Afro empreendedorismo como forma de sobrevivência em meio ao desemprego

Por Sara Nascimento

No livro Um defeito de cor, a autora Ana Maria Gonçalves conta a história de Kehinde, nome fictício para representar Luísa Mahin, referência na resistência ao escravismo. Na obra, que aborda questões sociais referentes à construção do Brasil, Kehinde é uma africana escravizada que, depois de um tempo, começa a vender cookies para comprar sua libertação e a de seu filho. Quando liberta e de volta à África, Luísa inicia a venda de tecidos, óleo de dendê e, posteriormente, trabalha gerenciando construções de casas através de sua empresa “Casas da Bahia”, responsável também pelos móveis e pela decoração das residências. Com esse exemplo, percebe-se que o afro empreendedorismo, empreendimento realizado por pessoas negras, existe desde o período colonial brasileiro.

O livro retrata parte do século XIX, em uma época anterior a 1888, ano da libertação dos escravos no Brasil, último país a acabar com a escravidão, depois de muita luta da população negra. Apesar dessa conquista, o país continuou a ser palco para a desigualdade, provocando a exclusão social, por muitas vezes, pautada pela cor da pele. Sem acesso à educação, saúde, moradia, emprego ou qualquer tipo de políticas públicas que atendessem aos ex-escravizados, viver com qualidade, segurança e outros direitos básicos não fazia parte da realidade das pessoas negras.

Mais de 130 anos depois da abolição da escravidão no país, considerando a desigualdade social, essas questões ainda são muito presentes, apesar do avanço com relação à cidadania, à adoção de políticas públicas. Com o baixo investimento na educação, base para combater as injustiças, as pessoas em situação de vulnerabilidade social geralmente têm dificuldades para ocupar lugares no mercado de trabalho, especialmente as negras. Em agosto de 2021, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para escancarar ainda mais as desigualdades, o desemprego atingiu 14,4 milhões de brasileiros. O Piauí, no final do segundo trimestre deste ano, tinha cerca de 212 mil desempregados, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) — para se ter ideia, essa quantidade representa cerca de um quarto da população teresinense. Ainda de acordo com a Pnad, entre os desempregados no país, de outubro a dezembro de 2020, os negros eram a maioria.

“Eu tive que aprender a fazer alguma coisa, senão morreria de fome”, destacou o eletricista Manoel do Nascimento sobre seu início no empreendedorismo, ainda na década de 80. Uma pesquisa do Sebrae e da Global Entrepreneurship Monitor (GEM), de 2019, mostra que 27,1% dos empreendedores negros começam um negócio por necessidade, como foi o caso do seu Manoel. Sem estudos, mas com curiosidade, disposição e facilidade para aprender, ele adentrou nesse mercado, mesmo com poucos mecanismos para isso. Para garantir a sua sobrevivência, aprendeu a trabalhar como pedreiro, eletricista, montador de móveis, entre outras profissões — às quais atua ainda hoje —, por isso, se intitula como “O faz tudo”, nome de sua empresa, à qual ele realiza todas as funções; como cerca de 90% dos empreendedores negros, ele é empresário por conta-própria.

Manoel do Nascimento. Foto: reprodução do perfil do Instagram @ofaztudomanoel68

Os pretos e pardos brasileiros representam mais da metade da população, mas, mesmo sendo maioria, como dito antes, muitos não têm pleno acesso a escolas, terras e emprego. Com essas dificuldades, há mais de 13 décadas muitas pessoas negras veem no afro empreendedorismo uma fonte de renda para sobreviver. Dos empregos de carteira assinada que já teve, Manoel já foi vendedor, bombeiro hidráulico e vigia. Certa vez, não foi aprovado em uma seleção de emprego e passou a fazer “bicos”, até começar, de fato, a trabalhar com consertos, construções e manutenção elétrica. Antes disso, ele já tinha passado por várias dificuldades, sem emprego e sem dinheiro para pagar o aluguel, Manoel morou na rua, até conseguir abrigo com a ajuda de colegas e realizar pequenos trabalhos nas áreas que atua hoje.

“Há pouco tempo fui convidado para trabalhar de carteira assinada, mas eu não quero, de jeito nenhum. Eu ganho muito mais assim, trabalhando por conta própria, do que trabalhando para os outros [de acordo com a CLT]. Vamos pensar: eu ganharia R$ 1000 reais, entraria na empresa às 7h, sem hora pra sair. No sábado, ficaria até às 14h ou 15h. Não, não quero, não. Pra mim não compensa”, destacou Manoel.

