A morte não é o fim

Apesar de ser a única certeza da vida, a forma como cada um interpreta a morte é pessoal e instigante

por Pedro Costa e Marcos Davi Beleense

Seja qual for a crença ou grau de evolução espiritual, a teoria é bem diferente da prática. Por mais conformado que se possa ficar, encarar o luto é uma tarefa nada fácil. No caso da coach em qualidade de vida, Michele Andrade, o ano de 2021 foi repleto de provações. No curto espaço de seis meses, ela perdeu sua mãe, em abril, e seu pai, em outubro.

Michele explica que cada processo é diferente. Inicialmente, quando sua mãe perdeu a batalha para a covid-19, ela afirma que tentou buscar forças para seguir e enfrentar a perda. Naquele momento, a profissional, tão habituada a ensinar técnicas de cuidado com o corpo e com a mente, precisou aplicar a resiliência na vida. “Eu tentei ser firme no objetivo de enfrentar o luto e cuidar do meu pai, mas entendi que eu também precisava de cuidados”, explica.

Michele e seus pais na última viagem que fizeram juntos. (Acervo Pessoal / Michele Andrade)

Já com seu pai, Michele disse que prefere acreditar que “aquilo que a gente imagina, se realiza”. Nesse caso, seu pai iria reencontrar o grande amor da sua vida. De certa forma, essa ideia trouxe um conforto. “Entendi que precisava recomeçar e me fortalecer, pois, como ele dizia, tudo tem um lado bom”, pontua.

A coach ressaltou ainda que cada pessoa vive o luto de uma forma diferente. Michele explica que não tem uma religião definida, mas afirma ser alguém religiosa, que se apega ao Jesus humano, símbolo de vida e esperança. Nesse sentido, viver o luto é um processo diário e a gratidão auxilia na jornada. “Lembro deles sempre com muita alegria. Se eu viver bem o hoje, vou conseguir ter uma vida boa depois, seja qual for esse depois”, conclui.

visões religiosas

Segundo uma pesquisa realizada pelo Datafolha, divulgada em 2020, cerca de 90% da população brasileira tem uma religião. Dentre essas, se destacam os cristãos com 81% (sendo 50% católicos e 31% evangélicos), espíritas com 3%, e seguidores de religiões afro-brasileiras, como umbanda e candomblé, com 2%. Há ainda cerca de 10% da população que afirma não possuir religião ou ser ateu.

Gráfico representando a proporção das religiões no Brasil. (Dados: Datafolha | Montagem: Pedro Costa)

Com essa diversidade, as filosofias de cada uma dessas crenças dão respostas diferentes a cada questionamento, seja de como o mundo foi criado, o motivo de existir o mau, mas o que perguntaremos é: o que acontece depois da morte? 

Católicos

Para o diácono da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios, de Piripiri (PI), Apolinário Cunha, a fé cristã católica ensina que o corpo mortal é transitório. Entretanto, a nossa alma seria imortal e criada para haver um contato, uma experiência imortal, junto a Deus na eternidade. 

O diácono aponta ainda que a ressurreição é o ponto crucial da fé cristã. “Diz São Paulo, se Cristo não ressuscitou, então vã é a nossa fé, ou seja, nem precisaríamos ter fé se não fosse a ressurreição a motivar esta. O coração da fé católica é o sofrimento, paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo”, finaliza Apolinário. Coletamos depoimentos de alguns cristãos católicos sobre o que acontece no pós-morte. Confira abaixo as declarações:

Espíritas

A coordenadora do Centro Espírita Nosso Lar, de Teresina (PI), Yarecer Galas, aponta que para os espíritas a morte é um evento natural e seria uma passagem para outra dimensão, sem a perda da sua identidade terrena.

“Você continua sendo você mesmo! Nem anjo, nem demônio. A morte é uma volta para casa, já que viemos de lá, da dimensão espiritual. Se formos bons, seremos recebidos como tal, se fazemos o mal, não podemos ir para um lugar de paz e felicidade”, conclui Yarecer.

Já do ponto de vista da coordenadora do grupo Juventude Espírita Irmã Scheilla, Tamires Oliveira, a doutrina espírita compreende a morte como parte da vida. “Nós acreditamos que somos criados simples e ignorantes, o ato de nascer e morrer múltiplas vezes oportuniza o progresso”. Segundo ela, esse processo ocorre inúmeras vezes, até que o espírito não precise mais do envoltório material para continuar progredindo. Confira abaixo alguns relatos:

ATEUS, AGNÓSTICOS E Sem religião

Conseguimos observar que dentro de uma mesma religião as pessoas possuem variadas opiniões sobre a vida e a morte. Assim, quando questionamos pessoas sem religião definida conseguimos encontrar ainda mais diversidade nas visões do que seria a morte de fato.

Ateus, que basicamente são pessoas que não acreditam na existência de divindades, tenderam geralmente a responder que a vida após a morte simplesmente não existe. Enquanto Agnósticos, pessoas que acreditam que não há como provar a existência de divindades, mas que também  não negam a existência dessas, dizem que o que há após a vida é apenas desconhecido. Confira dois relatos abaixo:

Projeto Vida Que Segue

Dentre todas as questões e mistérios envoltas nessa temática, uma coisa é unanimidade: é muito mais fácil quando encontramos pessoas para nos auxiliar nesse caminho. Em Teresina, o grupo “Vida que Segue” reúne pais enlutados pelo suicídio. O projeto promove militância por leis relacionadas à causa, bem como depoimentos e acolhimentos, através de reuniões mensais.

Voluntários do projeto Vida Que Segue em uma das ações. (Reprodução / Instagram)

O grupo realiza o incentivo à valorização da vida e a autoajuda. O projeto também visa a prevenção e a posvenção ao suicídio, isto é, o cuidado com aqueles que ficam e são diretamente afetados. Francimélia Nogueira, uma das fundadoras e mãe gestora do grupo, explica que a partir da morte de sua filha percebeu o quanto a informação pode salvar vidas. “Precisamos levar esse debate à sociedade como forma de evitar novos casos”, afirma.

O grupo é aberto, gratuito e tem como facilitadores sobreviventes do suicídio e conta com a participação de psicólogo. Desde 2017, o “Vida que Segue” já ajudou centenas de pessoas direta ou indiretamente com suas ações. Atualmente, o grupo possui membros de diversos estados do Brasil e do Distrito Federal. Para mais informações sobre o projeto e seus apoiadores, você pode acessar a página do Instagram @vidaqueseguethe.

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