Arte inclusiva: Um caminho de resistência para a comunidade surda

Grupos surgem com o objetivo de visibilizar e representar a arte feita dos surdos para os surdos

Por Edson Benedito e Rebeca Lima

O cenário era o mesmo toda semana. Assim que saía um episódio novo da novela Carinha de Anjo do SBT, Mikaelly Maciel corria para pedir ajuda ao amigo Mário Augusto para que ele interpretasse o que havia acontecido no capítulo da telenovela. Ela, como grande parte da população do país, é apaixonada pelas produções dramáticas no horário nobre da TV aberta. Todavia, por ser surda, a compreensão ficava comprometida devido à falta de legendas nos episódios, sendo necessária a ajuda do amigo para algo que para nós ouvintes ocorre de maneira tão simples.

Mário Augusto (Foto: Rebeca Lima/Portal Luneta)

Mário é professor e intérprete de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) que hoje leciona para alunos surdos e ouvintes de todas as idades. Além de seguir a carreira do magistério, também atua como roteirista, ator e diretor da novela para surdos “A família Silva”, disponível no Youtube.

Após perceber que assim como a sua amiga, os outros membros da comunidade surda também gostavam de novelas, porém, sentiam a mesma dificuldade ao consumir o conteúdo, Mário decidiu criar uma webnovela onde todos os personagens se comunicam apenas por meio da língua brasileira de sinais.

O professor diz que tudo começou como uma brincadeira, mas que hoje “A Família Silva” já chegou a surdos de outros estados, conquista que o deixa muito emocionado. “Era algo bem local mesmo (só uma brincadeira) e eu comecei a postar no YouTube para os surdos daqui de Teresina. Só que a galera de outros estados começou a assistir e foi viralizando”, explica Mário.

O elenco da novela é formado por amigos surdos de Mário, alguns já haviam tido experiências prévias com o teatro. Contudo, ele afirma que mesmo sem o teatro no histórico, os surdos são atores natos, devido ao fato de que desde crianças se comunicam com o corpo para que possam ser entendidos pelos ouvintes. 

Vídeo: Reprodução/Youtube

Resistência

Oriundo de uma família humilde do município de Duque Bacelar, no Maranhão, Wilson de Sousa ainda carrega os calos nas mãos devido ao trabalho na roça que exerceu para ajudar os tios e a avó que o criaram na infância. O menino criativo e sonhador que sempre almejou trabalhar com arte, hoje, coleciona prêmios nacionais em seu currículo.

Em sua pré-adolescência, Wilson foi acometido por uma meningite (infecção das membranas que revestem o cérebro e a medula espinhal). “Faltou pouco para eu morrer, mas Deus precisava da minha existência pra contar a história da pessoa guerreira que sou”, conta o ator. Com a doença, Wilson ficou com sequelas que afetaram a sua audição e visão.

Wilson de Sousa (Foto: Reprodução/Instagram)

Porém, mesmo com todas as dificuldades, o menino maranhense nunca deixou a sua paixão pelo teatro morrer. “Comecei a frequentar o Theatro 04 de Setembro, para assistir espetáculos com artistas aqui da terra. Meu maior sonho era viver diversos personagens na pele. Fiz um curso de dramaturgia na UFRJ, e a vontade ia aumentando cada vez mais de viver nos palcos. Comecei a escrever textos teatrais, adultos, infantis, monólogos, as tramas eram bem elaboradas, aí não parei mais”, narra Wilson.

Hoje, o dramaturgo coleciona em sua estante alguns prêmios que o orgulham. “Em 1992 escrevi o monólogo “Diário de uma Feirante”, uma trama baseada na labuta do feirantes do Mercado Velho, ganhei 37 prêmios com ele em todo o estado e país”, ressalta o artista.

Com o objetivo de levar a arte para lugares onde ela não chega, criou o teatro de bolso Maria de Nazaré Neri, nome dado em homenagem a sua mãe, palco de resistência que já recebeu diversas peças nacionais. No teatro, localizado no bairro Parque Jurema, também ocorrem oficinas e cursos de arte para as crianças da comunidade. “Ministro oficinas de bonecos de massas, espumas, máscaras, etc, pois fiz o curso de Artes na UFPI em 1979. Eu sempre sonhei com o que queria construir (meu Teatro) e aonde queria chegar (hoje)”, relata o dramaturgo emocionado.

Arte para quem?

Segundo o professor Luann Carneiro, apresentações em libras são muito importantes devido a visibilidade e representatividade para a comunidade surda. Isso o motivou a desenvolver a sua própria performance em libras. “É muito legal quando o surdo faz isso (performance) em libras porque o surdo também é capaz de fazer poesias, de emocionar, de mostrar o empoderamento. E aquelas pessoas que assistem as poesias podem perceber que os surdos também estão presentes nas artes e na sociedade”, ressalta Luann.

Vídeo: Reprodução/ YouTube

O professor Mário Augusto ainda diz que os surdos amam cinema, porém, são obrigados a se limitar somente aos filmes estrangeiros devido à falta de legenda nas produções nacionais. Entretanto, recentemente, uma vitória para a comunidade surda do Brasil foi o anúncio dos recursos de libras e legendas descritivas do filme nacional Turma da Mônica – Laços (hiperlink trailer do filme), adaptação das histórias em quadrinhos do escritor Maurício de Sousa.

O anúncio foi dado em LIBRAS, na conta oficial da divulgação do filme no Instagram, pela atriz Giulia Benite, que interpreta a personagem principal. Além dos recursos de acessibilidade citados, o longa contará com a ferramenta de audiodescrição para os deficientes visuais.

A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Laboratório Avançado II: Webjornalismo – 2019.1, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira.

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