Ideologia e negacionismo beneficiaram o coronavírus no Brasil

Por Sabrina Vargas, Caio Monteiro e Bárbara Fogaça

Desde o início da pandemia os holofotes pairam na questão do isolamento social, medida que foi objeto de conflitos políticos e econômicos, e que é recomendação da  OMS (Organização Mundial de Saúde). A questão parece simples, ao barrar as formas de contágio do vírus, caem as taxas de contaminação e consequentemente o número de óbitos e leitos ocupados em UTIs do país.

Mas a aplicação não têm sido simples, as chamadas medidas não farmacológicas, que são o conjunto de estratégias de prevenção a covid que não incluem fármacos, tal como: máscaras, distanciamento social, higienização das mãos, entre outros pequenos cuidados preventivos, não foram seguidas a risca por todos, e se tornaram palco de debates ideológicos que colocaram em xeque a eficácia destas medidas.

A alta taxa de contaminação associada a má implementação das medidas preventivas gerou um cenário onde mesmo pessoas em isolamento acabaram por contrair o vírus. É o caso de Igor Shcmitz, que seguiu todas as medidas indicadas, e ainda sim, contraiu o vírus.

Igor, de 24 anos  é biomédico e sofre de obesidade mórbida. Ele conta que pegou covid mesmo se isolando e seguindo todos os protocolos de segurança, e apesar de suas comorbidades, não ficou com sequelas e teve apenas febre e perda de apetite. Segundo Igor, ele pegou o vírus de uma cunhada durante uma visita. Ela não apresentava sintomas e nem mesmo o teste deu positivo, mas dias depois, Igor começou a apresentar febre, desconforto, e falta de paladar, não chegou a se internar e apenas foi ao hospital para fazer o teste e confirmar as suspeitas.

O caso de Igor não é isolado, desde o início da pandemia casos assim chamam atenção, bem como o fato de que, na outra ponta da linha, existem também muitas pessoas que não contraíram o vírus, mesmo saindo de casa todos os dias para suas atividades.

O Médico Rafael Arruda, do SUS, explica:

“´É muito difícil controlar o contágio de um vírus, você pode contrair ele tanto por contato direto, seja com uma pessoa ou com um objeto onde o vírus esteja, como também pode contrair pelo ar. Não necessariamente você vai deixar de ter Covid-19 por ter seguido todos os protocolos, mas essas medidas são necessárias porque barram a contaminação em escala maior. Quer dizer, mesmo que algumas pessoas tenham o vírus em isolamento, a taxa de contágio vai ser bem menor do que se todos vivessem normalmente”

“Tive corona, tomei cloroquina e passou. Se tiver de novo, tomo novamente!”

As questões ideológicas que levantaram dúvidas sobre a eficácia de medidas preventivas fundamentaram o argumento da dona de casa Alzira Ribeiro, 57 anos, que discorda da necessidade de cuidados preventivos:

“Eu tive corona, tomei cloroquina e passou. Se eu tiver outra vez, tomo de novo e pronto. As pessoas estão vendo a doença e não querem tomar o remédio, por isso estão morrendo”, argumenta.

Segundo ela, a família seguiu as medidas durante algum tempo, mas abandonaram ao perceberem a falta de eficácia, visto que tanto ela quanto o marido contraíram o vírus.

“Isso aí todo mundo vai pegar, não tem jeito, tem que tomar os remédios, enquanto ficar nessa discussão política não vai dar em nada, esta pandemia está servindo para roubo dos cofres públicos e mais nada. Conheço gente que nunca pegou, e tá saindo todo dia de casa.”

Alzira Ribeiro, dona de casa

O mesmo argumento de ineficácia do isolamento tem sido aplicado as vacinas. Defensores do popularmente conhecido Kit Covid, alegam que as vacinas não tiveram tempo suficiente para uma produção segura em âmbitos técnicos e que a mesma poderia causar um mal maior que os desencadeados pelo novo corona vírus. Questionam ainda, a efetividade dos imunizantes contra o próprio vírus de COVID. 

Venda de remédios do chamado “kit Covid” Foto: Dirceu Portugal/Fotoarena / Agência O Globo

Os casos de infectados vacinados com uma ou com as duas doses da vacina, são confirmados e desencadeiam uma desconfiança na população. Recentemente, o Senador Otto Alencar, membro da CPI da COVID, médico e vacinado com as duas doses, contraiu a doença e precisou ser afastado da sua atuação presencial na comissão:

“Sempre usei máscaras, álcool gel e não participei de aglomerações. O vírus está comunitário. Todos devem se cuidar muito e manter as medidas de segurança recomendadas pelas autoridades sanitárias”, disse o senador em nota.

Além do vírus, negacionismo é problema

O médico Rafael Arruda explica que a mesma ideia do isolamento, se aplica para vacinas: “Da mesma forma, se vacinar não significa que você não vai pegar covid, mas significa que você não vai desenvolver a forma grave da doença, e o que esperamos conter são as perdas de vidas né?”

Parte do problema, segundo o médico, é o negacionismo disseminado em torno do assunto e as informações poluídas que chegam as pessoas.

“É muita suposição, as pessoas querem seguir uma lógica rasa pra um assunto que é técnico, pra uma coisa que deveria ser da conta de quem estuda isso. Essa vacina foi feita mais rápido porque a necessidade era global, toda farmacêutica queria ser a primeira, todos os países estavam interessados em se livrar do problema, é por isso que foi rápido.”

Mesmo com todos os esforços de grande parte dos meios de comunicação, ainda pairam muitas dúvidas em grande parte da população, que acabam sendo confirmadas pelos casos atípicos de contaminados em isolamento, contaminado pós-vacina ou mesmo pessoas assintomáticas ou não infectadas ainda que, mantendo uma rotina distante dos protocolos indicados.

Pesquisa: estados com maior votação para Bolsonaro tem maior taxa de mortalidade

Uma pesquisa de abril deste ano, destaca os estados com maior adesão ao bolsonarismo como os líderes em taxas de morte por covid. Estudo feito pela unidade de inteligência do Congresso em Foco mostra que os estados que mais votaram em Jair Bolsonaro no primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 são hoje os que apresentam as maiores taxas de mortalidade por covid-19.

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