Pandemia de Covid-19 impulsiona o número de leitores e de vendas no mercado editorial do Brasil

Apesar desses crescimentos, a utilização do ensino remoto durante a pandemia prejudica a criação de novos públicos leitores

Texto: Savio Alencar

A necessidade de isolamento e distanciamento social causada pela pandemia de Covid-19 fez as pessoas buscarem a leitura como forma de entretenimento. Devido a isso, o hábito de ler aumentou durante esse período pandêmico. Esse crescimento no número de leitores se refletiu no faturamento do mercado editorial e no aumento nas vendas de livros, e-books, audiolivros e outros conteúdos digitais.

De acordo com o 13° Painel do Varejo de Livros no Brasil, pesquisa realizada pela Nielsen BookScan e divulgada pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL), o mercado editorial cresceu 29,3% em volume e 29,2% em faturamento em 2021 (com relação a 2020), sendo dezembro o mês que mais arrecadou. Além disso, foram vendidos 55 milhões de livros, que representaram R$ 2,28 bilhões de reais ao setor editorial.

Faturamento do mercado editorial brasileiro com vendas de livros, de 2017 a 2021 (Gráfico: Savio Alencar, com dados da pesquisa Nielsen BookScan)
Total de livros vendidos no Brasil, de 2017 a 2021 (Gráfico: Savio Alencar, com dados da pesquisa Nielsen BookScan)

Em relação a vendas de e-books, audiolivros e outros tipos de conteúdos digitais, segundo a pesquisa mais recente da Conteúdo Digital do Setor Editorial Brasileiro, coordenada pela Câmera Brasileira do Livro (CBL) e pelo SNEL e com dados apurados pela Nielsen Book, o faturamento das editoras com conteúdo digital cresceu 36% em 2020 (com relação a 2019), e R$ 147 milhões de reais foram arrecadados pelo mercado editorial.

Ademais, a busca por novos hábitos, a influência de clubes de leitura, perfis literários, canais no YouTube e outros conteúdos de Literatura nas redes sociais digitais, além da mudança de rotina dos brasileiros, que possibilitou mais tempo livre para realizar outras atividades, contribuíram para o aumento da leitura durante a pandemia.

Para Geicylanne Belfort, estudante de Ciências Biológicas, ler durante a pandemia proporcionou prazer e o aprimoramento da leitura. “Meu hábito de ler aumentou na pandemia, principalmente em 2020, porque fiquei em isolamento e não tive aula na universidade durante o ano inteiro”, diz.

Geicylanne Belfort, estudante de Ciências Biológicas (Foto: Arquivo pessoal/Geicylanne Belfort)

Efeitos da pandemia no mercado editorial

A adoção de medidas restritivas e o fechamento do comércio para conter o avanço da Covid-19 no Brasil causou prejuízos no mercado editorial. Segundo a pesquisa feita pelo Painel do Varejo de Livros no Brasil, devido ao fechamento das livrarias, em abril de 2020, o faturamento no mercado de livros caiu cerca de 47%, em relação ao mesmo mês de 2019. Além disso, o mercado editorial terminou 2020 com queda de 0,48% no faturamento total nas vendas de livros, de acordo com dados do Painel do Varejo de Livros no Brasil.

Ademais, o cancelamento de eventos literários, a redução no número de vendas durante o encerramento das atividades nas livrarias e a paralisação no lançamento de livros colaboraram para o prejuízo do setor editorial.

Como forma de enfrentar esse período, o mercado editorial apostou no comércio eletrônico e na utilização das redes sociais digitais para reverter o impacto causado pela pandemia. Para Dante Cid, presidente do SNEL, as editoras e livrarias se adaptaram a pandemia. “O fechamento das livrarias foi o principal prejuízo vivido pelo mercado editorial, mas foi contornado pelo comércio eletrônico dos varejistas e das editoras”, conta.

Dante Cid, presidente do SNEL (Foto: Arquivo pessoal/Dante Cid)

Além do mais, Dante Cid também ressalta que, mesmo com o preço elevado dos livros e o aumento da inflação, as estratégias criadas pelos varejistas, como descontos, frete grátis e prazo de entrega curto, favoreceram o aumento nas vendas de livros. “Com a escassez de atividades culturais e a circulação reduzida, o cidadão buscou, em casa, formas de lidar com as adversidades e, felizmente, redescobriu o hábito e o prazer da leitura”, afirma.

Impactos do ensino remoto na criação de leitores

Por conta da ascensão da Covid-19 no Brasil, as escolas adotaram o ensino remoto como modelo de aprendizagem, o que impactou, principalmente, a fase de alfabetização. De acordo com a pesquisa feita pelo Datafolha, publicada em 2021 e encomendada pela Fundação Lemann, Itaú Social e Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 51% das crianças em fase de alfabetização não evoluíram, 22% desaprendeu conteúdos e 29% não aprendeu nada de novo.

Além disso, o ensino remoto também afetou a criação de leitores, visto que o processo de alfabetização, necessário para a formação do hábito da leitura, sofreu prejuízos durante a pandemia. Isso ocorreu devido a distância entre professor e aluno, acesso à internet limitado, além da carência de aparelhos tecnológicos para assistir as aulas e a falta de acompanhamento e apoio de certas famílias as crianças.

Segundo Wedson Ferraz, pedagogo, um dos principais impactos que o processo de alfabetização fragilizado causa é o analfabetismo funcional. “Conhecer o alfabeto, saber escrever, ler, entender textos e usar a linguagem no cotidiano são passos fundamentais e indispensáveis para a criação de leitores”, relata.

Além do mais, durante o uso do ensino remoto na pandemia, a falta de utilização de métodos e estímulos para as crianças lerem, por conta do despreparo de famílias e a falta de contato dos professores com os alunos, também prejudicaram a formação de leitores.

Wedson Ferraz, pedagogo (Foto: Arquivo pessoal/Wedson Ferraz)

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