Segunda Chamada – a EJA como aliada na volta de jovens e adultos à sala de aula

A educação não tem idade, tem vivências

Por Adélia Machado

A sala de aula é um ambiente de troca de experiências e aprendizados, apresentando-se como fundamental para o desenvolvimento pessoal e convívio social. Apesar da sua importância, muitos são os cidadãos brasileiros que se veem obrigados a evadir da experiência acadêmica pelos mais diversos motivos, que vão desde as questões econômicas até as sociais.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostras em Domicílio Contínua (Pnad Contínua) divulgada em 2020 pelo IBGE, o número de brasileiros que se evadiram da sala de aula é crescente. Das 50 milhões de pessoas com idades entre 14 e 29 anos, 20% não concluíram o Ensino Básico. Os números têm maior predominância da população preta e parda e os maiores motivos apresentados pela pesquisa são a necessidade de trabalhar logo cedo e a falta de interesse. Entre as mulheres, as tarefas domésticas e a gravidez são destaques.

Gráfico que apresenta o nível e o motivo do abandono escolar no Brasil
Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas, Coordenação de Trabalho e Rendimento, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua 2019

Em meio ao abandono escolar ou mesmo pela falta de acesso ao ensino básico durante a chamada idade certa, a Educação de Jovens e Adultos surge. Mais conhecida como EJA, essa modalidade de ensino é definida como um programa estudantil destinado a jovens, adultos e idosos que tiveram suas experiências educacionais interrompidas.

A EJA como aliada na construção de sonhos

Com o acesso ao EJA, as pessoas que nela são inseridas aprendem além do que a teoria exige, se trata da construção da visão de mundo, da consciência crítica para intervir em esfera pública e o desenvolvimento de ações em meio coletivo. Com isso, a modalidade se torna uma verdadeira aliada na construção de cidadãos em busca da concretização de sonhos, que foram interrompidos pela falta de escolaridade.

Muitas realidades foram transformadas com a chegada da modalidade em suas vidas, como é o caso de Girlene Silva, dona de casa e estudante da EJA no município de São João dos Patos, interior do Maranhão. A estudante se viu obrigada a se distanciar da sala de aula em 1982, quando ainda tinha apenas 12 anos de idade, por morar no interior e não conseguir se familiarizar com os desafios da cidade.

Girlene Silva durante aula na EJA. Foto: Arquivo pessoal

Hoje, estudante da modalidade de ensino, espalha alegria e testemunho da sua força de vontade em voltar a estudar e conviver com a sala de aula. Ao ser indagada sobre qual mensagem deixaria para outras pessoas que possuem o desejo de recomeçar os estudos, ela aponta sobre as oportunidades de aprendizagem e o convívio com os professores que a modalidade proporciona.

“Eu falaria para a pessoa para voltar a estudar através da EJA, pois a EJA pode transformar vidas. Além disso, é um meio acolhedor de realidades diferentes e os professores ajudam nesse processo de aprendizagem”, destaca a entrevistada.

EJA em números – da criação à organização

A EJA é uma porta para a universalização da alfabetização de jovens, adultos e idosos. O programa foi criado em 2007 pelo Governo Federal e desde então abraça milhares de brasileiros que atendem ao chamado da conclusão do Ensino Básico de qualidade. Só em 2020, o maior número de matriculados, de acordo com o Plano Nacional de Educação, foi registrado na região Nordeste e Sudeste, 1,2 milhão e 938,9 mil, respectivamente. Os números são reflexo do aumento do desejo de alfabetização e inserção na sala de aula.

Apesar do número de matriculados apresentado, é necessário pontuar que a pandemia afetou o interesse e a procura pelo ensino. Com isso, em muitas regiões foi preciso o auxílio da chamada ‘Busca Ativa’, que consiste no corpo docente da instituição partir em busca dos alunos matriculados, com o intuito de motivar na volta à sala de aula, após momento crítico da pandemia.

Corpo docente da EJA em ‘Busca Ativa’ na cidade de São João dos Patos – MA. Foto: Arquivo Pessoal

O programa é organizado em duas etapas, que abrange do ensino fundamental ao médio e que podem ser em formato presencial ou a distância. Elas são descritas da seguinte forma:

  • Etapa I: Abrange do 1° ao 5° ano do Ensino Fundamental do Ensino Regular;
  • Etapa II: Abrange do 6° ao 9° ano do Ensino Fundamental do Ensino Regular;
  • Ensino Médio: Corresponde aos últimos anos de ensino, a última etapa do Ensino Básico do país. Nesta etapa, os alunos são preparados para prestar o Exame Nacional do Ensino Médio e os demais vestibulares.

É importante compreender que cada região do país possui uma realidade e que as inserções às etapas variam de acordo com as necessidades e o público da comunidade. Em suma, a organização acontece desta maneira, oferecendo oportunidade para o ensino público de qualidade independentemente da idade e motivos anteriores de afastamento do ambiente escolar.

O processo de ensino – das dificuldades à motivação

A EJA transforma a vida de estudantes, assim como de professores que contribuem com o processo de ensino aprendizagem nas etapas que a modalidade oferece. O corpo docente que faz parte da educação de jovens, adultos e idosos são desafiados diariamente, frente às dificuldades que a educação pública no Brasil é alvo. Mas existem motivações que só o amor pela profissão e a sala de aula proporciona.

É como Rosa Paiva, professora da modalidade, descreve sua experiência na EJA.

“A minha maior motivação, é de chegar na escola, entrar para a sala e encontrar uma boa parte desses alunos, interessados, querendo aprender. Para mim, é um prazer que não tenho como avaliar”, afirma a docente.

Idade certa?

Dentro do âmbito escolar existe a chamada “idade certa”, que pode ser definida como a idade convencional para a realização do ensino básico. Contudo, não existe idade certa para aprender e se permitir no mundo da sala de aula. Ainda mais com a oportunidade da EJA, que permite este espaço de ensino aprendizagem independentemente da idade.

Apesar da base e objetivo do ensino, ainda existe muito preconceito em relação ao âmbito. Segundo Celma Dias, coordenadora da modalidade do interior do Maranhão, essa visão é um desafio do programa e que vem sendo combatida pelos alunos e professores que trabalham diariamente para construir um novo olhar do ensino.

“Há muito preconceito na Educação de Jovens e Adultos e isso acaba ocasionando muitas divergências no âmbito educacional. No entanto, ainda existem professores e alunos que defendem aquelas pessoas que não tiveram oportunidade de educação nas fases iniciais. Não existe idade certa, existe vontade de estudar”, ressalta a coordenadora.

Dessa forma, a Educação de Jovens e Adultos se apresenta com grande importância dentro da sociedade brasileira, é uma segunda chamada ao que há de mais precioso, a educação. É uma oportunidade para construir sonhos, ou até mesmo um sopro de motivação e ensino para continuar projetos interrompidos.

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