Depois da pandemia, eu quero…

Por Ana Kálita Vale e Ana Carolina Dias

Se em 2019 alguém chegasse e contasse que os próximos dois anos seriam marcados por uma pandemia, você provavelmente não acreditaria, certo? O vírus da COVID-19 causou pânico mundialmente e forçou praticamente todos a se refugiarem em suas casas. Nos primeiros meses de 2020, a população brasileira vivia com medo e, mesmo sem um lockdown oficial, os que tinham a opção resolveram ficar em casa. Hoje, mais de um ano depois do começo da pandemia, as pessoas saem, vão em barezinhos e ficam expostas mesmo com o perigo iminente, mas não é possível dizer que a vida voltou ao normal.

As pessoas ainda andam com medo, as máscaras são necessárias para a proteção e aglomerações ainda são arriscadas, o que não mudou desde o começo desses turbulentos anos foi o desejo praticamente universal de poder sair de casa sem se sentir desprotegido.

Com o relaxamento de medidas restritivas, pessoas vão voltando a frequentar bares

Foi isso que aconteceu com Lauriene, cabeleireira de 29 anos. Ela diz que a vida antes da pandemia tinha uma rotina muito boa, os quatro filhos na escola e a vida profissional eram algo simples. Após mais de um ano vivendo com cautela constante ela não normaliza a situação em que está.

“Sinto falta da rotina de sair, poder viver sem medo”.

Antes de tudo, Lauriene gostava de sair, passear em clubes e ir ao shopping, hoje ela tem cuidado redobrado ao sair de casa e percebe como seus filhos ficam estressados por passar tanto tempo em um lugar só.



Lauriane e os filhos Jesus, João Gabriel, Lanna Vitória e José Mateus

Seu filho, Jesus Ângelo Lima Santos, de 14 anos, conta que a primeira coisa que quer fazer assim que for seguro novamente é voltar à escola e ir ao shopping. “Sinto falta dos amigos e da escola”. Lauriene é só mais uma entre muitos que sonham com um dia em que será seguro andar sem máscara. Quando questionada sobre o que mais deseja fazer depois da pandemia ela responde: “Quero poder visitar pessoas e lugares, respirar sem máscara e ver todos se abraçando”.

A pessoa LGBTQIA+ e o desafio de se sentir em casa

24, 25 de sonho, sangue e 26. Assim Hannah Pessoa, de 26 anos, contou sua mudança deidade durante a pandemia e não consegue mais dizer ao certo como as coisas eram, mas lembra de tudo ser menos complicado: “Encontrar amigos era mais fácil, abraços eram mais simples”, conta a bacharel em Direito e especialista em direitos humanos. Sabe e reafirma que estar em casa é uma das medidas essenciais para preservar vidas nesse momento, mas Hannah relembra que, para pessoas LGBTQIA+, estar em casa nem sempre é sinônimo de paz, conforto e segurança.

Hannah Pessoa – Foto: arquivo pessoal

Ela conta que enquanto pessoa LGBTQIA+ que não vive sozinha, estar dentro de casa sempre foi um problema de alguma forma. “Nunca foi muito confortável, mas durante a pandemia passou a ser menos ainda”, desabafa Hannah.

Há pouco mais de um ano, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou pandemia, foi emitido um alerta pela Organização das Nações Unidas (ONU) de que a necessidade sanitária de isolamento social, aumentaria violências contra pessoas LGBTQIA+.

Hannah não mora com os pais e pouco os viu desde que foi trabalhar em outra cidade, por medo de se infectar ou a alguém que ame. Começou a trabalhar presencialmente, segue mantendo os cuidados e sente saudade de “poder sair de casa sem me preocupar se vou morrer ou levar a morte para alguém de alguma forma”. Ela deseja viagens e shows nos tempos futuros, pós-pandemia.

Religiosidade e fé

Maria Dina, de 62 anos, começa a conversa citando versículos bíblicos sobre a importância de um retorno à fé. Com convicção, afirma que a pandemia nos tornou prisioneiros e que não é “coisa de Deus”. A professora aposentada não tem tanta expectativa de um retorno ao que entendemos como normalidade. Pelas características que conhecemos do vírus, de acordo com Maria, o coronavírus continuará e lidaremos com ele de outras formas, como fazemos com a gripe, por exemplo.

Uma pesquisa da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, apontou que o Brasil é o país com maior índice de pessoas com ansiedade e depressão, em comparação a outros dez países. Nesse quadro desolador, para além dos cuidados médicos e terapias, muita gente tem buscado conforto na religião que, mesmo quando muitos desses espaços estavam sem receber os fiéis, se encontravam virtualmente para encontrar apoio na fé. São igrejas, templos, terreiros e centros de meditação que estão vendo seus números de adeptos crescer.

A verdade é que não há um manual para lidar com a pandemia e as realidades são diversas. O que se sabe é que todos, a seu modo, têm um desejo e algum tipo de plano para depois. Seja correr atrás do emprego que sempre sonhou, retomar uma amizade distante ou até mesmo um abraço, um momento oficial de pós pandemia, é quase um sonho coletivo que promete uma catarse social.

Em espera e esperança

Acreditar em outros meios de vivenciar o absurdo tem sido rotina para os brasileiros nos últimos 16 meses. Entre pães, livros, ioga, janelas e manejo de plantas, muitas pessoas, em especial as que seguem em isolamento e trabalhando de casa, vivem sua vida nessa nova realidade.

Apesar de muitas atividades estarem liberadas, a OMS indica que um retorno possível ao que se entendia por “normal” quando acima de 70% da população estiver vacinada com as duas doses. Até lá, muitas pessoas optam por passeios ao ar livre, andar de bicicleta e encontrar as pessoas queridas em parques ou locais abertos, como meio de redução de danos no contágio do coronavírus.

De acordo com a plataforma google trends a tendência de busca por lives e cursos têm diminuído, apesar de que seguem sendo oferecidos. As listas de otimização de tempo já não fazem mais tanto sentido, nesse momento em que as pessoas estão, em grande escala, esgotadas e procurando um tempo de maior qualidade e descanso, até que tudo isso passe.

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