‘O faz tudo’ durante um momento de trabalho. Foto: reprodução do perfil do Instagram @ofaztudomanoel68

Para a socióloga e pesquisadora Poliana Sousa, olhar para o mercado de trabalho do país sem considerar a questão da interseccionalidade entre classe, raça e gênero, é desconsiderar a realidade, pois a sociedade brasileira é fortemente marcada pela opressão, discriminação e dominação — elementos presentes no mercado de trabalho. Ela destaca ainda que a diminuição da taxa de desemprego no último trimestre se deve ao aumento de postos de trabalho informal, setor com pessoas sem carteira assinada ou CNPJ, que, de acordo com dados recentes do IBGE, representa cerca de 40% dos ocupados. “Esse dado em específico, além de preocupante, mascara a realidade econômica do país, essencialmente a ausência de políticas voltadas para a diminuição da pobreza e das desigualdades”, frisou Poliana Sousa.

A socióloga destaca ainda que a sub-remuneração e a instabilidade são algumas das características do setor informal, onde encontra-se o maior número de trabalhadores exercendo atividades de forma precarizada.

“Essa precarização significa rendimentos baixos; ausência de proteção legal em casos de acidente ou licença remunerada; dificuldade na contribuição para a previdência; condições degradantes em que muitas vezes essas atividades são realizadas; além de dificuldade na declaração de renda e no acesso ao crédito”, pontuou a pesquisadora.

A limitação financeira é uma das justificativas de Manoel do Nascimento para não expandir seu negócio. Para Rosana Márcia, vendedora de bolos e cremes de galinha, também, com destaque a sua impossibilidade de comprovar renda. “Se nós, mais pobres, tivéssemos auxílio do Estado, ou por empréstimos facilitados e com mais tempo para pagar ou por algum outro meio que atendesse nossa classe, seria muito vantajoso para a população que quer ter o próprio negócio. Teria mais gente empregada, poderíamos até gerar mais empregos, assim, haveria menos pessoas passando dificuldades por não conseguir trabalhar nas grandes empresas”, pontua Rosana.

Diferente de Manoel, Rosana Márcia, por vezes com dificuldades financeiras para dar continuidade às vendas dos alimentos, preferia estar empregada com carteira assinada, considerando a queda nas suas vendas desde o início da pandemia. “Com todos os lugares fechados e com pouca gente na rua, não tinha cliente, praticamente”. Depois de muitos anos, ela voltou a vender frequentemente quando, em 2018, depois de nove anos empregada em uma rede de supermercados, foi desligada da empresa. Desde então procura um novo emprego, mas sem sucesso.

A população negra é a mais afetada com o crescimento do trabalho informal no Brasil. De acordo com uma pesquisa de 2019 do IBGE, esses trabalhadores representavam quase 42% dos brasileiros na informalidade; além disso, os pretos e pardos representaram 47,4% das ocupações informais em todos os estados do país, enquanto a população branca, 34,5%. Poliana Sousa reforça que “as novas estratégias do capital, como o estímulo para o trabalhador ‘empreender’, tendem, muitas vezes, a fortalecer a informalidade e a mascarar os postos de trabalhos precários, pois o negócio por conta própria pode não ser uma escolha, mas uma alternativa de sobrevivência”.

Pequenas vendas de produtos, assim como a confecção de artesanatos, antigamente, era uma atividade não reconhecida como trabalho, principalmente quando exercida por mulheres. Porém, Rosana Márcia, desde jovem, com dificuldades para investir nos estudos e na capacitação profissional, apostava nas vendas como uma oportunidade para, pelo menos, suprir suas necessidades básicas.

Rosana Márcia. Foto: arquivo pessoal

“Hoje em dia, queria mesmo era receber um salário fixo, o que eu ganho com as vendas, ajuda, mas é um valor incerto. Mesmo assim, sempre gostei de vender, já vendi ‘de tudo e mais um pouco’. Desde adolescente eu trabalhava com oferta de produtos pra comprar minhas coisas pessoais. Atualmente, o dinheiro que eu lucro serve para me ajudar na compra de alimentos ou no pagamento das contas de casa, como gás, energia ou internet. Por isso, no momento, não tenho como investir no meu negócio, mas, quando eu conseguir um emprego, isso será minha prioridade”, finalizou Rosana.

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