Produção cultural teresinense: o outro lado da tela

Ana Clara Bispo e Assislene Carvalho

Com inúmeros talentos, a produção cultural teresinense esbanja potencial na mesma proporção que comunica seus contratempos. O cenário, que perpassa diversas áreas, seja no campo visual, musical, digital, entre outros, abrange artistas que na intenção de visibilizar, alavancar e financiar suas produções, não apenas participam de editais lançados pela prefeitura, como movimentam-se em exposições independentes, coletivos e comercializam suas obras.

Em Teresina, os editais realizados com apoio da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves – FMCMC, através da Lei Aldir Blanc são um incentivo na produção, valorização e divulgação da arte local. Um dos projetos desenvolvidos através do apoio desses editais é o Catirinas, que atua no mapeamento de mulheres artistas teresinenses de forma a aproximá-las do público e valorizar suas produções.

Realizado com apoio do Edital Prêmio Lei Aldir Blanc Teresina, para Propostas Culturais de Articulação Coletiva – Linha III e contando com direção artística da plataforma Canteiro, o projeto Catirinas iniciou no ano de 2021, ainda durante a pandemia, com o mapeamento das artistas.

A iniciativa utiliza a rede social Instagram como principal ferramenta de comunicação, e no ano de 2022 (após um ano de mapeamento e curadoria) inicia o trabalho de apresentação e divulgação dessas artistas para a cidade. As produtoras a frente do projeto afirmam que o coletivo vem com um propósito de abrir portas e valorizar os processos criativos femininos, em suas mais variadas formas.

O nome do projeto surge do conto regional Bumba-Meu-Boi, que tem como uma de suas personagens Catirina, uma mulher grávida que deseja comer a língua do boi que seu marido cuida em uma fazenda. Após muito insistir, ela consegue realizar seu desejo, tornando-se símbolo de persistência, desobediência e realização.

“Em nossa realidade ainda seguimos formulando estratégias para agarrar aquilo que desejamos. Ser artista e ser mulher é ser Catirina todo dia”, descrevem as produtoras no perfil oficial no Instagram.

Márcia Gomes é uma das artistas contempladas no projeto. Além de mestranda em Comunicação pela Universidade Federal do Piauí, atua na arte como bordadeira e também se intitula como “artista das palavras”, uma vez que traz no seu bordado palavras, frases e poemas. Inspirada pela cultura negra e pela oralidade, sua trajetória com o bordado iniciou em 2018, mas suas produções só foram publicamente divulgadas em 2021.

“Comecei o bordado sozinha porque queria aprender uma coisa nova, e encontrei ali uma distração, um afago, talvez por ter influência da moda já tinha essa proximidade com tecido com a linha, então foi mais fácil percorrer esse caminho. (…) É um tipo de arte que dura, você borda lá e demora um bom tempo pra fazer o bordado e ele dura uma vida inteira. É um arquivo, uma memória que se faz ali presente”, conta Márcia.

Sobre sua arte, ela conta que além das palavras bordadas, busca através do bordado livre traçar narrativas de autoconhecimento e ancestralidade, colocando a representação de mulheres negras no centro do seu trabalho. “Tenho também influência de outras expressões artísticas como a dança, fotografia e colagem”, completa Márcia.

Márcia e uma de suas produções.

Ela conta que um dos primeiros locais que realizou suas exposições foi na galeria do Mercado Central de Teresina. Espaço mantido pela Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, que realiza exposições de diversos artistas locais das mais variadas vertentes.

Guga Carvalho, coordenador de artes visuais da FMCMC, explica que a galeria atua com exposições temporárias, que possuem duração de seis semanas e que são planejadas com antecedência. Cada exposição possui uma curadoria que segue critérios que constroem uma narrativa contada pelo conjunto de obras. Em geral, as exposições realizadas são coletivas, trazendo mais de um artista para compor.

Por ser em um ponto central e de fácil acesso pela população, as exposições realizadas no Mercado Velho geram grande visibilidade aos artistas, além de ampliar a aproximação das camadas mais populares da cidade com a produção cultural.

“Nosso público é muito diversificado, temos público de baixa e alta escolaridade, professores universitários, estudantes, além do público em torno do mercado”, explica Guga.

Galeria de arte no Mercado Central (Imagem: Prefeitura Municipal de Teresina).

Além das exposições temporárias, ele menciona a realização de uma exposição especial que parte do edital Prêmio Residência de Criação em Artes Visuais. Indo para a quinta edição, o edital seleciona artistas para conviverem durante seis semanas no mercado, realizando uma pesquisa sobre sua história e seu entorno, para criar suas obras a partir do material coletado. Com premiação no valor de R$7.000 (sete mil reais), o edital é um incentivo para a produção artística local.

“A gente enriquece, de certa maneira, a história do mercado e a consciência do papel histórico dele como dispositivo de acessibilidades”, finaliza Guga.

Porém, em alguns nichos a produção ainda não consegue tanta valorização e incentivo, é o que aponta Ivih Ribeiro. Há três anos atuando integralmente com arte, principalmente como ilustradora freelancer, e há dois anos como tatuadora, ela conta que ser artista na cidade ainda é bastante limitante.

“Geralmente você vai encontrar poucos artistas que já conseguem viver, e falo de viver e não apenas sobreviver, trabalhando apenas com um nicho, o que impacta diretamente na produção, porque constantemente você vai deixar de fazer algo que realmente quer pra fazer algo que venda, porque precisa se sustentar. Então pelo menos no meu caso eu penso que ainda é bastante difícil, principalmente com todas as especificidades que me atravessam, mas ainda mais difícil seria não viver de arte, minha existência seria incompleta”, relata Ivih.

