Indústria de Fake news compromete imunização contra covid e dá destaque a jornalismo de verificação

Por Karolene Veras e Sane Araújo

No final do ano de 2020 foi iniciado campanha de vacinação contra covid-19 em alguns países do mundo, no Brasil a vacinação iniciou no dia 17 de janeiro, no estado de São Paulo, respeitando uma ordem de prioridade. O primeiro grupo a ser vacinado foi o de profissionais da área da saúde, porém muitos brasileiros ainda optam pela não imunização influenciados por fake news sobre possíveis efeitos colaterais ou outras fantasias.

Uma delas defende que, por meio da vacina, seria implantado um microchip na população. Essa fake pode ter iniciado ainda no ano passado, quando Bill Gates se cadastrou na plataforma Reddit AMA para responder a perguntas sobre investimentos para combater a covid-19. Em uma das respostas, ele comentou que um dia todos teríamos uma espécie de prontuário digital, como um cartão de vacinas eletrônico, em que as pessoas poderiam informar seu histórico de saúde, por exemplo, ao viajar ou ser contratado por uma nova empresa.

A partir disso, a informação passou a ser totalmente distorcida e assim as pessoas passaram a acreditar que esse tipo de tecnologia poderia ser utilizado na vacina contra covid-19, onde já foi comprovado que não existe essa possibilidade.

De acordo com a pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 18 de maio, 8% da população brasileira não pretende se vacinar. A autônoma Maria do Socorro Miranda, relata que está indecisa em relação a tomar alguma dose dos antígenos disponíveis, já que não acredita na eficácia dos imunizantes.

“Estou tomando a decisão se vou tomar ou não, porém está mais para não do que para sim. Em conversa com minhas amigas, analisamos a situação, e chegamos à conclusão que uma vacina demora muito tempo para ser fabricada e gerar bons resultados. Como essas têm pouco tempo não acredito na procedência das vacinas”, destaca.

Site de checagem COAR faz verificação de notícias faltas

A empresária Elinete Pereira, de 53 anos, é outra que não dá muito crédito à vacina contra a covid-19, mas tomou a primeira dose da vacina , após muita insistência da filha.

“Eu não queria tomar a vacina, pois tinha/tenho medo dos efeitos colaterais serem piores do que a covid-19, já que tomar a vacina é a mesma coisa de adquirir o vírus. E também pela variedade de vacinas, será que vou ter a sorte de pegar a vacina que vai ser a correta futuramente? Eu não confio nessa vacina feita assim às pressas. Fui obrigada pela minha filha a tomar a primeira dose, preferia não ter tomado e acho que não vou tomar a segunda”, relata.

Empresária Elinete Pereira
Marta Alencar

A desinformação e as fake news acabam atingindo diretamente a campanha de vacinação contra a covid-19 no país. A jornalista e mestre em Comunicação, Marta Alencar, fundadora do site de checagem COAR, comenta que as fake news atrapalham o processo de imunização, uma vez que a população acredita em informações manipuladas e sem embasamento cientifico.

“As fake news atrapalham a campanha de vacinação, pois muitas pessoas se deixam levar por informações manipuladas, distorcidas, fora de contexto e sem contém dados científicos. Geralmente, são disseminadas por pessoas que se deixam levar por crenças populares ou por uma mensagem de um familiar, e não em médicos e cientistas”, aponta.

A pesquisadora alerta que a desinformação não é somente uma informação falsa ou mentirosa. “Geralmente é uma informação compartilhada sem conhecimento científico sendo divulgada de modo até ingênuo, mas há uma indústria que compartilha esse tipo de conteúdo para fomentar o negacionismo e o movimento antivacina”, revela.

Desse modo, a corrida pelas vacinas não se mostra o único desafio da imunização no Brasil. A disseminação de fake news sobre a campanha de vacinação contra a covid é um dos principais desafios para os profissionais que atuam no combate direto ao novo coronavírus.

Polarização da sociedade é desafio para combater fake news

A fundadora do site de checagem COAR Marta Alencar comenta ainda sobre os principais desafio para combater as notícias falsas. “Nosso principal desafio hoje é a polarização da sociedade. As pessoas vão de acordo com aquilo que querem acreditar e não com o que a ciência mostra. O movimento antivacina é utilizado para fomentar a propagação de notícias falsas e para combater a legitimidade dos dados científicos”.

Segundo a mestre Marta Alencar, procurar fontes fidedignas que se baseiem em fatos e estudos científicos internacionais e nacionais, não compartilhar correntes no telegrama ou whatasapp e verificar se as informações são verídicas em sites com credibilidade. Essas são as principais maneiras de se verificar se a informação recebida é verídica.

Jornalismo de verificação é antídoto contra a indústria de desinformação

Muitos jornalistas assim como a Marta, atuam diretamente realizando checagem de fake news. A pós-doutora em Comunicação e Cultura Ana Regina Rego, fundadora do projeto de extensão da Universidade Federal do Piauí, Nujoc Checagem, que tem trabalhado diretamente na análise de notícias sobre a pandemia da covid-19 explica como os sites de checagem têm trabalhado para combater as fake news.

“O jornalismo de verificação como um todo tem trabalhado incessantemente dia e noite para tentar combater o fenômeno da desinformação que se espalha por um grande ecossistema. Temos grandes agências de checagem no Brasil, na América Latina e na Europa tentando combater a desinformação assim como temos a nossa Rede Nacional de Combate a Desinformação que reúne vários projetos de checagem e verificação, inclusive o Nujoc, formando um grande esforço conjunto para combater a desinformação pouco a pouco”, esclarece a pós-doutora.

No Brasil há diversas agências de combate a desinformação, elas costumam firmar parcerias com grandes plataformas e a pós-doutora reflete que há ônus entre esse trabalho conjunto.

Pós-doutora Ana Regina Rego, fundadora do Nujoc Checagem

“Temos grandes agências com parcerias com as plataformas digitais, uma relação perigosa, pois um dos grandes motivos da proliferação do mercado da desinformação no Brasil e em grande parte do mundo é o modelo das plataformas digitais como Twitter, Facebook, Instagram, Youtube, que favorecem conteúdos desinformacionais, o que denominamos de fake news tem um poder de circulação 70 vezes maior do que uma matéria jornalística”, disse.

A professora, que também é coordenadora geral da Rede Nacional de Combate à Desinformação, esclarece que o trabalho de combate a desinformação em nível nacional pela RNCd, comporta projetos de universidades públicas e coletivos, que trabalham com áudios, cards para as redes sociais e vídeos.

“Além do Nujoc Checagem, temos coletivos como o Bereia que checa informações do ambiente religioso. Temos o fakebook.eco para desinformações sobre o meio ambiente, sobretudo, as que emanam do próprio governo. Trabalhamos com áudio para os aplicativos de mensagens, cards para as redes sociais e vídeos, para levar conhecimento ao maior número de pessoas através de 120 projetos”.

Ana Regina Rego

A pesquisadora ainda comenta que o trabalho realizado nacionalmente no combate à desinformação enfrenta dificuldades para serem realizados de forma eficaz.

“Temos muitas dificuldades, sobretudo, quando trabalhamos sem investimento seja ele privado ou público como é a maioria dos casos dos parceiros da rede, em que 80 são de universidades públicas, então é um trabalho sem recursos. Outro dificultador é o grande número de desinformação que é jogado todos os dias e todas as horas por esse mercado, que é muito lucrativo”, finaliza.

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