Moda agênero e a sociedade

Como uma revolução fashion implica em questões sociais?

Por Bárbara Fogaça e João Pedro Bezerra

A moda é um ramo que constantemente evolui e traz novas tendências para o nosso vestuário. Contudo, ela não diz respeito apenas à nossa aparência, é também uma forma de expressão, e por isso é responsável por levantar muitas discussões sociais. O conceito de moda Genderless, ou Agênero, já é comum dentro da comunidade LGBT+, mas também vem sendo desmistificada e aceita pelos demais públicos, ainda que sofra bastante retaliação em alguns meios.

Um exemplo recente de preconceito baseado em vestimenta foi o caso do pedagogo Thiago Marques. Mesmo sendo homem cisgênero e heterossexual, Thiago foi vítima de comentários de ódio após publicar fotos em que aparece vestido de bailarina, em ensaio fotográfico com sua filha mais nova. “Torcemos para que todos sejam respeitados como humanos e não como rótulos. No dia em que as pessoas conseguirem ver além das expectativas criadas pela sociedade, teremos mais harmonia e aceitação!”, afirma Thiago.

Thiago e filha (Fonte: Reprodução/Instagram)

Em meados de 1920, a moda unissex teve seu primeiro momento de luz com a criação de peças de modelagem “masculinas” voltadas para o público feminino, e assim surgiu a androginia na moda. Com o passar do tempo e a evolução do pensamento, foi possível ver cada vez mais as portas se abrindo para que pessoas pudessem se expressar da forma que quisessem. Porém, ainda hoje, pode-se perceber que essa liberdade só existe efetivamente em segmentos específicos da sociedade.

Estilo de moda andrógino popularizado na década de 1920. (Fonte: Reprodução/Pinterest)

Conversamos com o acadêmico de Moda e digital influencer Davi Lutasi que, em 2019, vivenciou uma situação de preconceito por causa da roupa que vestia. Davi voltava de uma festa com amigos quando resolveu parar em um restaurante de fast-food de Teresina para comer e não foi recebido da melhor forma. O atendente do restaurante se recusou a atender Davi com a justificativa de que este estava sem camisa. Davi vestia um top de academia “feminino”.

Davi Lutasi no dia do ocorrido (Fonte: Reprodução/Instagram)

O influencer gravou vídeos de todo o ocorrido e publicou nos stories do Instagram, o que gerou grande repercussão e debate na internet teresinense, com manifestações tanto contra, quanto a favor de Davi. O alvoroço acabou resultando na demissão do funcionário que se recusou a atender Davi, que foi readmitido após pedido do influencer.

Lutasi, em entrevista, discorda que a moda baseada em gênero deva ser abolida, e afirma que o que deve ser normalizado são as pessoas que escolhem não se vestir de acordo com essa construção e sim de acordo com sua própria expressão no mundo. “Moda é sobre se expressar, é um meio de comunicação, assim como o jornalismo, pelo qual você pode exteriorizar suas emoções, desejos e protestos. As pessoas não devem ter receio de serem elas mesmas, o que deve ser evitado é a falta de respeito e empatia pela vivência de outro ser humano e suas escolhas”, completa Davi.

Davi Lutasi (Fonte: Reprodução/Instagram)

O influencer ainda afirma que desde criança sofre bullying por causa de sua forma de se expressar, e que já está acostumado com comentários maldosos na internet pois teve de lidar com isto no tempo em que a discriminação era feita cara a cara. “Trolls que se escondem por trás de contas falsas para falarem o que pensam, a representação de covardia na modernidade […] preconceito e homofobia quase sempre vêm junto desses comentários maldosos”.

Davi Lutasi acredita que a retaliação à moda agênero está ligada à relação da sociedade com qualquer tipo de minoria. “Pessoas preconceituosas marginalizam esse grupo e não querem permitir que ele faça parte do meio social ativo convencional e nem que ocupe lugares de importância, assim como fazem com os pretos, LGBTs e mulheres nesse país”. O influencer completa afirmando reconhecer seus privilégios e utilizar sua voz para disseminar essa forma de se vestir. “E faço questão de registrar tudo no meu perfil do Instagram para que a mensagem alcance ainda mais pessoas”, completa.

Conversamos também com Danielle Araújo, professora do curso de Moda da Universidade Federal do Piauí. Ela acredita que a moda está diretamente ligada ao que acontece nas esferas política, econômica, social e cultural. “Apesar de um ensaio com o unissex nos anos 1970, somente agora de fato a sociedade mostra e reividica suas diferenças, seus direitos”, completa a professora.

Moda unissex popularizada nos anos 70. (Fonte: Reprodução/Pinterest)

A moda é um fenômeno que reflete culturalmente a sociedade em que vivemos, mas também é um negócio e visa lucro. Segundo Danielle, todo negócio precisa de um público disposto a consumir, então a indústria está abrindo mais espaço para a moda agênero porque mais pessoas estão abertas a esse novo nicho. “Vale lembrar que o mesmo caminho foi percorrido pelo Plus Size. Até se romper a barreira social da gordofobia as marcas de moda não trabalhavam tamanhos maiores […] Hoje já temos marcas voltadas só para o segmento agênero, como Isaro, Pangea e Galo solto”, completa a professora.

“Em toda sociedade sempre existem aquelas pessoas ditas “a frente do seu tempo” que não se conformam com a realidade. São essas pessoas corajosas que quebram essas barreiras e mostram que pode sim ser diferente.  E então tudo começa a se transformar. Chanel é um exemplo disso. Trouxe o guarda roupa masculino para o universo feminino e pôs a mulher de calça e terno numa época em que isso era inadmissível. E assim se conquista espaço e se muda a realidade.”

Danielle Araújo
Ator Billy Porter em tapete vermelho do Oscar (Fonte: Reprodução/ABC)

As experiências de Davi e Thiago representam milhares de pessoas que fogem dos padrões sociais de vestimenta e comportamento. Pois a sociedade no geral segue com estilo de vida baseado na binaridade, ou seja, oposição entre gênero masculino e feminino.

Não se nasce com esse padrão, ele é imposto ao indivíduo ao longo da vida, assim como a própria concepção de gênero em si e os papeis que lhe são vinculados. Nem todos se identificam com o papel social que lhe é imposto e qualquer um que desafie o status quo é tratado, muitas vezes, com rejeição e violência por aqueles que o cercam. Felizmente o mundo e as pessoas têm evoluído, e quem antes vivia à margem da sociedade, hoje tem a oportunidade de ter sua voz ouvida, e de formar grupos com pessoas que compartilham da mesma experiência e, assim, reivindicar uma sociedade mais justa e colorida.

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