Comércio delivery invade as avenidas da capital Teresina

Comprar comida hoje é possível de forma totalmente virtual, apenas com um smartphone em mãos, e o método virou a principal alternativa na pandemia de Coronavírus

Por Altino Oliveira e Vitória Marques

O comércio alimentício por meio da prática de delivery cresceu nos últimos anos em Teresina, capital piauiense, assim como em todo o Brasil e todo o mundo. A entrega de produtos alimentícios, comprados on-line, era algo que já existia (apontado como futuro) e se tornou tendência durante a pandemia de covid-19, devido às medidas sanitárias de isolamento social. Diante do novo cenário, a população ficou impossibilitada de consumir em estabelecimentos físicos; com isso, a entrega de produtos na residência dos clientes aumentou.

Segundo pesquisa da agência de marketing Edelman, intitulada Consumo Online no Brasil e produzida em outubro de 2021, o número de brasileiros que comprava algo online ao menos uma vez por semana era de 40% antes da pandemia; depois do quadro pandêmico, esse dado saltou para 66%. Quanto ao uso diário desta função, o índice foi de 14% para 22%. Esses dados comprovam que o mercado brasileiro se abriu amplamente para o delivery, com consumidores cada vez mais numerosos.

Dentre esses, está Emily Dutra, estudante de Jornalismo. Ela pedia pizza em casa quase todo domingo, fora seu consumo frequente de redes de fast-food, sempre aproveitando as promoções em destaque. Confessa que, para além de pedir delivery pelo próprio smartphone, também acessa pela conta de familiares, de modo a conseguir algum tipo de promoção ou cupom.

Pedir comida pronta pela internet é muito recorrente hoje em dia e as opções são as mais variadas possíveis (FOTO: Revista Mais Saúde/Imagem da web)

Outra cliente ferrenha é a estudante de administração Clara Noronha. Chega a usar o serviço quase que diariamente para comprar comida pronta. Devido ficar maior parte do dia sozinha em casa, considera mais prático que cozinhar, o que lhe poupa tempo para outros afazeres. Cita também que o uso do delivery cotidianamente compromete por volta de 50% de sua renda mensal.

Emily elogia o modelo de entrega como uma opção veloz: “é uma praticidade enorme, porque você está com vontade de comer alguma coisa, mas não quer sair de casa, eles entregam. E agora que tem a função do Mercado, que os aplicativos estão colocando a opção, fica muito melhor, porque aí sim você não precisa sair de casa para comprar”. O mercado a que ela se refere é uma função do delivery, em que produtos diversos (aqueles encontrados em mercearias, frutarias, açougues) e em maior contingente são comercializados digitalmente e entregues na casa do cliente.

Expansão do delivery no mercado alimentício

Uma pesquisa da DataHub, instituição de estatística e banco de dados, apontou crescimento explosivo das empresas de delivery no Brasil no período de pandemia, de 2019 a 2021. O número de lojas especializadas em produção e venda de marmitas e restaurantes, ambos para entrega, saltou de 59.176 para 104.531 nesses três anos, o que significa um crescimento próximo à 76,6% (dentro do estudo, foram abordadas apenas estabelecimentos com registro na Classificação Nacional de Atividades Econômicas – CNAE).

O crescimento do delivery tem gerado dezenas de milhares de empregos todos os anos (FOTO: Uol Tilt/Imagem da web)

Uma das razões para o crescimento, além do caso extraordinário da pandemia, é o baixo custo-benefício. Raimundo Souza é proprietário da “SuperPizza”, loja que trabalha apenas com entregas. Ele que trabalhou há quatro anos em um restaurante, juntou economias e abriu o próprio empreendimento. Com o sucesso nas vendas, o empreendedor não pensa em montar um estabelecimento físico. “No delivery, o custo é menor, a gente tem o número de funcionários reduzido, e presencial, tem que contratar mais funcionários, a mão de obra é cara”, conta ele.

