Ascensão dos crimes virtuais amedronta internautas e mobiliza delegacias no Piauí

Vazamento de dados pessoais e fraudes financeiras têm sido grandes dores de cabeça para um número considerável de vítimas

Por Camila Sampaio e Eric Souza

O índice de golpes virtuais, versões cibernéticas das conhecidas fraudes financeiras, tem registrado sucessivos aumentos ano após ano. Levantamento divulgado pelo laboratório de cibersegurança da PSafe revelou que mais de 17 mil crimes do gênero são cometidos por dia no Brasil. Diante do advento da pandemia de Covid-19 no país, apenas neste ano já foram registradas quase duas milhões de tentativas.

Dentre as fraudes mais comuns figuram e-mails e mensagens com links maliciosos, criação de perfis falsos, manipulação de dados bancários e vazamento de cartões de crédito. Na maioria dos casos, os criminosos se aproveitam do pouco conhecimento tecnológico detido pelas vítimas, que colaboram inconscientemente com o furto de seu patrimônio.

Criminosos utilizam redes sociais para praticar crimes (Foto: Reprodução/Freepik)

“Geralmente os idosos são os que mais demoram para perceber que foram vítimas de um golpe. Por outro lado, pessoas mais jovens, que apresentam mais familiaridade com os aplicativos, não costumam cair nos truques”, afirma Alexandre Magalhães, advogado especialista em proteção de dados.

Segundo Alexandre, dados vazados e expostos na Internet podem ficar disponíveis por tempo indeterminado, causando diversos danos. Alguns deles incluem compras sem autorização, financiamentos bancários e prática de crimes; tudo registrado no nome das vítimas.

Nunca pensei que fosse cair em um golpe desses, mas fui vítima de estelionato

Casos são registrados no Piauí

Foi o que aconteceu com Lucas Gonçalves (25), empresário que trabalha com redes sociais. O empreendedor buscava adquirir smartphones de qualidade e com preço razoável para a sua loja e, para isso, procurava fornecedores no Brasil a fim de facilitar as negociações. Assim, iniciou uma conversa com um perfil um tanto suspeito, mas que apresentava produtos bons e baratos.

“Comecei a achar um pouco estranho tanto o valor quanto a abordagem do sujeito. Alguns dias passaram e eu realmente precisava do produto, então fiz a transferência do preço total do aparelho e o frete, no total de R$ 2 mil, e ele não respondeu mais. Nunca pensei que fosse cair em um golpe desses, mas fui vítima de estelionato”, conta.

Empresário pagou antecipadamente por produto que nunca recebeu (Foto: Arquivo Pessoal)

Uma queixa comum dos indivíduos envolvidos nessas situações é que muito raramente conseguem retomar a quantia furtada. Ademais, parte considerável das delegacias espalhadas pelo país não apresentam estrutura humana e tecnológica adequadas para lidar com os crimes.

Recentemente, a Polícia Civil tem oferecido a possibilidade de registro de boletins de ocorrência por meio do Sistema de Procedimentos Policiais Eletrônicos (PPE), mas muitos agentes enfrentam sérias restrições técnicas e não estão capacitados para manusear as ferramentas do serviço.

Na visão de Odilo Sena, delegado titular da 13ª Delegacia de Polícia de Teresina, a primeira atitude a ser tomada é procurar o estabelecimento policial. “Mesmo diante da aparente ineficiência, as vítimas devem procurá-lo, pois quanto maior for a demanda, maior a preocupação dos gestores, os quais perceberão a importância do tema para a população e investirão no combate aos criminosos”, pontua.

Apesar da sensação geral de impunidade que assola o país, em certas ocasiões os orquestradores das fraudes são capturados e conduzidos ao tribunal para responderem pelas infrações. A celebrante de casamentos Jane Pimentel (52) relata que uma quadrilha utilizava seu número de telefone profissional, em 2019, para registrar contas em sites de vendas.

Cerimonialista foi vítima de quadrilha especializada em fraudes financeiras (Foto: Arquivo Pessoal)

“Na hora da negociação, um dos integrantes do grupo se dirigia ao local e retirava o produto, alegando ser meu parente e que eu enviaria o dinheiro posteriormente. Pouco depois, recebia mensagens de cobrança no meu celular”, narra Jane.

Em julho de 2020, a Polícia Civil, através da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI), prendeu a líder da quadrilha, além de outro adulto e um menor de idade, também membros da organização criminosa. De acordo com o órgão, a chefe dos esquemas ilegais praticava estelionatos em Teresina há pelo menos dez anos.

O medo domina. Não é porque já caí que estou isenta de cair novamente

Como se prevenir dos criminosos?

Por fim, com o intuito de evitar cair em golpes virtuais, especialistas recomendam uma série de medidas de prevenção. O advogado Alexandre Magalhães salienta algumas, que incluem acessar apenas sites e aplicativos confiáveis e trocar senhas com frequência. Lembra ainda que existem diversas consultorias de segurança que orientam os usuários a como proceder nestes casos.

Denúncias dos crimes são feitas, mas processos só abrem com provas suficientes (Foto: Reprodução/Freepik)

Já o delegado Odilo Sena ressalta a importância de desconfiar de todas as informações repassadas por interlocutores suspeitos, além de confirmá-las com as instituições das quais dizem fazer parte (bancos, associações etc.). “Normalmente, os golpistas estão única e exclusivamente interessados em seu dinheiro. Se você mantiver a calma e pedir que aguardem algumas horas, será fácil de verificar se são profissionais sérios ou apenas querem lhe enganar”, completa.

Contudo, ainda que todas as precauções sejam adotadas, persiste nas vítimas o receio de serem ludibriadas novamente. “Tenho tentado prestar mais atenção, mas o medo domina. Não é porque já caí que estou isenta de cair novamente. Óbvio que não tenho a mínima pretensão, mas eles possuem tantas técnicas persuasivas e criam novas a cada dia”, comenta Jane.

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