Microcefalia por zika: amor e dedicação de mães aumentam a qualidade de vida de bebês

“Os médicos diziam que o meu filho não iria falar. Após três anos de tratamento, meu filho diz todos os dias: mamãe, eu te amo,” diz Deusiane, mãe de Lucas Gabriel.

Repórter: Wellington Bandeira

Três anos após os primeiros alertas de casos de microcefalia  relacionadas ao zika vírus, no Piauí, mães de bebês com má formação se unem ainda mais em busca de melhorias na saúde para seus filhos. Em busca de informações e serviços, elas lutam também contra a desinformação e preconceito na rotina diária.

Mãe de Vitória Camila (a menina completa 3 anos em janeiro), a dona de casa Rita Martins Barros, 28, conta o quanto o fenômeno social da microcefalia e outras complicações associadas ao zika abalaram a sua saúde mental. “Durante o período da gravidez, eu fiz o exame morfológico (conhecido popularmente por ultrassom, para avaliar o desenvolvimento do bebê com detalhe, incluindo os órgãos internos), que detectou a microcefalia. Fiquei depressiva e muito assustada. Quanto mais eu via as reportagens, mais ficava com medo”, recorda Rita, que precisou parar de trabalhar para cuidar de Vitória. E como o próprio nome da filha pressupõe, Vitória vem tendo um desenvolvimento significativo desde os primeiros meses das estimulações.

Ao longo dos três anos, esse retrato social representa a maioria das 115 famílias, no Piauí, com crianças que nasceram com a microcefalia até junho deste ano, segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde (Sesapi). Esse é o número de casos confirmados da condição, que segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um conjunto de malformações e problemas apresentados por bebês que tiveram mães infectadas pelo vírus da zika durante a gestação. A microcefalia é só uma das consequências, já que também pode influenciar as habilidades cognitivas, comunicativas, motoras e sociais.

No Centro Integrado de Reabilitação (Ceir), cerca de 80 crianças com microcefalia são atendidas. Elas passam tarde entre atividades de fisioterapia, fonoaudiologia e acompanhamento psicológico. Contudo, a necessidade de cuidados contínuos ainda exige atenção em tempo integral de quem cuida de uma criança com microcefalia.

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Crianças participam de oficina com à ajuda de fisioterapeutas. (Foto: Wellington Bandeira/ Portal Luneta)

“Gostaria que fossem mais atendimentos a todas essas crianças. Quando minha filha nasceu, eu fiquei pensando em como iria dar conta. Depois de quatro meses dentro de casa, fui encaminhada a este centro para melhorar a qualidade de vida da minha filha”, diz Germana Soares de Amorim, 27, mãe de Alice Emanuele, diagnosticada com microcefalia ainda na gravidez, também recebe suporte profissional do Ceir, com sede na Av. Higino Cunha, 1515 , bairro Ilhotas, Zona Sul de Teresina.

Unidas vencerão o preconceito e a desinformação

Deusiane Alves da Rocha, 35, teve o Lucas Gabriel no ano de 2012, três anos antes do surto de microcefalia no Brasil. Devido a diversas complicações, após o nascimento de Lucas, ele teve que ser submetido a quatro meses na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).  O diagnóstico da microcefalia foi descoberto após levar seu filho a uma consulta na neurologista. Notoriamente, com convicção e espontaneidade, Deusiane conta que não ficou espantada após a confirmação dos exames.

“Não me espantei não. Porque meu filho não é um diagnóstico, e eu tenho muita fé. Foquei na reabilitação dele com fisioterapias. Eu vivo exclusivamente pra ele. Tenho tido bons resultados”, relatou.

Mesmo com o apoio especializado e a união com outras mães, o preconceito e a falta de informação ainda é uma realidade para as crianças com microcefalia. “Muitos não tem o conhecimento, porquê quando uma criança tem microcefalia, ela tem uma cabecinha um pouquinho achatada, como era do meu filho. Então, as pessoas fazem muitas perguntas indevidas que machucam,” desabafa a mãe do Lucas Gabriel.

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Deusiane e o filho Lucas Gabriel. (Foto: Wellington Bandeira/ Portal Luneta)

Após sair do emprego para ter o tempo necessário para acompanhar o tratamento do filho, Deusiane recebe o Benefício de Prestação Continuada (BPC), um auxílio do governo federal para mães de bebês com microcefalia no valor de um salário mínimo por mês; contudo, o benefício não cobre com todas as despesas.

Sem os pais, mães cuidam de seus bebês

Assim como Deusiane, a dona de casa Joseane Ferreira de Morais, 24, mãe de Heitor Morais, de dois anos, conta com o suporte social do Centro Dia “Saber Cuidar”. A casa é especializada em atender crianças com microcefalia e outras deficiências associadas ao zika vírus no Piauí. No local, 49 crianças são cadastradas e nove são atendidas por dia com atividades lúdicas e cuidados para o desenvolvimento infantil. “Trago o meu filho três vezes por semana pra cá, aqui me sinto em casa. Moro no bairro Jardim Europa. Minha vida mudou completamente, eu não posso trabalhar. Estou à total disposição do meu filho”, conta Joseana.

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Heitor tinha acabado de tirar uma soneca. (Foto: Wellington Bandeira)

Sem a presença do pai, a mãe do Heitor, sente muitos obstáculos, pois além da dificuldade para garantir o tratamento adequado ao filho, ela precisa assumir gastos e responsabilidade sozinha. Porém, não desmerece o tamanho do carinho que o filho recebe do pai. “Quando ele nasceu foi um susto, mas não fiquei tão abalada. Ele é o meu filho e tenho que cuidar dele de qualquer jeito. O pai dele é que não aceitou muito, mas depois aceitou’’, disse.

Emoções precisam ser registradas

Confira abaixo, bons exemplos de pessoas que se dedicam com a sensibilização positiva de crianças com microcefalia. Joelson Souza, que mora no Recife-PE, realizou um ensaio fotográfico com bebês na União de Mães de Anjos (AMA), uma organização de mães que reivindicam os direitos de crianças com microcefalia. O ensaio ganhou o nome de “Macroamor”. 

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