Motoristas de aplicativo tentam sobreviver à crise econômica e insegurança

Alta no preço dos combustíveis e a falta de segurança trouxeram dificuldades para a classe

Texto por: Larisse Lopes e Carolina Matta

Ser motorista de aplicativo é dirigir por horas e horas, o que é cansativo, perigoso e custa caro. O ex-motorista de aplicativo Carlos Branco sabe bem dessas dificuldades, e foi por causa delas que deixou de ser motorista. “Não está dando mais, viver trabalhando para enriquecer posto de gasolina, e o aplicativo, cobrando quase 40%, não tem condição de rodar. Só se você tiver um carro próprio, mas mesmo sem pagar prestação tem que gastar com manutenção, pneu, óleo do motor. Fora os assaltos durante a noite”, afirma Carlos.

Gasolina: preço nas alturas

Foto: Reprodução Lupa1

Em Teresina, uma estimativa levantada pela Amatepi (Associação dos Motoristas por Aplicativo) apontou que quase três mil motoristas abandonaram o trabalho entre os anos de 2020 e 2021. Os motivos mais comuns variam entre a alta no preço dos combustíveis e o aumento de assaltos. Carlos já foi uma vítima desse crime.

“Não levaram o carro, só o dinheiro, celular e uns tapas na cara”

Carlos Branco, ex-motorista

Para os criminosos o fato de o motorista ter muitas corridas durante o dia é a garantia de que ele tem dinheiro a todo momento, é o que afirma o sociólogo Marcondes Brito: “Na cabeça dos criminosos, quem trabalha com Uber tem dinheiro a todo momento. Então, para esses sujeitos a ideia de que esses motoristas andam com dinheiro é oportuno para assaltos “, aponta Marcondes Brito.

Sociólogo Marcondes Brito, especialista em Segurança Pública

Foto: Reprodução Facebook

Dados alarmantes foram divulgados em um levantamento feito pelo Fantástico: cerca de 43 motoristas de aplicativo foram assassinados durante o trabalho nos seis primeiros meses de 2021 no Brasil. Essa realidade violenta assusta a população e preocupa especialistas. 

A sensação de insegurança está presente em todos os âmbitos da sociedade. Sair de casa é cada vez mais arriscado e incerto, já que a violência se encontra em todos os lugares, da sua forma mais velada a mais explícita.

O Especialista em Segurança Pública e Doutor em Antropologia Arnaldo Eugênio afirma que a sociedade está refém do medo. “A população Teresinense hoje vive com receio da criminalidade, principalmente com os jornais noticiando homicídios, assaltos e latrocínios. Tudo isso faz com que a população se sinta amedrontada e insegura”, diz.

Insegurança: faca de dois gumes

A estudante Maria das Graças Mello é usuária de aplicativos como Uber e 99 há três anos, e reconhece que o sentimento de insegurança é mútuo, e sempre fica alerta ao pedir uma carona. “Assim como eu não conheço o motorista, ele não me conhece. Sempre tento ser simpática, mas também tomo muito cuidado, fico atenta à rota da viagem, não aceito doce, bala, nada”, afirma a estudante.

Para Graça, as novas atualizações no aplicativo vêm ajudando os usuários a se sentirem mais seguros, pois agora o cliente pode denunciar qualquer desconforto, gravar a viagem, acionar a polícia, tudo pela plataforma.

Botão de segurança do Uber

Foto: Reprodução twitter

Durante o período em que não havia transporte público, Maria das Graças dependeu dos aplicativos para se locomover. E foi em uma dessas viagens que ela conheceu a motorista Ceiça, quem hoje ela chama de amiga.

“Ela me socorreu no momento certo, porque o preço dos aplicativos estava nas alturas, saí do carro dela com um contrato e uma amiga. Ela me deixa na Universidade por um preço bem mais em conta, e eu ainda divido a carona com umas amigas, a Ceiça é um anjo”, brinca Maria das Graças.

Em busca de uma vida melhor

Embora algumas pessoas se sintam inseguras ao entrar no carro de um desconhecido, é sempre bom lembrar que tem muita gente séria, digna e honesta circulando nos aplicativos.

O motorista Lucas Silva trabalha como motorista há três anos, e é com o dinheiro ganho através do aplicativo que ele sustenta sua família, e arca com as despesas dos concursos públicos que se candidata. Hoje ele comemora, pois foi selecionado junto com a esposa para o concurso da Polícia Militar de Goiânia.

“Comecei a rodar em 2019, mas parei para estudar pro concurso e passei. Estou só esperando ser nomeado nos concursos que eu passei da Polícia Militar. Muita correria, é um pouco perigoso, mas é o jeito né? Tem que dar um jeito de se sustentar, ganhar dinheiro para pagar as passagens, para ir fazer outras fases dos concursos. Minha vida vai mudar demais, vou sair do Uber finalmente”, comemora Lucas.

A vida dos motoristas de aplicativo é singular, alguns não conseguem ser motoristas por muito tempo, devido às peculiaridades da profissão, outros como o Lucas encaram o trabalho como uma porta de entrada para outras oportunidades. Cada um à sua maneira faz história nas plataformas e muda o dia dos passageiros, como aconteceu com a Graça e a Ceiça. Mesmo com o medo dos constantes assaltos e a sensação de insegurança, o trabalho não para.

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