Ivih Ribeiro e uma de suas produções.

Ela menciona que dentre as dificuldades na realização de seu trabalho, conseguir precificar suas produções ainda é bem complexo. A escassez do fornecimento de materiais com valores acessíveis na cidade, acaba se transformando em um impasse. 

“Se eu realmente repasso pro consumidor tudo que perpassa aquela obra, ou tatuagem, que define o valor dela (falando do aspecto privado), dificilmente parece justo e entre não receber nada e receber alguma coisa, diante do cenário econômico que nos encontramos, obviamente a segunda opção sempre vence”, conta.

Acerca dos incentivos estatais, ela menciona que não sente que atinge quem de fato precisa, e pontua que existem inúmeros fatores eliminatórios antes mesmo que consiga realizar a inscrição para concorrer a algum edital. A quantidade de ofertas e valores disponibilizados não atende a demanda. Além disso, cita também a falta de sanção e até mesmo derrubada de leis que protejam os direitos da classe artística no país como um todo.

Dessa forma, surgem as exposições produzidas de forma independente, em pontos centrais da cidade, que em sua maioria são organizadas pelos próprios artistas ou coletivos. Essas feiras viabilizam o acesso do público a quem trabalha com arte na cidade.

“O alcance e impacto delas seria muito maior caso houvesse incentivo da prefeitura e do estado, tanto na realização quanto no acesso, com a presença efetiva do transporte público nos fins de semana que são os dias em que essas feiras ocorrem”, conta.

A manutenção dos espaços existentes e criação de novos espaços expositivos, bem como o lançamento constante de editais de bolsas de incentivo, é também uma necessidade e obrigação do estado, de acordo com Ivih Ribeiro. Ela ainda complementa ao dizer que a escuta ativa por parte do poder público é de suma importância para a subsistência da arte e de quem a produz.

Richard Henrique é produtor cultural e idealizador do Centro Multicultural Stouradas, que possui galeria diversa tanto nas abordagens artísticas, como na pluralidade dos artistas, se tratando de gênero, raça, sexualidade, religiosidade, entre outros. Seu primeiro contato com o cenário cultural teresinense foi em 2014, a partir do Salve Rainha, através da vivência e trocas com a parte dos “fazedores culturais/artísticos” e com o público.

Sobre o cenário artístico da capital, Richard comenta que: “Nós temos espaços suficientes, tanto na rua, quanto em espaços privados, nós temos possibilidades, temos artistas suficientes, mas eu acredito que falta fomento, motivação, pessoas que queiram estar à frente. Existem alguns editais, existem alguns espaços (artísticos), mas ainda muito pouco e não chega a todo mundo que precisa chegar, não chega em todos os artistas que tem vontade de expor.”

Na função de produtor e gestor de um espaço artístico, Richard sintetiza sua experiência como “positiva e agitada”. 

Richard Henrique e Centro Multicultural Stouradas.

“Precisa-se ter uma noção de tempo, espaço, durabilidade, de cuidado com o que já tem (exposto), de criar mecanismos de comunicação que acessem outras pessoas pra sair da ‘panelinha’, do comodismo; é todo um direcionamento, estratégia de tentar trazer principalmente essas pessoas que são talentosas, têm potenciais, têm trabalhos realizados, mas não tem autoestima, não tem condições, nem lugares para estarem presentes.”

Ao se tratar de uma galeria de arte do Centro de Teresina, Richard compartilha do desafio em “lidar com a marginalidade das pessoas que vivem em situação de rua”, e as falhas da segurança pública da cidade, que potencializam a sensação de vulnerabilidade, para quem ocupa o centro de forma cultural, e quem ocupa por ser desassistido pelo Estado e pela sociedade. Outras grandes dificuldades são a falta de fomento e incentivo financeiro, e manter-se em constante diálogo com diversos públicos, furando a bolha para alcançar diversas perspectivas e recortes (sociais), pluralizando cada vez mais o espaço.

Coletividade essa que é reforçada pelo artista Vicente, cuja relação com a arte se estabeleceu ainda na infância, mas profissionalmente já trabalha na área de arte digital há cerca de 11 anos. Atualmente suas criações perpassam o universo dos quadrinhos, design gráfico e materiais publicitários no sentido político e revolucionário.

Para ele ser artista em Teresina é estar continuamente dando ‘murro em ponta de faca’(sic). “É uma cidade que respira arte. Nós temos uma produção industrial muito forte, a cidade vive basicamente do Mercado, mas em cada esquina tem um pouco de arte, e isso não é reconhecido. A cena artística em Teresina é muito difícil de lidar, você tem que ter muito ‘sangue no olho’ pra fazer seu nome.”

Vicente reforça a importância que artistas se unam em coletivos, visto que os órgãos públicos ainda engatinham na promoção e incentivos artísticos.

Vicente e uma de suas produções.

“O cenário artístico pode melhorar através da organização dos artistas, dentro de uma perspectiva de interesse próprio de classe, não só como categoria artística, mas o artista tem que se entender como um trabalhador da cultura, o artista não é um gênio que está ali para criar e produzir, ficando acima do proletariado, muito pelo contrário, o artista é um membro do proletariado e precisa de uma organização de classe.”

Ele comenta sobre a necessidade da classe (artística) assumir os conselhos de cultura, dialogar com diversas categorias, principalmente com a educação, entendendo que artistas e educadores estão em locais muito próximos.

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