Cultura do cancelamento afeta a reputação e a saúde mental de pessoas “canceladas”

Além das vítimas, os “canceladores” também são prejudicados pelos ataques virtuais

Por Savio Alencar

Consolidada em 2017 com o movimento Me Too (Eu também), a cultura do cancelamento é definida como um fenômeno de punição moderno que ocorre, principalmente, nas redes sociais digitais, com o objetivo de levar o “cancelado” (celebridade, influenciador digital, anônimo, empresa ou personalidade histórica) ao fracasso, a perda do prestígio e status sociais adquiridos, além do afastamento de cargos.

O movimento Me too surgiu para denunciar abusos e assédios sexuais (Foto: Damian Divarganes/Associated press)

Essa cultura foi impulsionada pelos avanços tecnológicos e o surgimento da internet, que potencializaram o direito de expressão e a interação entre as pessoas. Por conta disso, o espaço on-line também se tornou um “tribunal virtual”, em que o público julga e condena as ações consideradas inadequadas.

De acordo com Daniel Santos, cientista social, por mais que mobilize multidões de pessoas, a cultura do cancelamento se diferencia dos movimentos sociais, devido não buscar mudanças na sociedade. “A intenção do cancelamento é fazer com que o ‘cancelado’ seja humilhado socialmente e não que a sociedade seja transformada a partir dos linchamentos virtuais”, explica.

Daniel Santos, cientista social (Foto: Arquivo pessoal)

Geralmente, o cancelamento, que pode ser temporário, é causado por fake news, boatos e motivos banais, além de comportamentos, posicionamentos e opiniões que, mesmo pessoais, são considerados errados e imperdoáveis pelo público, devido essas atitudes desagradarem certos indivíduos ou serem inaceitáveis na sociedade atual.

Além do mais, a cultura do cancelamento se manifesta por meio de críticas, boicotes, julgamentos, exposições, discursos de ódio e exclusão virtual e social do “cancelado”. Esses ataques atingem, com mais intensidade, pessoas pobres, mulheres negras e outros grupos de minoria social e política. Isso ocorre, por conta do cancelamento se demonstrar uma relação de poder, na qual os grupos historicamente oprimidos sofrem mais danos.

Efeitos da cultura do cancelamentos na reputação do “cancelado”

Mais do que humilhações, o cancelamento prejudica a reputação do “cancelado”, sobretudo de celebridades e influenciadores digitais, que podem ter prejuízos financeiros, além de perder o emprego, patrocínios, fãs e seguidores nas redes sociais digitais. Foi o caso da cantora Karol Conká, que perdeu seguidores no Instagram, teve apresentações, contratos publicitários e participações em programas de TV desfeitos, devido certas atitudes tomadas na edição 21 do reality show Big Brother Brasil (BBB).

Karol Conká foi eliminada do BBB com 99,17% dos votos, maior rejeição da história do reality show (Foto: Reprodução/Globo)

Além disso, empresas também estão vulneráveis a serem impactadas pelos ataques virtuais. Segundo a pesquisa Cultura do Cancelamento Corporativo, realizada pela empresa de ralações públicas Porter Novelli e divulgada em 2020, 66% dos entrevistados afirmaram que “cancelariam” uma organização caso ela cometesse algo errado ou ofensivo.

Para Luze Silva, jornalista com experiência em comunicação organizacional e mestrando na área de jornalismo digital, o cancelamento faz com que empresas e pessoas físicas fiquem com baixa credibilidade no mercado e na sociedade. “O cancelamento provoca o boicote de marcas, exclusão social de pessoas, ações nas redes sociais digitais rejeitando o comportamento da empresa ou do indivíduo, além da exigência de declarações corretivas e medidas práticas efetivas”, afirma.

Luze Silva, jornalista (Foto: Arquivo pessoal)

Impactos psicológicos do cancelamento no “cancelador” e nas pessoas “canceladas”

Além de prejudicar a reputação do “cancelado”, a cultura do cancelamento atinge a saúde mental do “cancelador” e das vítimas de punições on-line. Atacar alguém virtualmente provoca no agressor raiva, sensação de prazer e poder, aumento da agressividade verbal e física, dificuldade de relacionamento e comunicação com outros indivíduos, além do desenvolvimento do Transtorno de Borderline.

De acordo com Rosangela Parga, psicóloga, esses impactos ocorrem por conta dos “canceladores” se considerarem superiores às outras pessoas. “O ‘cancelador’ acredita que seus valores sociais e culturais são prioritários e corretos. Isso representa um grande egocentrismo e falta de empatia”, esclarece.

Rosangela Parga, psicóloga (Foto: Arquivo pessoal)

Em relação ao “cancelado”, os ataques virtuais podem causar e agravar doenças psicológicas, como a depressão e a ansiedade. Ademais, isolamento social, medo de errar, angústia, preocupação excessiva, percepções negativas sobre o mundo, sentimento de tristeza e culpa, automutilação, tentativas de suicídio, além de alterações na alimentação e no sono são sinais de adoecimento mental no “cancelado”.

Para Manuella Martins, psicóloga, as crianças e adolescentes sofrem mais danos psicológicos pelo cancelamento, devido o cérebro estar em desenvolvimento, o que dificulta ter inteligência emocional suficiente para lidar com exposições, insultos e rejeição. “Crianças ainda estão aprendendo a regular as emoções. Na adolescência, além das mudanças físicas, competências cognitivas e sociais estão em desenvolvimento”, conta.

Manuella Martins, psicóloga (Foto: Arquivo pessoal)

Além do mais, praticar atividade física, passar menos tempo nas redes sociais digitais, ter apoio familiar, autoconhecimento, boa autoestima e saber lidar com opiniões são formas de proteção contra os impactos psicológicos causados pela cultura do cancelamento.

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