Devoção e fidelidade no isolamento

 A vivência da fé cristã na pandemia

Por Gustavo Sousa

A pandemia movimentou e deu novos rumos às vidas da população mundial; para as igrejas católicas não foi diferente, gerando uma paralisação na programação de santuários, paróquias e comunidades. O lugar de fé, cura e santidade para muitos dos devotos de diversos santos fechou as portas dos templos no mundo inteiro. As celebrações eucarísticas, antes dispensadas de distanciamento e máscaras para proteção, ganhou novos adereços para transmissões em formato remoto, dando aos fiéis a possibilidade de reaproximação da sua fé. A utilização das TV ‘s, celulares e computadores para assistir às lives, teria um significado ainda mais especial. 

Por meio dos principais métodos para o não contágio da Covid-19 nos templos religiosos, a decisão do fechamento dos mesmos partiu de uma orientação do Vaticano. No ano passado, em 20 de março, o Vaticano possibilitou aos padres e bispos a oferta de absolvição das confissões para que não houvesse uma infecção direta do vírus. Ao final da Quaresma, do mesmo ano, período este conhecido pela penitência, oração e jejum em referência aos 40 dias passados por Jesus no deserto, um decreto da Congregação para o Culto Divino proibia a realização de missas presenciais na Semana Santa nas demais regiões. Dessa forma, em celebrações fechadas e transmitidas, o Papa Francisco em suas homilias retomava orientações para “não viralize a Igreja, não viralize o povo de Deus”.

Como ser católico sem os sacramentos? 

Dentro da fé cristã, o sentido de fraternidade faz-se presente, e para muitos os sacramentos se concretizam por meio disto. Com os templos fechados em 2020, os frequentadores das missas dominicais e semanais, sentiram ainda mais com peso do que ocorria dentro da pandemia e com o “distanciamento” dos templos. Assim foi para muitos, um ano de isolamento total de uma das principais coisas que mantinham a mentalidade sã.  

Em continuação pandêmica, a igreja católica se reinventou em seus principais aspectos no ano de 2021, desde a comodidade dos fiéis até as limpezas programadas. Atualmente, o cenário que se via antes de medo e amedronto, dá espaço a mais uma motivação para permanecer em estado de fidelidade. Os templos religiosos têm hoje a responsabilidade de ser referência diante as causas mundiais e principalmente, atuantes na linha de frente. Na missa solene na Basílica de Nossa Senhora de Aparecida, no dia 12 de Outubro, os fiéis puderam estar presenciando a mais importante comemoração e cumprindo suas promessas, além disso, o Dom Orlando Brandes, arcebispo de Aparecida, corroborando com as pautas nacionais, traz o ensinamento para as igrejas de hoje: “Para ser pátria amada, seja uma pátria sem ódio. Para ser pátria amada, uma república sem mentiras e sem fake news. Pátria amada sem corrupção. E pátria amada com fraternidade. Todos irmãos construindo a grande família brasileira”.

Para Pedro Henrique, dentista, devoto e frequentador da paróquia Menino Jesus de Praga em Timon (MA), a pandemia deu a ele o teste que o fez perceber o quão importante é o alimento da fé. “As portas da igreja fechada me fez ver a noção de como estava a minha fidelidade, foi onde eu percebi que poderia crer, rezar, fazer minhas orações dentro da minha casa. Dizer que foi fácil, não foi, a saudade dos reencontros e das missas, foi de longe o que mais doía em mim”, explicou.

Realização de terços jovens on-line – Reprodução arquivo pessoal de Pedro

No decorrer do ano de 2020 ele acompanhou todas as lives de sua paróquia e não deixava de contribuir com o seu dízimo, a oferta de bom grado dada pelos fiéis para a igreja. “Quando começou as transmissões, tive minhas dificuldades tanto materiais, com a minha internet, como espirituais. Pois de certa forma, me sentia nas primeiras vezes ainda distante da minha fé. Mas com a frequência que continuei assistindo, tudo começou a correr tranquilamente e mantive meu ciclo de oração”, completa Pedro.

“Transformei a minha casa no meu próprio templo, pois foi nela que tive que encontrar a minha espiritualidade e o meu refúgio !”

– Pedro Henrique

Ezequiel Araújo, estudante de jornalismo e frequentador da Paróquia de São Joaquim, localizado na zona norte de Teresina, caracteriza que foi essencial a colaboração da Pastoral da Comunicação (Pascom) na santidade das pessoas de sua comunidade, como a mensagem chegou a todos de uma forma tão simples e segura. “No momento ápice da pandemia, onde não podíamos sair de casa e também por conta do distanciamento social, foi de certa forma muito gratificante ver o trabalho deles. Por mais que não estivesse presencialmente, eu pude sentir um pouco do que eu sentia quando ia para a igreja”.

Pascom Paróquia de São Joaquim (Teresina) – Reprodução Instagram da Paróquia de São Joaquim

As transmissões ajudaram a muitos o reconectar com sua espiritualidade, foi a partir dos meios tecnológicos que houve a “abertura” da possibilidade de encontrar métodos de oração, independentes de estarem ou não nas igrejas. 

