Mães da Favela: projeto ameniza fome de famílias carentes

Por Erik Medeiros e Sabrina Luz

O Projeto “Mães da Favela” surgiu através de uma mulher da região Sudeste do Brasil, mãe de seis filho, que gravou um vídeo pedindo ajuda para alimentar os filhos. Algumas pessoas passaram a se mobilizar para ajudá-la. E nesse contexto de gentileza surgiu a ideia de transformar essa ajuda em inúmeras outras ajudas, de forma que chegasse a outras mães necessitadas.

Em Teresina, o projeto trabalha principalmente em dois eixos: alimentação, através da distribuição de cestas básicas, e o eixo econômico, com a entrega de cartões de alimentação. Esses cartões também se materializam em dinheiro, que permitem as mães pagar uma conta de água, por exemplo.

A iniciativa se fortaleceu em meio a pandemia e, para que seja ampliado, o projeto precisa de ajuda, tanto de alimentação quanto com doações monetárias para a retomada econômica. Até agora, desde março do ano passado, foram mais de 150 toneladas de alimentos distribuídas.

Gil Ferreira, coordenador do projeto, com voluntária durante ação. Foto: arquivo pessoal

Gil Ferreira, coordenador do projeto, conta que são mais de 15 mil mães atendidas com entrega de cestas básicas. O projeto Mães da Favela é um programa da CUFA, organização da qual o Gil faz parte. A CUFA (Central Única das Favelas) é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos âmbitos político, social, esportivo e cultural que existe há 20 anos.

“Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros. A entidade promove atividades nas áreas da educação, lazer, esportes, cultura e cidadania, como grafite, DJ, break, rap, audiovisual, basquete de rua, literatura, além de outros projetos sociais”, conta o coordenador.

A piauiense Tércia Maria fala sobre o alcance das doações!

Gil Ferreira (atua na CUFA desde 2012), ainda conta que, juntamente com os voluntários, está conseguindo auxiliar melhor essas mães, sobretudo nas regiões periféricas (mas também nas rurais) da cidade de Teresina. Atualmente, vem se expandindo para atingir outros munícipios, somando ao todo muitos voluntários espalhados pelas cidades de Parnaíba, Picos e Cristalinas.

“Nunca paramos com o projeto. Temos, sim, dificuldades de doação, também de locomoção e, agora, com a vacinação também aumentam as restrições. Mas não podemos parar de ajudar essas mães”, desabafa o Gil. Para o futuro, as expectativas do projeto é que os serviços continuem ativos e atendendo quem necessita.

47% das famílias do Piauí vivem na linha de pobreza  

A realidade de muitas famílias de Teresina que vivem em situação de pobreza e extrema pobreza já ultrapassou a linha do que poderia ser considerado preocupante. Em novembro de 2020, o IBGE divulgou uma pesquisa do ano de 2019 que mostra a heterogeneidade brasileira sob a perspectiva das desigualdades sociais. No Piauí, os dados revelam uma realidade que impacta. São 47% das famílias piauienses que vivem na linha de pobreza e 15% em situação de extrema pobreza. 

Assistente social de Teresina-PI, Ana Cleide Nascimento acredita que as políticas públicas do passado eram articuladas e realmente beneficiavam as pessoas mais necessitadas de forma integral.

Antes tínhamos políticas articuladas: de assistência, habitação, saúde, agricultura familiar, moradores da zona rural, quilombolas e indígenas. Havia o Bolsa Família, que era de forma diferenciada. Os valores recebidos eram definidos de acordo com a quantidade de membros. Havia todo um estudo para que o recurso fosse condizente com as necessidades da família carente”.

Ana Cleide Nascimento

Com a pandemia, as lacunas entre grupos populacionais notadamente se agravaram. De acordo com a assistente social, a pobreza é mais evidente nas áreas rurais e na população com menores níveis educativos. Ela ainda reforça que uma das primeiras medidas do atual governo foi tirar recursos.

“Com isso, a assistência social perdeu cerca de 40% do seu orçamento. O “Minha Casa, Minha Vida” foi substituído pela “Casa Verde Amarela”. O programa tinha vários níveis de financiamento. Quanto às pessoas carentes, para quem ganhava até 1,8 salário mínimo, o governo federal retirou esse nível. As pessoas que ganham de 0 a 1,8  salário mínimo não são mais contempladas”, destaca.

Cartões Alimentação auxiliam atendidas pelo projeto

A assistente social acredita que essa atitude gera um dano, contribuindo para o aumento da pobreza. “As pessoas em situação de pobreza não têm condições de financiar um imóvel. As ocupações de terra vão aumentar.”

Em meio a isso, há o temor de que ocorra o mesmo que aconteceu na década de 90. “As terras eram ocupadas porque as famílias não tinham programa de habitação”, explica Ana Cleide.

Piauí é quinto estado com maior índice de pobreza

A estimativa da população do Piauí era de 3.281.480 habitantes em 2020, segundo o IBGE. Em 2019, esse número era de 3.273.227 residentes. Os dados da síntese dos indicadores sociais (SIS), que tem como principal fonte de informação a pesquisa nacional por amostra de domicílios contínua, identificaram que aproximadamente 457 mil pessoas estavam em situação de extrema pobreza no Piauí em 2019. 

No Piauí, 1,4 milhão de pessoas vive com menos de R$ 436 mensais. Esse número cresceu entre 2018 e 2019 e equivale a quase metade da população do estado (43,4%), enquanto que no Brasil esse índice é de 24,7% (51,7 milhões). O Piauí é o quinto estado do país com maior índice de pobreza: Maranhão (52,2%), Amazonas (47,4%), Alagoas (47,2%) e Pará (44,3%). 

Ricardo Alaggio, doutor em Ciência Política, faz uma projeção de como está o cenário da pobreza tendo em vista a pandemia. “A pobreza no Piauí nunca deixou de existir, temos problemas estruturais e uma economia pouco dinâmica. Com um auxílio emergencial reduzido e limitado, 2021 lida com um aumento ainda maior de casos relacionados à extrema pobreza”. Ele afirma ainda que o Piauí tem o maior índice de super-ocupação da força de trabalho, o que provoca um baixo rendimento e propicia as migrações.

Professor Ricardo Alágio – site UFPI

Esses dados são o retrato dos problemas sociais e econômicos que contribuem para o cenário de pobreza, como o desemprego nível de escolaridade e falta de saneamento básico. Em Teresina havia cerca de 70 mil pessoas desempregadas no 4º trimestre de 2019, sendo a capital com a quarta maior taxa de desemprego no Brasil. 

Esse números e a inciativa de projetos sociais como o Mães da Favela amenizam um pouco dessa carência por alimentos. E elas agradecem, como pode ser visto no vídeo!

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