Brechó é mais que um barato, é maravilhoso!

Se reinventando ao longo dos tempos, a cultura dos brechós tem promovido importantes discussões sobre consumo acessível e sustentável, diversidade e muito mais

Por Wesley Igor Gomes

“A roupa que você usa diz muito sobre você”. Uma frase. Apenas uma frase que, por mais que já tenhamos escutado diversas vezes, nunca deixa de fazer tanto sentido. Hoje, mais do que nunca, o que usamos em nossos corpos tem o importante papel social de expressar o nosso eu e tudo aquilo que acreditamos e defendemos. Seja ela em tons vivos, pastéis ou o clássico preto e branco, a roupa é um ato político e é importante consumi-la de maneira consciente. E é abarcando tudo isso que a cultura dos brechós, cada vez mais popular, procura se apresentar.

Não há sensação melhor do que achar algo surpreendentemente bom, bonito e barato. Essa é uma emoção compartilhada por quem frequenta e apoia esses estabelecimentos que, mesmo sendo mais populares entre os jovens, são para todos os públicos. Tudo isso faz parte da cultura dos brechós. Porém, nem sempre foi essa a realidade, já que ainda existe um certo preconceito quanto ao uso de peças usadas, “de segunda mão”.

Para a designer de moda e professora universitária Karla Fianco, o preconceito aos brechós vem de toda a história inicial deles e também dos estigmas sociais que, juntamente, surgiram. Analisando o contexto atual, ela afirma: “sempre vai existir esse olhar de preconceito de alguns, mas imagino que num futuro não tão distante essa barreira ficará cada vez menor pela popularização dessa prática de consumo”.

Comumente relacionados à sujeira, velho e/ou indesejado, os brechós, agora, carregam o importante status de espaço sustentável, cultural e democrático. Suas origens ainda são um mistério. Uns dizem que foi nos Estados Unidos, outros no México ou na China. Contudo, evidências mais fortes apontam que seu surgimento foi na Europa, mais precisamente na França, com o “mercado das pulgas”, feiras ao ar livre que comercializavam peças sem preocupação com a higiene.

Em cada lugar do mundo, esses estabelecimentos abrem um novo e, de certa maneira, velho mundo de possibilidades e conexões repletas de história, cultura e paixão. “Os brechós têm uma história muito antiga, e seu conceito sempre foi de oportunidade de roupas a preços mais acessíveis. Vejo, hoje, essa prática também muito atrelada a artigos de luxo e alta costura, uma forma de ter aquele item do ‘desejo’ para muitas pessoas”, diz Karla.

Em terras brasileiras, acredita-se que a primeira loja surgiu no Rio de Janeiro do século XIX, fundada por um comerciante português de nome Belchior, e assim passaram a ser conhecidas inicialmente. Perpassando por muitos anos e chegando à atualidade, esse comércio tem-se tornando um sucesso. Apesar de não possuir dados mais atuais, segundo o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), o número desses estabelecimentos cresceu 210% entre 2010 e 2015. Entretanto, é importante nos atentarmos que, com o advento das redes sociais e das vendas online, essa porcentagem aumentou consideravelmente.

Brechós na capital mais calorosa do Nordeste

A cultura dos brechós está perdendo a timidez e caindo no gosto de muitos/as/es teresinenses que se mostram curiosos/as/es sobre esse jeito de consumir moda. “Acredito que uma boa parte da população já vê com bons olhos o consumo de peças de segunda mão. Porém, culturalmente, o teresinense no geral gosta de usar o ‘novo’, popularmente falando, gosta de se ‘amostrar’, o que pode impedir a aderência de certos grupos a essa nova forma de consumir. É um trabalho de formiguinha”, enfatiza Laiala Ferreira, pesquisadora e proprietária do brechó local Flor de Mandacaru (@brechoflordemandacarupi).

Ganhando vida por volta de 2015 e 2016, o Flor de Mandacaru começou como um brechó de desapego, uma forma de geração de renda para a sua dona que estava desempregada e dependendo apenas de uma bolsa de estudos. A princípio, vendendo apenas na universidade, logo recebeu convites para participar de feiras, como a Feira de Base Agroecológica da UFPI.

Presentemente, o brechó já possui um pequeno espaço físico e um nicho: peças vintages e modernas que são obtidas por consignado, quando terceiros utilizam o espaço do brechó para comercialização e dividem a porcentagem das vendas com os donos, ou por garimpo, no qual existe todo um processo de pesquisa e curadoria.

Laiala Ferreira. Foto: Acervo Flor de Mandacaru

Com o boom das redes sociais, os brechós se agarraram a essas novas ferramentas e navegaram no meio virtual em busca de visibilidade e potencialização das vendas. Esse tipo de migração está ajudando na criação de renda para micro e pequenos/as/es empreendedores/as, além de movimentar econômica, cultural e socialmente o círculo interno local.