Outra empresa que trabalha somente por entrega é a “Maelena Salgados”, criada por Helena Ramos. O negócio surgiu inicialmente por questões familiares, com a proprietária procurando ajudar a irmã a ter um emprego fixo. Hoje o estabelecimento é uma empresa familiar, com dois filhos da proprietária trabalhando ao lado dela. Ela pondera que o projeto inicialmente começou de forma presencial, em um momento anterior à pandemia:

“Antes tínhamos um local, mas com a chegada da pandemia a única alternativa que achamos foi com delivery, e deu tão certo que pretendo continuar só com ele”

Helena Ramos

Como o empreendimento apresenta todos os resultados esperados, Helena não pretende retornar para o modelo presencial tão cedo. Diz que o principal interesse agora é aumentar a frota de entregadores contratados, que atualmente conta apenas com um de seus filhos.

Miguel Siqueira trabalha há cinco anos na “Ksa Caseira”, restaurante pertencente a seus pais. Localizado no bairro Taquari, zona leste de Teresina, é originalmente um estabelecimento presencial e associou-se ao delivery no ano de 2020, por pressão da pandemia de covid-19. Com a incorporação do modelo de entrega, ele afirma que a demanda dos clientes digitais cresceu exponencialmente, a um nível que se iguala com os consumidores presenciais. Os lucros do negócio aumentaram em 50% após a medida, devido ao maior alcance de fregueses, segundo o próprio.

Miguel afirma ainda que os meios digitais possibilitam que a loja atinja metas que não estavam traçadas anteriormente, com a expansão grandiosa do público consumidor: “a quantidade de clientes que antes não tinham como comparecer no estabelecimento por ‘x’ motivos, agora tem a oportunidade de fazer um pedido de um restaurante que deseja”. Outra realidade que o meio virtual traz para o negócio são novas medidas de marketing, como os anúncios pagos em redes sociais, o que ajuda a empresa a se destacar dentre milhares de negócios similares.

Motoqueiros como força-motora

Dentro da expansão do delivery, outro tema essencial é a situação trabalhista dos motoboys. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o número de entregadores de mercadorias no Brasil subiu de 30 mil em 2016 para 278 mil em 2021, o que representa um aumento de 980% desses trabalhadores no período de seis anos. As reclamações de precarização no setor são corriqueiras, em especial aqueles que trabalham por aplicativos especializados (iFood, UberEats, 99Food, entre outros).

Motoristas de aplicativos de delivery em greve em frente ao estádio Pacaembu, estado de São Paulo. (FOTO: Bruno Santos/Folhapress)

Anderson Sousa já é entregador há quatro anos e trabalha para dois estabelecimentos atualmente, um no turno da manhã e outro no turno da noite. Ele trabalhou por poucos meses com aplicativos de delivery no início da pandemia, quando a demanda subiu. Por conta do aumento consecutivo de profissionais na área (o que reduz a oferta de corridas), abandonou as empresas de entrega e passou a trabalhar para estabelecimentos específicos.

Segundo ele, o mercado ainda é injusto para quem deseja trabalhar na profissão: “muitos estabelecimentos com taxas de entrega baixas, que se for ver direito não compensa rodar nesse estabelecimento, muitos chegam a não dar nenhum tipo de refeição ou um lanche; alguns chegam a cobrar taxas de entrega altas, porém, não repassam o valor total da taxa ao motoboy”. A Associação dos Entregadores por Aplicativo de Delivery do Piauí (ASSENAPP-PI) aponta que a taxa de ganho por corrida dos motoqueiros nos aplicativos chega a ser apenas 3,50 por entrega em algumas regiões.

O modelo delivery veio para ficar e se consolidou no mercado alimentício mediante dificuldades que afetam diferentes setores. Resta a dúvida se após a pandemia de Coronavírus o apelo do público continuará alto. Isso somente o futuro dirá.

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