“Ame o teu próximo como a ti mesmo”

Os caminhos para vencer o preconceito e a intolerância religiosa contra praticantes de religiões de matriz africana

Por Gisele Oliveira

Praticantes de religiões de matriz cultural africana, principalmente Umbanda e Candomblé, costumam sofrer inúmeras violências físicas, intelectuais e psicológicas devido à intolerância religiosa ainda existente na sociedade atual.

Os dados nacionais mais recentes sobre denúncias de intolerância e violência religiosa no disque 100 são de 2019 e mostram a desvalorização e a falta de interesse dos governantes em relação ao tema. A maior parte das denúncias foram feitas por participantes de crenças como Umbanda e Candomblé.

A falta de conhecimento em relação à história da cultura afro-brasileira e africana pode ser apontada como uma das origens de tanto preconceito e violência. Os pensamentos presentes no senso comum acabam transmitidos entre gerações, acarretando o desenvolvimento de visões errôneas e distorcidas sobre esta cultura e principalmente sobre suas práticas religiosas.

No Piauí, o cenário de violência e intolerância religiosa não é diferente do nacional. O assessor de eventos José Leite, praticante do Candomblé, relata um dos muitos episódios que marcam sua vida constantemente. “Quando eu saí na rua com as minhas vestes, que caracterizam minha religião, e estava caminhando quando passei próximo a duas pessoas e essas pessoas fizeram o sinal da cruz, como se estivessem me repreendendo ou se protegendo, como se eles fossem o bem e eu fosse o mal. Esse gesto foi constrangedor, um desrespeito, um ataque…”

O cabelereiro Vânio Junior relata que sofreu um ataque preconceituoso por parte de uma cliente. “Uma cliente evangélica do meu studio de beleza, ao ver as minhas imagens na estante, falou que isso era coisa do cão e que não era correto.”

Segundo a vice-governadora do Estado, Regina Sousa, o governo defende o respeito acima de tudo, e a pluralidade e a diversidade religiosa são assuntos de extrema importância. “O governo do Estado entende a pluralidade religiosa como um direito do cidadão. Nós lutamos pela democracia da liberdade. Então religião, crença, é um direito das pessoas; acreditar no que quiserem, podem ser cristãs, não cristãs, até mesmo não religião, mas é preciso respeitar, principalmente as de matriz africanas”, afirma.

Regina Sousa ainda destaca que: “Temos uma Superintendência de Direitos Humanos, Gerência de Combate ao Racismo e a Intolerância Religiosa, e tem as coordenações de terreiros. Grupos de pessoas que trabalham no Governo para enfrentar essas intolerâncias. Não é questão de tolerar é respeitar”.

Celebração de São Jorge. Fonte: Arquivo pessoa de Bàbá Ítalo de Logunedé

O governo do Piauí desenvolve também políticas públicas para o combate e amparo às vítimas. O Coordenador de Enfrentamento a Intolerância Religiosa do Estado o Piauí, o Bàbá Ítalo de Logunedé, destaca que “as pessoas que sofrem intolerância religiosa e violência contam com apoio do disque 190, que direciona para a delegacia contra crimes de intolerância religiosa, tendo à frente o Delegado Sebastião Alencar”..

Todos têm o direito e devem fazer denúncias quando se  sentirem hostilizados ou ofendidos de forma preconceituosa, mas muitas vítimas preferem não fazer denunciar, ainda que muitos se sintam coagidos. “Não prestei queixa, pois acho que dá parte dela, era ignorância…”, afirma o cabeleireiro Vânio Junior sobre a cliente que fez comentário ofensivo.

Outra maneira de discriminação, são as brincadeiras e termos inseridos no cotidiano social. Geralmente são feitas por pessoas não praticantes de religiões de matriz africana, como é o caso dos termos “chuta que é macumba,” “está repreendido”, “ah! Não vou te irritar, senão você vai fazer macumba”.

 A gerência de combate e enfrentamento à intolerância religiosa desenvolve e realiza todo dia 21 de janeiro, desde o ano 2000, grandes movimentos e manifestações, na busca de resgatar direitos e mostrar à sociedade piauiense que o Estado é laico. Costumam ser promovidas palestras em escolas e sobre como a polícia militar deve agir com abordagem em terreiros.

Este dia é considerado o dia nacional de combate à intolerância religiosa e a data foi escolhida em homenagem a mãe Gilda, vítima da intolerância religiosa.

A IYalorixá Gildásia dos Santos e Santos, conhecida como mãe Gilda de Ogum, teve seu terreiro de Candomblé Ilê Axé Abassá de Ogum, localizado nas imediações da Lagoa do Abaeté, no bairro de Itapuã em Salvador, invadido por membros da igreja Deus é amor, que tentaram “exorcizá-la”.

Mãe Gilda teve sua imagem usada em uma edição da Folha Universal, publicação da Igreja Universal do Reino de Deus, com a seguinte manchete: “Macumbeiros charlatães lesam a Bolsa e a vida dos clientes – O mercado da enganação cresce no Brasil, mas Procon está de olho”. Os dois episódios fragilizaram a saúde de Mãe Gilda, que viria a falecer no dia 21 de janeiro de 2000.

É importante esclarecer que a falta de conhecimento e o preconceito são as principais causas de atos de intolerância religiosa. A solução está na educação, informação e respeito ao próximo. Conhecer a história de cada religião e respeitar a escolha do próximo é a palavra-chave para combate qualquer tipo de intolerância. “Ame a teu próximo como a ti mesmo e não faça aos outros o que não quer que façam contigo.”

“Eu gostaria que as pessoas soubessem que o Candomblé é uma religião que trabalha principalmente o amor a Deus, às pessoas e à natureza, porque nossos elementos são a terra, ar, água e fogo, é onde encontramos todos os nossos Orixás, tudo na natureza é sagrada para nós”, diz José Leite.

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