Faces do abandono na terceira idade

Quando a negligência cresce, junto com os cabelos brancos e o enrugar das mãos

Por: Andréa Patrícia | Wellington Bandeira

Foto: Andréa Patrícia | Edição: Sérgio Tomaz

Memórias marcantes e dolorosas. “Minha sobrinha pegava meu cartão, sacava todo o meu dinheiro e não me dava um centavo, pra comer eu precisava ir pra rua, pedir esmola”; se alternam entre as lembranças positivas do passado: “ah! Eu morava na Morada do Sol com minha esposa, era tão bom”. É assim que acontece o diálogo com Antônio de Pádua, 75 anos, que diversifica rapidamente sua prosa cheia de sentimentos.

O idoso faz parte de uma face triste da sociedade – a parcela que abrange vítimas do abandono. Sua vida não é mais a mesma. Sua alternância de assuntos, bem mais do que sinais da idade, que podem implicar em uma diminuição da capacidade funcional, mostram, através do seu olhar, um desejo de fazer com que as lembranças boas de um passado distante, superem as vivências ruins de um delicado presente.

Essa dura realidade longe está de ser exceção. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2017, a população de idosos no Brasil chegou a mais de 30,2 milhões de pessoas. Com isso, no período de 2012 a 2017, o número de homens e mulheres com 60 anos ou mais nos albergues públicos cresceu de 45,8 mil para 60,8 mil.

Os números, bem mais do que dados para registro, representam histórias e memórias, que, na maioria das vezes, querem ser apagadas.

“É muito difícil para os idosos falarem sobre o abandono, principalmente, porque costuma ser ocasionado pela família e, na maioria das vezes, eles buscam proteger seus agressores das denúncias, pois ainda consideram o laço familiar”, comenta Liliane Batista, diretora da Casa de Acolhimento São Lucas.

A instituição, sediada em Teresina, Piauí, surgiu em 1989, com objetivo inicial de acolher pessoas em situação de rua. Hoje, acolhe idosos vítimas das mais diversas violações de direitos e vulnerabilidades sociais.

Infelizmente, a família e a sociedade, em alguns casos, colaboram para a cultura de que os idosos são descartáveis socialmente, gerando o abandono. “A sociedade precisa entender que quem tem que cuidar dos seus idosos é a família; quem cuida durante nossa infância, quando não há qualquer rompimento familiar, são nossos pais. A família não está cumprindo sua obrigação”, acrescenta Liliane.

Entre os casos da negligência familiar, a falta de cuidado também envolve Maria Cândida Luz, 71 anos. Hoje, seus cabelos brancos descrevem o tempo que passou e, com ele, levou sua história a uma casa de acolhimento. “Eu estou estudando para passar em um concurso; ah! Eu também sou fiscalizadora aqui da casa. Sabe? Eu nunca me casei. Eu gostava de estudar. Ah! Eu gosto daqui, estou estudando para passar em um concurso”, percorre entre seus diversos pensamentos.

“A Dona Maria Cândida é uma idosa muito ativa. Ela lembra vagamente de seu passado, devido às diversas marcas que possui dele. Mas também fala de muitos sonhos atuais, que ainda alimenta. Inclusive, diz que está vivendo um romance com um entregador de cartas. Os idosos chegam às instituições com distintas vulnerabilidades, sejam sociais, físicas e psicológicas, aqui, trabalhamos com eles uma nova vida”, comenta a diretora.

Nielse Moreira, 64 anos, é outra idosa que tem sua história atual atrelada à negligência familiar, acrescida de um agravante: a violência física por parte de seus parentes. Apesar dos traumas ainda ecoarem em sua mente, Nielse busca exercer atividades que considera fortalecedoras, a principal delas, é cantar.

“Há situações que nos fazem descrer na humanidade, como um caso triste de uma idosa que chegou aqui, após ser abusada por seu filho e sobrinho. Já outros, nos fazem ver esperança na humanidade, como o da Nielse. O Estatuto do Idoso diz que o cuidado dos idosos é obrigação da família, depois do Estado e depois da sociedade, mas vemos que essa pirâmide se inverteu; a família não pode cuidar, o Estado cruza os braços e correm para as instituições”, desabafa Liliane.

Estatuto do idoso prevê punições severas

Tais violações, além da repulsa moral, também podem ser alvo de punição legal, com base no Estatuto do Idoso, que assegura que essa parcela da população não pode ser objeto de qualquer tipo de negligência, discriminação, violência, crueldade ou opressão, e todo atentado aos seus direitos, por ação ou omissão, será punido na forma da lei.

“O Estatuto é uma lei federal que protege a pessoa idosa e tipifica uma série de crimes. Abandonar um idoso em hospitais, casas de saúde ou instituições de longa permanência é crime. Importante frisar que a violência não é apenas a física. O tipo de violência que o idoso mais sofre no Piauí está ligado ao abandono, à falta do cuidar e a negligência”, destaca Jória Batista, presidenta da Comissão dos direitos da pessoa idosa da Ordem dos Advogados do Brasil – Piauí.

De acordo com os dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos referente somente aos primeiros meses de 2018, no estado do Piauí, foram registradas 253 denúncias de violência a pessoa idosa pelo Disque 100. Estes números não representam o total de ocorrências no estado, uma vez que a maioria dos delitos são silenciados por medo ou a falta de informação ao realizar a denúncia.

