Infectologista Carlos Nery: as vacinas, a Covid-19 e o contexto piauiense

Por Yuri Pontes e João Gomes de Sousa

Nos últimos séculos, a humanidade obteve grande sucesso no desenvolvimento de vacinas para várias doenças potencialmente fatais, como a meningite, o tétano, o sarampo, o calazar e a malária. Há um ano, a covid-19 era identificada. E a corrida pelos cientistas para desenvolver uma vacina adequada contra esse vírus, do grupo Sars- Cov2, era instaurada em todo o globo.


O infectologista Dr. Carlos Nery, foi um desses profissionais que alertaram para a gravidade da situação. No começo de sua carreira, Carlos Nery quando veio residir no Piauí, em 1984, assumiu o Hospital de Doenças Infecciosas, onde aprendeu infectologia e realizou pesquisas na área.

“Na época, me dedicava à Doença de Chagas nos estados de Goiás e Bahia, na área de pesquisa, e quando vim para cá tinha uma nova doença, uma epidemia recente, que era a leishmaniose visceral, o calazar. Daí mudei de área e comecei a me dedicar a essa nova doença. Mas ao longo do tempo várias doenças estavam acontecendo pelo Piauí”, informa!

Infectologista Dr. Carlos Nery . Foto: Pauta Judicial

Ele presenciou casos de contágio de diversas patologias no estado. Em seu relato e desabafo, ele narra diversos casos em que trabalhou, e que hoje são raros de presenciar, visto que a população está em sua maioria protegida pela vacinação.

“Vi muito tétano, até recentemente, por falhas na vacinação. E naquela época a mortalidade era muito grande, já que não tínhamos UTI (Unidade de Terapia Intensiva). Tivemos muita malária na época da Transamazônica e da mineração por ouro em Carajás e Serra Pelada. O Piauí mesmo teve muitos casos de malária autóctone. Depois, quando o garimpo artesanal foi proibido, eles migraram para Guiana Francesa, Guiana, Suriname e diminuíram bastante os casos em Teresina”

Carlos Nery lembra que com a hepatite B também houve muitos casos, e que também reduziram consideravelmente após a vacinação. Depois veio a epidemia de cólera, a de dengue, descobrimos a hepatite C, e outras foram emergindo ao longo do tempo”, destaca.

O infectologista afirma que quando um agente microbiano que gere imunidade chega em uma população, as pessoas vão deixando de ser suscetíveis àquela infecção e adquirindo imunidade, aumentando, assim, a população resistente e diminuindo a proporção de pessoas suscetíveis. Carlos Nery destaca essa situação explicada como “platô para doenças que causam imunidade coletiva”.

Sem vacina, não é possível estimular um pico

De acordo com o médico, os cientistas no início começaram a estimar quando seria o primeiro pico. Porém, para ele isso é um erro sistemático, pois precisaríamos da vacina para os dados, pois não depende só da estimativa, uma vez que é falha, incorporando conceitos exponenciais. Então, qualquer mudança nesse número de reprodução básica, nesse expoente, gera grande repercussão sobre os valores preditos. É como um jogo de sinuca.

“Um mínimo desvio na hora de atingir a bola pode fazer com ela atinja outras. E a menos que seja um expert não saberá onde a bola vai cair. Os modelos têm isso, incorporam parâmetros que são muito vagos, que variam muito com o tempo. Se atuamos com medidas de distanciamento social, principalmente o lockdown, então se faz com que toda essa previsão seja modificada”, exemplifica.

Carlos Nery

Um dos pontos que o infectologista também destacou foi a pressão da sociedade para que acabassem as medidas de isolamento social, que apesar de afetar a produtividade, o emprego e a sobrevida das pessoas, foi um freio importante para minimizar o número de infectados. Além disso, não foram tomadas medidas importantes, como a testagem em massa, não apenas a testagem rápida.

No Piauí, essa pressão acometida aos prefeitos e ao governador do estado, Wellington Dias (PT), teve força expressiva para que os protocolos de distanciamento fossem revogados, principalmente por parte de empresários locais. “Existe uma pressão absurda para que eles [prefeitos e governador] cedam. Estão se baseando na flexibilização da economia como parâmetros. Se você perguntar qual o parâmetro do Piauí, teremos alguns indicadores, mas qual o ponto de dar o sinal? Não existe.

“Uso de máscara e álcool gel será necessário até tudo se ‘normalizar'”

Diante dessa situação, o Doutor Nery pontua: as pessoas precisam se conscientizar que até termos um antígeno para a criação de anticorpos, precisamos ser bastante cautelosos, pois muitos não conseguem suportar uma infecção respiratória aguda como a da covid-19, o uso de máscaras e álcool em gel será imprescindível até depois que tudo se “normalizar”, sempre vamos conviver com situações extremas advindas da relação que temos com o meio ambiente.

Por exemplo, uma doença emergente, gravíssima dos centros urbanos, que a pouco dá-se atenção, alerta o Dr. Carlos Nery são os acidentes de motocicleta. Essa é uma doença claramente emergente, letal, e que como não é causada ou transmitida por um mosquito, não damos muita importância. Ele finaliza afirmando que outras doenças virão, poderá ser advento do aquecimento global; doenças por causas físicas; desmoronamentos; enchentes; novos mosquitos aparecendo ou até novos microrganismos, e reafirma que tudo isso é inevitável e vai acontecer em curto prazo

Por isso temos por obrigação conter todas essas formas de epidemias, as que precisam de vacinas e as que não precisam também, reinventando assim esse “novo normal”, não sendo apenas um novo normal para utilização de máscaras ou de um certo distanciamento social, mas para frear toda essa ganância e desumanidade que ameaça o nosso planeta. Para que finalmente essa noite escura, passe.

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