O futebol feminino no Piauí na visão do Teresina Atlético Clube

Mesmo com poucos recursos o time segue em busca da vaga na terceira divisão do campeonato brasileirão feminino

Por Gabriel Mesquita e Paulo Vitalino

O futebol feminino no Brasil enfrenta diversos problemas, e no Piauí não é diferente. Além das dificuldades financeiras que os times do estado têm que lidar, as atletas ainda têm que conviver com a desigualdade que se perpetua no ambiente futebolístico. Afinal faz somente 42 anos que foi liberada a prática do esporte feminino no Brasil desde o Decreto-Lei de Getúlio Vargas, que proibia o exercício do futebol por mulheres.

O time Teresina Atlético Clube conhece bem essa realidade, pois diariamente tem que confrontar não só times adversários, como também obstáculos dentro do próprio cenário esportivo, se adaptando às adversidades para manter a qualidade sempre de pé. O time foi fundado em 2015 e filiado à Federação de Futebol do Piauí (FFP) no mesmo ano com o objetivo de dar mais ênfase ao futebol feminino no Piauí. O time já disputou três competições estaduais, chegando duas vezes nas finais dos campeonatos piauienses. Esse ano pretende conquistar a Copa Batom, uma famosa competição de futebol feminino do Piauí, e vencer o torneio estadual para garantir uma vaga na terceira divisão do campeonato brasileiro A3.

“Na parte financeira nós estamos levando. Arrumando um dinheiro daqui outro dali para arcar com as despesas mensais, até porque ninguém quer trabalhar de graça. Estamos na luta e tenho certeza de que vai dar certo, o futebol aqui tem poucos times, mas está crescendo”

Júlio César – Presidente do time.

O Teresina não possui local fixo de treinamento, atualmente realiza suas atividades no campo Palmeirão, situado no bairro São Joaquim. As atletas costumavam treinar no campo da CFAP, porém decidiram mudar o local pois o time adversário também treina no mesmo campo e isso atrapalhava a concentração da equipe.

Preparação física das jogadoras do Teresina (Foto: Paulo Vitalino)

A jogadora cearense Giselle Oliveira,  que estreou no clube esse ano, conta que joga bola desde os 14 anos de idade. Hoje, com 22 anos, já atuou em alguns estados do Brasil como Rio Grande do Sul e Santa Catarina e no próprio estado em que nasceu. Pela experiência adquirida, conta que o esporte feminino tem muito o que evoluir. Ela também afirma que enfrenta barreiras dentro do cenário por causa da disparidade entre os gêneros, sendo que a intensidade de trabalho é a mesma.

“No âmbito do futebol piauiense, a questão de alojamento é totalmente diferente da do homem, às vezes coisas simples como um gelo para a recuperação não tem[…]. Eu sei que mudou muito, mas ainda tem muito para melhorar.”

Giselle Oliveira – Jogadora do Teresina

Gisele acredita que embora existam empecilhos, o futebol feminino está em ascensão. Vários clubes estão investindo, tendo a certeza de que daqui para a frente vai ser cada vez melhor.

A goleira Jessilene Sousa, que também atua no clube, afirma que sempre foi admiradora do futebol, mesmo sabendo que tempos atrás não tinham tantas possibilidades quanto hoje para o feminino. Começou a praticar o esporte aos 15 anos, e hoje aos 19 anos, o Teresina é o primeiro time que ela atua de forma profissional.

Goleiras do Teresina e um profissional da comissão técnica (Foto: Paulo Vitalino)

“Hoje em dia não enfrento muitas dificuldades quanto ao meu gênero, mas antigamente sim. Principalmente por conta do machismo, pois falavam que lugar de mulher não é em campo, e sim nas cozinhas[…]. Para você que quer ingressar no futebol feminino, seja forte e corajosa, pois é difícil ser atleta, porém é mais difícil ainda ser atleta mulher, porque todo mundo reza pela sua queda e quer que você estrague tudo. O que a gente faz não é fácil”

Jessilene Sousa – Goleira do Teresina

O treinador do clube, Antônio Pádua, mais conhecido como Toinho, foi um atleta muito conhecido no futebol piauiense, jogou entre as décadas de 60 e 70. Além de atuar no Piauí, Toinho também já atuou em grandes times como São Paulo, Athletico Paranaense e Coritiba. Antes de virar treinador, atuou como preparador de goleiros do São Paulo, depois treinou também a categoria do clube, trabalhando com Dario Pereira, Muricy Ramalho e Telê Santana.

Toinho trata a profissão com muita seriedade e afirma que os esforços aplicados no time são necessários para chegar ao topo e obter tão sonhada vitória. O treinador afirma que o time é um conjunto, não diferenciando uma da outra, a fim de dar um bom exemplo para que as meninas se sintam bem e desempenhem seus papéis da melhor maneira possível.

Treino do time para o jogo da copa batom 2021 (Foto: Paulo Vitalino)

De acordo com Toinho é preciso uma dedicação por parte dos gestores públicos e privados, para que deem maior apoio ao futebol feminino do Piauí, pois não sabe a real situação que o esporte passa.

“Eu trabalho com futebol feminino aqui no Piauí há sete anos e é precário, poucas condições, sobrevivência mínima, porque os gestores não contribuem para que haja um melhor posicionamento a nível de chegarmos em uma crescente.”

Toinho – Treinador do Teresina

O preparador físico, Aquino Silva, que também atua no clube, relata que ainda tem uma longa caminhada a ser percorrida tanto a nível estadual quanto nacional, pois agora alguns clubes estão sendo obrigados a terem um time feminino, e isso vai estimular a modalidade, porém ainda distante dos padrões desejados.

O papel desempenhado pelas meninas no futebol é um processo lento e carregado de estigmas criados por uma cultura predominantemente masculina. Deve-se levar em conta os esforços de cada uma das atletas, que diariamente batalham pelo reconhecimento que a modalidade merece e também dos profissionais que apoiam o esporte feminino no Piauí.


 

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