Apesar das medidas previstas, Jória destaca que a falta de denúncia dificulta a punição de quem comete qualquer tipo de violência contra a pessoa idosa. “A violência em 99% dos casos costuma ser praticada por uma familiar, o que dificulta as denúncias, pois a pessoa idosa dificilmente denuncia sua família”, acrescenta.

Foto: Andréa Patrícia | Edição: Sérgio Tomaz

Toda situação que exponha a risco a pessoa idosa, em qualquer aspecto que seja, deve ser denunciada. Seja através do Disque 100, da Delegacia da Pessoa Idosa, da Defensoria Pública, do Ministério Público. O mais importante é entender que o silêncio pode abalar ainda mais a trajetória final de uma vida.

Qualquer tipo de violência deve ser denunciada, principalmente, quando acontece do portão para dentro, no seio do lar. O principal ponto é que quem ama, não violenta; quem ama, não ambiciona o dinheiro, em detrimento do cuidado. O abuso psicológico afeta o bem-estar; o financeiro, utiliza ilegalmente sua renda; o físico, deixa marcas além da pele. Em todos os casos, causam danos em quem, na maioria das vezes, já não possui forças para se defender.

O isolamento pode causar danos irreparáveis à saúde dos idosos

Uma pesquisa conduzida pelo Departamento de Epidemiologia e Saúde Pública da University College London, comprovou que o isolamento pode contribuir para o desenvolvimento de doenças infecciosas e cardiovasculares, o aumento da pressão arterial e de hormônios, além de aumentar em 14% as chances de um óbito. No estudo, publicado em 2013, na revista científica  “Proceedings of the National Academy of Sciences“, foram acompanhados 6.500 homens e mulheres por oito anos.

Para a psicóloga Valéria Brito, especialista em processo comportamental de idosos, os efeitos provocados na saúde, em virtude desse isolamento, são devastadores. “o abandono familiar pode ter um impacto muito grande nos idosos. A sensação de solidão afeta a saúde de diversas formas, podendo, por exemplo, aumentar o estresse, reduzir a autoestima ou contribuir para a depressão”, afirma.

Outro fator importante que a psicóloga relata é relacionado à adaptação dos hóspedes vítimas de violência, já que os mesmos encontram nestas casas mais segurança e, sobretudo, a atenção de cuidadores. “Muitas vezes esses idosos precisam passar por uma série de tratamentos psicológicos, a maioria tende a resultados positivos, já que encontram alguém para ouvi-los e até para enxugar suas lágrimas”, diz Valéria.

É o caso do Antônio de Pádua, que deu início a essa história e fez questão de destacar algo que considerou importante. “Meus filhos (foi assim que se dirigiu a nós), eu sou feliz aqui, sabe? Tenho comida, café da manhã, almoço, jantar, tudo que eu não tinha na rua”, comenta, enquanto pega em nossas mãos e oferece um olhar esperançoso, com uma grande risada irradiante.

Foto: Andréa Patrícia | Edição: Sérgio Tomaz

Mesmo com todos os cuidados que esses idosos recebem nas instituições, não se pode compará-los aos bons cuidados que os familiares podem ofertar. Seu Antônio, atento a quem se aproxima, olha para um lado e para o outro, nos chama com as mãos, e diz, de forma sussurrada. “Mas se você perguntar se eu queria continuar aqui, eu não queria, vocês me entendem?”, e volta ao seu lugar, com um olhar perdido. Logo após, decidiu acrescentar algo. “Eu gosto daqui e sou tratado bem, mas não era o que queria pra mim, ficar em um abrigo”, e se afasta mais uma vez. Após sua declaração, e um breve momento de silêncio, ele volta a sorrir e agradece por ter um lar.

Aos leitores

Ao chegarmos à casa de Acolhimento São Lucas, local em que colhemos os depoimentos dos idosos, notamos olhares que acompanhavam os passos de duas pessoas desconhecidas que se aproximavam; olhares que transmitiam os mais diversos sentimentos: dor, esperança, saudade, gratidão e curiosidade.

De forma única, notamos que apesar da felicidade em ter um lar, as marcas dos traumas ainda abalavam a vida de muitos acolhidos. Ao passo em que a gratidão também se manifestava, pois longe de uma vida de violências, em quaisquer aspectos, ali, naquele local, tinham amigos e parte de sua vida restabelecida, devido o afastamento a situações que violam seus direitos. Resta-nos, como cidadãos cientes que a velhice é um processo natural da vida, uma oportunidade para aprendermos com os ensinamentos de nossos idosos, mesmo quando chega a noite, a lua ilumina os medos. Quando o dia amanhece, o sol irradia novamente a esperança de um mundo mais humanizado.

Atualmente, a instituição necessita de alguns bens específicos, sendo eles: leite em pó integral, material de limpeza (sabão em pó, água sanitária, desinfetante e sabão líquido) e alimentos em geral. Caso possa contribuir com a causa, pode entrar em contato através do número (86)3231-3733 ou ir diretamente a Casa de Acolhimento, no seguinte endereço: avenida Dr. Nicanor Barreto, 5280, Vale Quem Tem, Teresina-PI.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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