Qual o significado da missa digital?

Na cultura atual, o digital ultrapassa o ambiente físico da nossa realidade, chegando ao ponto da necessidade para vivência no meio social. Também na vida da igreja, foi fator crucial para sua manutenção e sobrevivência. A comunicação nas dioceses, paróquias e comunidades, a incisiva utilização de vídeos e das transmissões audiovisuais, as relações por tela e redes sociais, criou o termo nascido no ainda período pandêmico, chamado missa digital. Dessa forma, dá noção ao novo método celebrativo nas igrejas, o formato híbrido garantiu espaço a todos de maneira pessoal  para assistir às missas. 

Muito importante para quem comunica nos meios digitais é “saber o que quer” e quais “os objetivos” de comunicação que procura cumprir. Portanto, pensar que nós estamos desconectados da vida espiritual é realmente problemático, se estou envolvido com as mídias digitais a maior parte do dia.

Para o padre Raimundo Luzia, pároco da paróquia Menino Jesus de Praga em Timon (MA), a missa digital chegou para ele como uma forma de reinvenção cristã, como seu dever,  e sacerdócio, passar para quem assiste essa espiritualidade vívida. “Na minha coordenação, a utilização das mídias sociais foi quase escassa, porque antes na paróquia as divulgações eram mínimas. Na pandemia, me vi no meio de um mar sem saber pra onde remar, então precisei de muita ajuda e principalmente oração, que seria por meio de mim que a palavra deveria chegar nas casas e nas famílias necessitadas”.

Raimundo Luzia (pároco da paróquia Menino Jesus de Praga) – Reprodução Instagram

“Com ajuda do bispo da Diocese de Caxias, Dom Sebastião Lima Duarte, pude ter esse acompanhamento de pessoas especializadas na comunicação e que formariam a Pascom. Além de dar às pessoas a possibilidade de atuarem dentro da igreja e em prol da fraternidade e da partilha do seu dom. E fico muito grato”, afirma Pe. Raimundo Luzia.

Momento de transmissão da celebração – Reprodução arquivo pessoal

Para acentuar e engrandecer ainda mais a fé dos fiéis, o mesmo planejou projetos que levavam à aqueles que não podiam sair de casa, o encontro com Cristo e lives musicais.

“ Para todos o testemunho não pode parar. A fé de muitos já fraquejou nessa pandemia, com as notícias a fora, a vivência pessoal dentro de casa e é nesses pequenos momentos em que as pessoas podem retomar ao que era antes, tornando-as ainda mais capazes”

– Pe. Raimundo Luzia  

Como está a partilha hoje ?

Com a imunização em massa, o retorno presencial efetivo das missas pode se tornar realidade. Hoje em dia, dentro das igrejas, o semipresencial ocorre de acordo com os decretos disponibilizados pelo Governo do Estado, garantindo a segurança de quem voltou a frequentar. Isso, devolve aos devotos, um pouco daquilo que lhes foi tirado durante o processo de isolamento e vai retomando aos poucos as práticas de como eram antes.

Dentro desse processo, foi bastante afetado aqueles que mantinham suas práticas dentro da doutrina das famosas romarias. A romaria é uma viagem a lugares santos e de devoção, empreendida por aqueles que desejam pagar promessas, rogar por graças ou revelar sua gratidão pelos desejos realizados. Os(as) romeiros(as), tiveram suas idas canceladas durante a pandemia e além disso, os locais que recebiam essas romarias também.

O grupo de romeiros de Timon (MA), devotos de São Francisco, estão há quase quatro anos com viagens a Canindé (CE), local da segunda maior romaria do Brasil. Também prejudicados pela pandemia, se viram de maneira dispersa, uma vez que carregam consigo quase 500 pessoas. Então, com a flexibilização das medidas protetivas, começaram aos poucos a retomar suas práticas, com missas, novenas e celebrações. Nathanael Ibsen, também participante do grupo, diz que a falta das peregrinações à cidade santa acabou produzindo uma evasão de alguns devotos, fazendo que o grupo diminuísse aos poucos.

Celebração ao dia de São Francisco – Reprodução arquivo pessoal

“Não me sinto fraco por isso, mas acabava que o peso da saída das pessoas deixava marcas bem pesadas em mim. Entretanto, hoje conseguimos recuperar boa parte dos fiéis. A imunização e a flexibilização das medidas sanitárias, possibilitaram isso e acredito que podemos ainda mais reconquistar a nossa fé”, afirma Nathanael.

Para acreditar que dias melhores poderão vir, é dar esperança a pequenas coisas que ainda nos agarram e nos fazem perceber o bom lado. “É sempre dar os pequenos passos e deixar acontecer as melhores coisas, não devemos nos permitir que as circunstâncias possam ser o único fator de distanciamento daquilo que nos traz paz. As mudanças servem para isso e o mundo continuará mudando, basta você corresponder de tal modo”, afirma Pe. Raimundo Luzia.

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