Fome no Brasil: os roncos de uma nação

No Brasil, o pior período da fome aconteceu na década de 1980

Repórteres: Lorena Caldas e Matheus Souza

 

Não há nada mais prazeroso que comer algo que se gosta. Mas também, não há nada mais doloroso do que o vazio em um prato de comida. A fome que assola a nação brasileira é frequentemente associada a regiões ou fenômenos climáticos como a seca, embora diversos fatores sociais como a dificuldade de democratização ao acesso de terras, produção e distribuição de alimentos, seja um problema multifatorial que afeta mais 800 milhões de pessoas em todo o mundo.

No Brasil, o pior período da fome aconteceu na década de 1980, no qual 40% da população da época viviam em extrema pobreza, sem ter o que comer ou que não ingeriam a quantidade mínima necessária para uma alimentação adequada, apresentando problemas de nutrição.  A situação inspirou Josué de Castro a mapear as principais carências nutricionais no Brasil e publicar o clássico Geografia da Fome no Brasil.

Apenas a partir de 2003, com a criação do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), foram promovidas ações e políticas públicas em combate à pobreza e a situação da fome no país. Em 2014, após a diminuição do número de pessoas subalimentadas, o Brasil conseguiu deixar o mapa da fome da Organização das Nações Unidas (ONU), onde constam os países com mais de 5% da população ingerindo menos calorias que o recomendável. Contudo, a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), que divulga periodicamente o Mapa da Fome no Mundo, publicou em 2017 um relatório feito por 20 entidades da sociedade civil, que alerta para uma direção incômoda: o retorno do Brasil ao mapa indesejado da fome.

Fome no Brasil: os roncos de uma nação. (Foto: Victor Martins)

Quando o de cima sobe e o de baixo desce

Após três anos da saída do Mapa da Fome, o Brasil poderá voltar ao terrível cenário que agravou por anos a situação do país. Uma das consequências para esse tipo de acontecimento é o aumento do desempenho dentro das capitais e centro urbanos, como também, o corte de beneficiários de programas sociais como o “Bolsa Família” e o congelamento de gastos públicos para superar a crise financeira na qual o Brasil se encontra com dívidas externas e superfaturamento dentro da sua economia.

Com o golpe que destituiu a Presidenta na época Dilma Rousseff, afetou sobretudo a população mais pobre. Com o aprofundamento da crise política econômica, aumentou o número de desempregos e de cortes em ações como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Fome no Brasil: os roncos de uma nação. (Foto: Victor Martins)

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) classifica a fome em três níveis de insegurança alimentar: o leve, onde a preocupação mora na quantidade e não qualidade; a moderada, onde existe limitação na quantidade de alimentos e a grave, na qual existe a fome decorrente da real falta de alimentos. O Nordeste do Brasil segue como a região onde o problema é mais grave, seguida da região Norte; onde o Maranhão, Piauí, Amazonas e Pará, se destacam pela dificuldade de alimentação adequada, nessa ordem.

Para o economista Eduardo Oliveira, o grande problema está nas políticas exportadoras, o congelamento de gastos sociais e o desemprego, no qual 3,4% da população economicamente ativa, aproximadamente 13 milhões de brasileiros, encontram-se desempregados. “O que acaba favorecendo esse retorno ao Mapa da Fome é a predileção por política primária exportadora, onde se têm um orçamento em função do agronegócio, voltada para o exterior. Então, essa política de predileção vem desviando recursos da agricultura familiar, e consequentemente, contribuindo para que o país deixe de estar produzindo alimentos de forma suficiente e de qualidade na perspectiva de soberania e segurança alimentar para toda a sua população”, pontua o economista.

Para navegar mais profundamente no assunto, assista o documentário Histórias da Fome no Brasil, idealizado por Daniel de Souza, presidente da Ação da Cidadania. A produção mostra cronologicamente a história da fome no país, que vai desde o Brasil colônia até as recentes políticas públicas que levaram o país a sair do Mapa da Fome.

A dor da inacessibilidade

Mariana Saturnino de 33 anos, tem três filhos com a faixa etária entre 10 e 18 anos e reside no município de Prata do Piauí, localizado no Centro Sul do estado. Ela conta que desde 2003 recebe o seu auxílio no programa Bolsa Família e desde a sua entrada no Castrado Único do Governo Federal melhorou significantemente sua situação financeira, além da questão da fome que antes passava no município onde reside. “Melhorou e muito a minha situação financeira, eu passava muita fome aqui com minha família. Nós nos sustentávamos com pequenos bicos e diárias que podíamos fazer de vez em quando. E quando veio o Bolsa família, melhorou a nossa situação de miséria na qual vivíamos, dando até para comprar diariamente alimentos necessários para nossa sobrevivência se fôssemos comparar com antigamente”, diz ela.

Fome no Brasil: os roncos de uma nação. (Foto: Victor Martins)

Porém, a partir de várias práticas como doações e distribuições de alimentos a pessoas carentes, possivelmente este problema social não se agrave, como é o caso de mercados municipais de alimentos no estado do Piauí, que recentemente abriram novas possibilidades para a abertura de parcerias com os órgãos beneficentes que realizam trabalhos voluntários.

