Jornalismo de viagem: os impactos sofridos por essa prática ao longo da pandemia

Por Camilla Menezes

“O turismo foi a área mais afetada no mundo com a pandemia”. A observação da jornalista de viagem Natalia Manczyk reflete os impactos sofridos pelo setor turístico e suas respectivas áreas, como a do jornalismo de viagem, que foram abalados com a crise pandêmica da covid-19. Muitos países fecharam suas fronteiras para os turistas ou adotaram o isolamento social para conter a disseminação da doença causada pelo novo coronavírus, fato que acarretou em diversos problemas econômicos mundo afora, visto que as pessoas não estavam mais viajando. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Conselho Mundial de Viagens e Turismo (CMVT), 62 milhões de empregos referentes ao campo turístico foram perdidos no ano passado, representando uma queda de 18,5% comparada ao ano de 2019.

Desta forma, Natalia Manczyk detalha que sofreu prejuízos no trabalho do seu blog Porta de Embarque, onde a publicidade foi reduzida e muitas matérias deixaram de ser publicadas devido às mudanças nos requisitos para a entrada de brasileiros em alguns países.“Os hotéis, as agências de turismo, as companhias aéreas entraram em crise, diminuíram anúncios, as revistas ficaram mais enxutas, teve menos trabalho para os freelancers também, porque os times das revistas ficaram menores, estão fazendo mais matérias com a equipe interna”, afirma a jornalista.

Com a queda registrada pelo CMVT, os empregos caíram de 334 milhões, em 2019, para 272 milhões no ano passado (Gráfico: Camilla Menezes)

Para Mari Campos, colunista do Estadão e do portal PanRotas, a situação foi semelhante. Ela descreve que muitas empresas priorizaram seus próprios funcionários, deixando de contratar freelancers, e que houve uma grande queda dos anúncios nas revistas e suplementos de turismo dos jornais. O CMVT prevê também que a ameaça de perda de empregos ainda persiste, caso não haja uma recuperação total no âmbito das viagens e do turismo. Desta forma, como o jornalismo de viagem pode sobreviver a essa crise?

Jornalismo de viagem no pós-pandemia

Apesar do jornalismo de viagem ainda estar enfrentando os problemas que vieram com a pandemia, esta área continua se mantendo firme e tem se adaptado com a realidade da covid-19. A era digital também trouxe consigo novas profissões, como a de digital influencer, em que os chamados influenciadores servem como ponte entre o cliente e as empresas, e divulgam seus anúncios, promoções e/ou o lançamento de linhas de novos produtos. O blog e o Instagram da Natalia Manczyk, ambos de mesmo nome, têm aberto novos horizontes para ela, dando uma liberdade ainda maior nas temáticas das suas matérias e atraindo os olhares de muitas empresas do ramo turístico. Com isso, ela conseguiu unir o seu trabalho como influenciadora e como jornalista de viagem, e conseguiu continuar atuando em meio a pandemia.

COMO INFLUENCIADORA DE VIAGENS ROLARAM ALGUNS TRABALHOS” – NATALIA MANCZYK

“Como influenciadora de viagens rolaram alguns trabalhos, porque empresas que, por exemplo, convidaram os jornalistas e influenciadores para viajar, acabaram investindo em publicidade. Então, chamaram a gente para publicar sobre os destinos no Instagram, no blog, fazendo uma matéria”, ressalta a jornalista, que acredita que o jornalismo de viagem se manterá mesmo com a crise, mas de forma reduzida. Ela explica que as publicações impressas têm focado mais no destino ou no tipo de viagem que os leitores querem, fazendo as revistas aparentarem mais com guias de viagem. Além disso, as empresas estão com orçamento menor, fator que as leva a focarem mais em seus resultados e a realizarem eventos mais limitados.

“Acredito que vai ser isso, eventos com menos pessoas, viagens e matérias para menos pessoas, porque as revistas estão cortando freelancers, então vão continuar mais com quem eles já tinham, ou só com quem eles conhecem e aquelas pessoas que já estavam nessa área. (…) Eu tenho visto que desde a pandemia os números têm tomado mais atenção. Então, eu tenho que passar mais relatórios depois de um trabalho. Mesmo antes de uma viagem eles pedem mais números, mais informações de qual é a sua principal rede, também temos que apresentar qual vai ser a pauta que vamos fazer”, examina.

Mari Campos também prevê que a área do jornalismo de viagem continuará no cenário pós-pandemia, no entanto, com alguns setores melhores que outros. “Acho que as publicações mal administradas do setor vão ficar piores – mas não acredito que fechem ou terminem. Seguirão, apenas com pior qualidade (muitas estão trabalhando com blogueiros que aceitam escrever de graça e o nível dos textos caiu terrivelmente). Por outro lado, as bem administradas já estão praticamente recuperadas financeiramente e seguem trabalhando muitíssimo bem, com bons jornalistas – tanto aqui como lá fora. O público e os anunciantes percebem o trabalho bem feito”, observa.

