PSICOTERAPIA À DISTÂNCIA

A importância de incluir saúde mental nos cuidados de se viver em uma pandemia

Por João Pedro Bezerra

A pandemia de coronavírus, que assola o mundo inteiro há mais de um ano, mudou bruscamente nossas vidas. Não apenas pela crise sanitária, que por si só tirou a vida de milhares e nos põe em constante medo por nossa própria vida e pela de nossos queridos. O isolamento social revirou aspectos básicos do nosso cotidiano, nos prendeu em casa, e trouxe à tona incertezas acerca do presente e do futuro, potencializando problemas que já tínhamos e somando novos.

O povo brasileiro já vinha sofrendo de consecutivas crises políticas e econômicas mesmo antes da pandemia. O coronavírus trouxe uma crise sanitária para um país que já sofria enfermidades de outros tipos. Potencializou os índices de desemprego, levou parte da população para abaixo da linha da pobreza, escancarou desigualdades sociais, fechou escolas, universidades e centros comerciais.

Fonte: G1

Todos esses fatores causaram muito impacto na saúde mental do brasileiro. O isolamento em casa e o convívio contínuo com a família, a privação de lazer e de contato com outras pessoas aumentou ansiedade, depressão e raiva na população, segundo dados do Experiência de Escuta, serviço feito por 50 profissionais da saúde mental com o intuito de acolher gratuitamente a população brasileira. Estes profissionais afirmam que cuidar da saúde mental é tão importante quanto da saúde física, no período em que vivemos.

Como muitos outros serviços, a Psicologia teve que se reinventar aos moldes do distanciamento. Clínicas investiram em plataformas online na tentativa de manter os pacientes e não perder sua fonte de renda. Alguns profissionais e pacientes afirmam até preferirem a modalidade online à forma usual, devido à praticidade de não ter que se deslocar de casa para ter acesso à terapia. Muitos, porém, afirmam que a terapia por videochamada não substitui a presencial, “problemas como conexão ruim, barulhos em casa e a falta de privacidade interferem na eficácia da psicoterapia”, afirma a psicóloga Marilu Rodrigues.

Fonte: Freepik

Em entrevista, a estudante Débora Ferreira afirma que já fazia acompanhamento psicológico antes da pandemia, e teve que se afastar durante um mês, no início do isolamento. Débora explica ter sido um período muito difícil, pois se viu “sem apoio, presa em casa e com as preocupações se multiplicando”. Nesse contexto, viu a necessidade de buscar atendimento psicológico online, com a mesma psicóloga que a atendia antes da pandemia. “Não é a mesma coisa que a terapia presencial, existe uma certa distância, mas foi imprescindível para eu conseguir manter a sanidade e poder cuidar de mim mesma”, completa.

Marilu Rodrigues, psicóloga com 10 anos de experiência em psicologia clínica, atendia em prestigiada clínica de psicologia em Teresina antes da pandemia. Com o início do isolamento social, notou seu rendimento diminuir significativamente e decidiu romper com a clínica, passando a atender por conta própria os pacientes que já tinha e que queriam continuar sendo atendidos por ela. “No início estava difícil, alguns desistiram da terapia e outros continuaram na clínica, mas, após algumas semanas, pacientes que eu já tinha e novos começaram a me procurar… as pessoas sentiram os efeitos da pandemia e muitas apresentam até mesmo novas demandas, além das que já tinham”, completa.

Fonte: Freepik

A psicóloga defende que a modalidade distancial da psicoterapia tem seus lados bons e ruins. Do lado positivo, aponta a praticidade de se poder obter ajuda profissional de qualquer lugar, e o fato de o psicólogo poder trabalhar de casa, sem arcar com despesas como aluguel de sala em clínica e deslocamento. Do ponto negativo, afirma que a terapia à distância deixa a desejar no sentido de não permitir observar pontos “não verbais” do paciente, “presencialmente, podemos perceber se o paciente está balançando a perna, impaciente, se ele olha nos olhos do psicólogo ou se tenta fugir… no atendimento virtual, temos que nos ater ao que o paciente fala e a suas expressões faciais”.

Marilu ainda chama atenção para um ponto que considera muito importante e afirma ser ignorado: o acesso de famílias carentes aos cuidados com a saúde mental. “Antes da pandemia existiam programas sociais como o CRAS, por exemplo, que levava profissionais de saúde a pessoas de comunidades menos favorecidas, que não têm acesso a planos particulares ou sequer estão cientes da importância de se cuidar do psicológico; e sim, existem programas sociais que fazem o acolhimento de forma virtual hoje, mas uma coisa que nos esquecemos é que muitos brasileiros ainda não tem acesso a internet. Se sairmos da nossa bolha para olhar a situação dessas comunidades, vamos ver gente lutando para por comida dentro de casa e não adoecer, sem tempo ou recursos para se preocupar com saúde mental”, completa a psicóloga.

Fonte: Folha

O impacto da pandemia no psicológico dos brasileiros é de longo prazo e exige esforço da sociedade como um todo para reverter os efeitos. É de responsabilidade do governo criar políticas públicas e campanhas que promovam assistência psicológica e social para a população que não tem acesso; de empresas privadas em cuidar da saúde mental e financeira de seus funcionários; e da sociedade como um todo em propagar a importância de se procurar e oferecer ajuda para quem precisa.

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