Janice Lustosa, técnica operante pela administração do recente Banco de Alimentos (BA) da Nova Ceasa , é responsável pela separação e distribuição de Frutas, Verduras e Legumes (FLV), para organizações credenciadas de doações de alimentos. Ela diz que esse tipo de iniciativa apenas é possível em poucos estados brasileiros e explica como realmente funciona esse BA. “O Banco de Alimentos (BA), funciona articulado com unidades de comercialização (permissionários da Nova Ceasa) para o recebimento de doações de alimentos fora dos padrões de comercialização, mas sem nenhuma restrição de caráter sanitário. Ou seja, são produtivamente valor comercial, mas que não comprometeram seu valor nutricional e portanto são próprios para o consumo humano”, conta.

Janice ainda ressalta sobre os critérios desse BA dentro da Nova Ceasa, que funciona há muitos anos diariamente na venda de frutas e verduras dentro da cidade de Teresina no Piauí. “Esse é o primeiro Banco de Alimentos do Piauí, e no Brasil nessa mesma modalidade são oito no total. Os alimentos arrecadados são variados, de acordo com a doação dos permissionários, mas em geral estão relacionados a categoria das FLVs”.

“Existem alguns critérios para ser beneficiadas pelo BA. A instituição precisa estar legalizada, isso inclui ter CNPJ, estatuto social, projetos que justifiquem a necessidade de atendimento e que tenham relação com segurança alimentar e nutricional. A nova Ceasa abriu um edital com esses critérios e 87 instituições se inscreveram, das quais 20 foram selecionadas inicialmente”, finaliza.

O acolhimento dos invisíveis

Apesar dos muitos problemas que o Brasil enfrenta devido à fome e a pobreza de sua população, há outro lado que precisa ser falado: o lado que acolhe e resiste. São muitas as ONGs, coletivos e grupos de pessoas que destinam um pouco do seu tempo e recursos para com quem necessita. São ações filantrópicas que lutam diariamente pelo direito à alimentação, cuidados, saúde, educação e também, ao poder de um abraço.

Teobaldo Santos de 22 anos é integrante de um grupo de jovens denominado Rotaract, da Zona Leste de Teresina, que tem como objetivo ser um grupo humanitário que desenvolve ações para melhorar o mundo por meio de patrocínios de outro grupo denominado “Rotary”. E uma dessas ações é a distribuição de alimentos para comunidades em situação de pobreza que residem em algumas localidades no estado do Piauí.

“Em alguns tempos nós realizamos doações de kit básicos de alimentos, e escolhemos por questão de situação financeira, algumas famílias e comunidades que necessitam desses alimentos ou pessoas que vem por meio do órgão atrás de ajuda, como aconteceu uma vez, no qual uma família de Timon no Maranhão, estava necessitando de muita ajuda, pois existiam mais de seis crianças em situação de fome e necessidade. Então, nós do Rotaract realizamos a doação de seis cestas básicas de alimentos para esta família”, ressalta.

O grupo ainda presta atividades em outras temáticas, como práticas educativas e brincadeiras com crianças que possuem poucas atividades de lazer e recreação. “Ano passado realizamos pequenas brincadeiras e distribuição de cachorro-quente para as crianças de uma comunidade carente no município de Teresina. Eles não têm muitos recursos para comprar ou até mesmo fazer receitas como essa em casa, portanto, realizar isso foi muito gratificante”, conta o integrante.

Outro coletivo que abraça as causas do próximo é o grupo Eu Quero Ajudar. O grupo atua em toda a capital com ações em praças e hospitais de Teresina. Priscilla Jacó, idealizadora da iniciativa, conta que sempre fez parte de ações solidárias juntamente com sua família, mas que foi no Natal de 2012 que o coletivo iniciou sua programação, distribuindo macarronada como ceia de Natal para pessoas em situação de rua e carentes: a Natalrronada. “Após esse evento, eu percebi que as carências se sobrepunham as carências do alimento. E essa necessidade se estendia durante o ano todo, e não só do alimento em si, mas de falar de como foi seu dia, da saudade dos familiares. Então resolvemos estender essas atividades que hoje acontecem todos dos dias da semana, com exceção do sábado”, conta a idealizadora do projeto.

O grupo atua em diversas praças de Teresina com a distribuição de alimentos, roupas e atividades interativas. Mas também, busca agir e acolher pessoas em hospitais e seus acompanhantes, que em muitos casos viajam para acompanhar um ente querido e não tem condições financeiras de se alimentar e sustentar na capital. “A fome é muito mais comum do que imaginamos. Mas creditamos que o pouco que fazemos já muda o dia de uma pessoa que às vezes dormiria sem se alimentar, assim como muda o sentimento dessa pessoa para com o mundo. Então, eu acho que cumprimos nossa missão muito bem, quando tiramos um pouco do nosso tempo e o mínimo do que temos para dividir com essas pessoas”, finaliza Priscilla.

 

 

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A produção jornalística que você acaba de ler/ouvir faz parte do trabalho desenvolvido pelos estudantes da disciplina de Webjornalismo – 2018.2, administrada pela professora Dra. Juliana Teixeira. 

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