Afinal, o que é o jornalismo de viagem?

Qual é a ligação do jornalismo com viagens? Ao contrário do que muitas pessoas pensam, os jornalistas não trabalham apenas na televisão, rádio, ou nos portais de notícia da web. Assim como as várias disciplinas que há no curso de jornalismo – que podem ir desde fotografia à assessoria de imprensa -, as áreas do mercado de trabalho jornalístico também são amplas. Apesar dessa versatilidade, o trabalho do jornalista pode ser resumido, principalmente, ao ato de informar, apurar e ir atrás dos fatos, tudo para que a notícia chegue até a população de forma clara e concisa.

Ao analisar esse panorama, fica fácil responder as duas perguntas abordadas anteriormente. “Basicamente, o jornalismo de viagem é como qualquer outra área do jornalismo. É você trazer informações e fatos, mas, nesse caso, sobre um destino”, detalha Manczyk. A jornalista já viajou para 61 países e ela conta os seus aprendizados, dicas e experiências no blog Porta de Embarque, responsável por ajudar vários viajantes ao redor do mundo.

Natalia Manczyk durante uma viagem para Londres, em novembro de 2020 (Foto reprodução: perfil do Instagram @portadeembarque)

O interesse por esta área jornalística surgiu ainda na sua infância. Seus pais colecionavam revistas de viagem que pegavam dos lugares por onde viajavam. A paixão pelos guias turísticos a levou para o curso de jornalismo na faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. E foi durante a sua vida acadêmica que a carreira de jornalista de viagem começou. Quando estagiava na revista Viaje Mais, Natalia experimentou pela primeira vez o gosto de escrever matérias sobre viagens. Convidada para cobrir o evento carnavalesco do Galo da Madrugada, no Recife, a jornalista não contou apenas sobre a comemoração em si, mas deu aos leitores as suas impressões em um texto escrito em primeira pessoa. O fato agradou o seu editor, que a convidou para ir não só para outras viagens nacionais, mas internacionais também. Para ela, o grande diferencial do jornalismo de viagem é a liberdade na escrita.

“O que eu acho de mais interessante dessa área é que ela permite ter um jornalismo mais literário, então você não precisa ficar só focado nos fatos históricos ou nas informações sobre os destinos, o jornalista pode colocar a criatividade no texto. Pode colocar, por exemplo, a letra de uma música, pode ser uma inspiração para aquele destino, uma poesia, o nome de um filme e, além disso, você também pode fazer um texto em primeira pessoa. Outras áreas do jornalismo não permitem isso”, relata Natalia.

A paixão pelo jornalismo de viagem também apareceu cedo na vida da Mari Campos. Ela conta que sempre viajou muito, dentro e fora do país, e que desde a sua adolescência sempre lia muitas revistas e guias de viagens. “Quando, já depois de formada e depois da primeira pós graduação (em Segmentação Editorial), resolvi virar freelancer, a única coisa que eu tinha para oferecer para jornais e revistas eram matérias sobre as viagens que eu fazia. Como tudo que eu oferecia aos editores era dessa área, acabei ficando conhecida por isso e me especializei nesse nicho”, relembra Mari, que trabalha na área como freelancer desde 2006.

Mari Campos em viagem que realizou para França, em 2019 (Foto reprodução: perfil do Instagram @maricampos)

Em um cenário pós-pandemia, como se tornar jornalista de viagem?

Ler, escrever e viajar muito estão entre as dicas dadas por Mari e Natalia. Para quem quer entrar na área e acredita que as viagens são só diversão, Mari Campos explica que a realidade é diferente e que, na verdade, tem muito trabalho para ser feito. “É preciso entender que viajar a trabalho não tem absolutamente nada a ver com viagem de férias, é realmente trabalho 24h por dia e não lazer (…) É fundamental também entender o turismo como indústria”, aconselha.

Para Natalia, uma grande característica que diferencia o jornalista de viagem é a sua escrita literária e as referências culturais utilizadas nas matérias. “Além disso, eu também indico ser uma pessoa curiosa, pra sempre prestar atenção nessas questões, nos destinos, no que acontece nos lugares, colocar uma história nos textos, colocar um detalhe de uma arquitetura, por exemplo, e saber o que interessa pro leitor. (…) Pra entrar nessa área, eu indico começar fazendo frilas. Se você fez uma viagem e fez uma matéria sobre isso, acha que vai ter uma pauta interessante, ligue pras redações, ligue pras publicações e ofereça essa pauta. Acho que seria um bom jeito de entrar nessa área”, conclui.

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