Todavia, para Laiala, nem tudo é um mar de rosas na comercialização online. “Essas ferramentas demandam muito empenho. Antes de tudo, as redes em que vendo medem ‘o seu grau de importância’ por interações e, às vezes, isso desestimula. Um dia você tem um alcance ótimo, no outro você cai”, ressalta.

Perfil no Instagram do Flor de Mandacaru. Foto/Reprodução: Internet

O meio online também está permitindo a realização de muitos debates quanto à relevância do papel dos brechós. Agora, com a criação de conteúdos no meio virtual, há uma facilidade em apresentar essa cultura, desmistificando algumas crenças sobre como acontece o resgate e a seleção dos artigos, e também todo o processo de restauração e higienização, intensificados durante a pandemia da Covid-19, que assola o mundo desde março de 2020.

Atuando como colaboradores da sustentabilidade

Realizar uma moda mais consciente e sustentável é a marca registrada dos brechós. Quando uma pessoa adquire uma roupa usada, ela está contribuindo para que o tempo de vida da peça seja prolongado por mais tempo, evitando o seu abandono em lixões ou aterros.

Mesmo sendo um dos segmentos mais lucrativos do mundo, o mercado da moda, em contrapartida, segue sendo um dos mais poluentes do mundo. De acordo com a instituição de caridade Ellen MacArthur Foundation, a indústria têxtil utiliza cerca de 93 bilhões de metros cúbicos de água por ano, o que equivale a 37 milhões de piscinas olímpicas.

Relacionar questões ambientais e moda é, também, falar sobre Fast Fashion (em português, “Moda Rápida”). Esse novo conceito, surgido por volta de 1990 com o barateamento da mão de obra e da matéria-prima, consiste na produção de peças com valores mais baixos e um tempo de vida mais reduzido. Ademais, o Fast Fashion também anseia acompanhar as tendências do momento, o que acarreta numa desenfreada produção e, consequentemente, mais descarte. Estima-se, segundo dados da Prefeitura de São Paulo, que 170 mil toneladas de resíduos têxteis sejam gerados anualmente no Brasil. Pelo menos 40% desses resíduos são reprocessados por empresas recicladoras, enquanto os outros 60% são descartados em aterros sanitários.

“O Fast Fashion produz uma quantidade enorme de roupas e acessórios que muitas vezes nem são comercializados, e o brechó utiliza essas ferramentas para tentar diminuir o impacto ambiental. O consumo de brechó é uma formiguinha em relação à diminuição do impacto que existe, porém, somos muito importantes”, comenta Laiala Ferreira.

Uma cultura repleta de preciosidades e possibilidades

Joseph Oliveira é estudante e assumidamente um amante de brechós. Desde pequeno, sempre se mostrou interessado pelo universo da moda e por maneiras conscientes e acessíveis de consumi-la. Durante o ensino médio, caminhando rumo a vida adulta, teve seu primeiro contato com brechós, e foi amor à primeira vista. “Nessa época, tive uma maior liberdade para escolher o que eu iria usar. Para pensar sobre o que queria ou não queria. Ter tempo para procurar. E fui conhecendo mais profundamente os brechós. A partir daí, comecei a usar e comprar blusas, camisas e shorts. Boa parte era das redondezas ali da minha escola”, relembra.

Através desse comércio, pessoas estão conseguindo encontrar preciosidades por valores mais em conta, dependendo de alguns fatores como o estilo, o estado e a marca das peças. “O mundo dos brechós também é muito plural. Tem gente de baixa renda e gente de muita renda. Fazendo esse recorte de pessoas que não são privilegiadas social e financeiramente, o brechó, por exemplo, potencializa para que elas se vistam da maneira que gostariam de ser, usando roupas criativas, diferentes, acessíveis e de qualidade”, conta o estudante.

A estudante Gabriela Cunha consome produtos de brechó desde 2018, quando ingressou na universidade. Andando pelos corredores, logo foi de encontro a um bazar que estava sendo realizado numa das pracinhas da instituição. A curiosidade foi tamanha e, como ela descreve, valeu a pena. Foi assim que começou uma paixão que arde até os dias de hoje. “É maravilhoso! O início do meu consumo de peças de brechó está muito em paralelo com a construção de um novo estilo que, agora, fala mais sobre mim. Também, tudo que há por trás desse consumo de brechó faz muito sentido pra mim”, expressa.  

Brechó não é mais sinônimo de desgaste, sujeira e velharia. É arte, expressão, diversidade e inclusão. Nele será possível encontrar artigos para todos os gostos, corpos, cores, tamanhos e idades. É representatividade e consciência. Dar uma nova cara, uma nova possibilidade de reaproveitar, de recriar a partir daquilo que já existe.

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