos o rap para o Cem, para Penitenciaria Jorge Vieira em Timon, para as praças públicas, comunidades terapêuticas. Em 2016, 2017 a gente ia pra sala de aula com um trabalho de alerta pros jovens contra às drogas. As escolas as vezes disponibilizavam o pátio, um espaço maior no horário de intervalo. Quando eu ingressei na Universidade, no curso de Letras, tive essa visão com o rap, com a experiência que eu já tinha e desenvolvi o Sarau Hip Hop Rap Poesia como projeto de pesquisa. O grande lance eram as oficinas nas escolas públicas, a gente levava a letra rap enquanto poesia, ensinava os meninos a produzir com toda a temática social, desenvolvendo o senso crítico, trabalhando a realidade de vida dos alunos.


 Foi uma experiência muito boa, eles se identificavam, em todas as escolas conheciam o gênero. No final a gente produzia revistinhas com as criações deles e eles apresentavam em forma de sarau. A galera comprou a ideia. Os artistas Mc’s daqui de Teresina declamavam composições autorais no Facebook do projeto fortalecendo o incentivo. Começou então esse despertar pra Literatura vinculada ao hip hop que tem por 5° elemento o conhecimento. Eu também escrevo e vi a necessidade sobre a questão das editoras que são caras pra quem quer começar publicando, a gente já fazia isso de lançar um produto independente no hip hop com o CD e como autor minha ideia era baratear o custo dos livros pra chegar no leitor da forma mais acessível.

Nesse caminho eu produzi um Zine com poesias de Literatura Marginal, o grafiteiro Maco, daqui de Teresina que fez a capa. o Traficando a Poesia, nasceu 2018, inspirando no Sergio Vaz, Sacolinha. Fui procurando meios pra publicar meus livros e descobri os caminhos, criei o Selo Independente Traficando a Literatura. A ideia do Traficando a Poesia se expandiu em resposta ao porquê não traficar a leitura de modo geral, se transformando no projeto que é hoje o Traficando a Literatura. Incentivar a leitura e o ensino foram ideias que amadureceram na sala de aula, como professor descobri o livro didático, já incorporando o Rap como conteúdo disciplinar. Uma fala de Sergio Vaz que me inspira muito é A Literatura tem que descer do pedestal para beijar os pés da periferia; a inspiração também veio do projeto do Renan Inquérito, que traficava versos nos pinos, que são utilizados pra vender cocaína. Comecei a colar poesia nos ônibus, o Poesia no Busão, recebi feedbacks positivos sobre pessoas que em um dia cansativo encontravam uma poesia dentro no ônibus e gostavam daquilo.

 A leitura tem que partir também do gostar, principalmente pra quem está iniciando. Um sistema que aponta a biblioteca como ambiente de castigo, que obriga o aluno a ler somente um tipo de leitura, sem pensar na falta de identificação, na apresentação de textos que se aproximem com a realidade, acabam dificultando essa autoestima para com a leitura. Tudo vai sendo internalizado e ler é um habito que tem que ser treinado. Quem consegue persistir, pega gosto. A gente vive em um momento de acesso à informação muito fácil. Os jogos virtuais, as redes sociais, os canais de streaming provocam mais interesse que ler um bom livro. Tem que ser incentivado… a viagem sem sair do lugar, o senso crítico. São coisas que eu não sei se o governo quer que o jovem tenha. A distribuição gratuita de livros foi feita em algumas ações presenciais, a Marcha da Periferia é uma das minhas preferidas, enquanto eu declamava a poesia as pessoas escolhiam os livros. Com a chegada da pandemia, veio a ideia de fazer de forma online, fui inspirado pelo projeto Estante da Jose, que já tem 7 anos. Nesse mês de maio já estamos na terceira ação de distribuição.

 A nossa ideia é essa: a popularização da literatura e interesse nos estudos, contrariar mesmo o sistema. Mostrar que esses espaços são pra todos nós, nós que muitas das vezes temos que dividir o estudo com trabalho. Não tem como acreditar nisso de que a leitura é algo elitizado. A gente que trabalha de perto sabe que não é verdade. A gente doa livro pra outros projetos. Conheço outros incentivos como o Clube de Leitura do Geleia Total, alguns terreiros que tem projetos de leituras com crianças e eles são muito frequentados. A meninada fica fascinada com a leitura. Se o preço do livro já é alto, aumentando fica mais difícil. Com toda essa complexidade que gera falta de motivação, o que a gente precisa é de projeto que alcance essas pessoas. Interesse a galera tem sim, sem dúvidas. A gente que se sente incluído por esses projetos de iniciação científica lamenta muito os cortes. Com a pandemia ficou muito evidente o papel da ciência, mas o governo venda os olhos pra isso. O que a gente faz é contrariar o sistema e estudar. Vencer e mostrar que o jovem de periferia não é isso que pensam dele.”

No Brasil colônia, a tipografia era crime até a família real, por pressão da invasão napoleônica, se mudar e trazer de Portugal uma impressora que atendia as necessidades governamentais, auxiliando o forçamento da evangelização cristã nos povos nativos e africanos, escravizados e traficados, possuidores de cultura e crenças próprias que foram criminalizadas e devido a isso até hoje são desrespeitados, perseguidos e assassinados. A primeira isenção do imposto à livros é regulamentada em 1946- período da ditadura varguista. Com a emenda 3.218, proposta por Jorge Amado enquanto deputado pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB – SP), um cenário onde era mais caro produzir livro nacionalmente do que importar um pronto, a imunidade de taxa garante outro caráter, maiores possibilidades de liberdade pelo conhecimento.

No fato de uma minoria de indivíduos se beneficiarem pela exploração de uma classe, o imposto no país se dá por maneira regressiva: a população pobre paga mais (imposto imbuído nos produtos consumidos) e os mais ricos não pagam, por exemplo, por transações financeiras de mercado. Segundo a Forbes, de 2018 a 2019, dentro de uma crise capitalista global, os 10 homens mais ricos do Brasil arrecadaram 8 bilhões. A mesma divulgou o ranking dos bilionários de 2021, onde revela brasileiros que possuem um patrimônio de US$ 21,2 bilhões, 9,6% da fortuna total dos 65 brasileiros, de US$ 219,1 bilhões. A tomada rápida de decisão nos cortes da educação e nas taxações em imposto não está aplicada às grandes fortunas no país com maior número de mortos por Covid-19 por milhão de habitantes e que, segundo pesquisa da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan) mais de 116,8 milhões de pessoas passam fome.

Leandro Sousa, piauiense nascido em Teresina, em 29 de julho 1982.  Formado em Letras pela Universidade Estadual do Piauí. Professor, rapper e atuante na defesa pela educação, na popularização da literatura e do ensino. Artista e incentivador da liberdade pela leitura.

Criador do Selo Independente: Traficando a Literatura Publicações Independentes; e das obras: Ser Mente Poética (2017); A poesia rap- das ruas para a escola: uma estratégia de leitura e produção (2018); Contos proibidos: NÃO LEIA! (Contos, 2020); Traficando a Poesia, Literatura Marginal (2018) e Diálogos dos Olhares (2021).

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