Ensino remoto reduz matrículas e aumenta evasão em escolas públicas

Por Francisco Dantas e Renata Santos

No contexto atual causado pela pandemia da Covid19 e seus impactos na educação, escolas e profissionais da educação, principalmente da zona rural, tiveram que enfrentar consideráveis dificuldades e precisaram reinventar seu trabalho de modo a manter o ensino de qualidade, dentro das possibilidades do momento atual. É o caso da Escola Municipal Maria do Socorro Sousa Lima, localizada na zona rural do munício de Coelho Neto, no Estado do Maranhão, que enfrentou dificuldades desde a matrícula dos alunos até a manutenção do envolvimento constante de seus discentes com as atividades remotas.

Escola Municipal Maria do Socorro Sousa Lima – Coelho Neto (MA)

Além dos efeitos trágicos na saúde da população brasileira, a pandemia da Covid-19 trouxe estragos à educação do país. Com as limitações impostas como medidas de segurança e prevenção contra a doença, milhares de escolas do Brasil, especialmente da rede pública de ensino, não realizaram mais aulas presenciais, desde o início da pandemia. Na capital maranhense, somente na segunda semana de julho de 2021 a vacinação começou a ser realizada nos adolescentes, mas no município de Coelho Neto e zona rural, ainda não há vacinas para crianças e adolescentes em idade escolar.

Nesse cenário caótico, a medida a ser tomada foi a adoção do ensino remoto, que, apesar de consistir numa saída para que as aulas sejam realizadas e mantidas, trouxe, pelo menos a princípio, dois grandes problemas para a Escola Municipal Maria do Socorro Sousa Lima: a falta de acesso aos recursos tecnológicos para o acompanhamento das aulas e o aumento da evasão escolar.

De acordo com o coordenador da unidade escolar do interior do Maranhão, Natanael Ramos Araújo, houve resistência por parte até mesmo de pais de alunos, no período de matrícula, e atualmente, durante o período letivo, nota-se uma resistência dos alunos quanto ao cumprimento das atividades do ensino remoto.

Natanael Ramos Araújo – Coordenador da Escola Municipal Maria do Socorro Sousa Lima

Segundo ele, dentre as dificuldades enfrentadas no processo da educação na zona rural, durante a pandemia, duas podem ser destacadas: falta de acesso à internet e a ausência da interação entre aluno/aluno e aluno/professor. Essa última, é ainda mais acentuada no caso da escola em que atua, uma vez que “as aulas não estão acontecendo, nem regular nem parcialmente. Apenas são enviadas matérias com roteiros a serem seguidos pelos alunos, seguindo o modelo de Ensino Remoto’, afirma o coordenador.

“Envolvimento dos pais é fundamental nesse contexto”

Natanael ainda aponta outro fator que tem contribuído com a ineficácia do ensino remoto para uma aprendizagem qualificada dos alunos, no contexto específico em que atua. “Na zona rural, o empenho dos pais não tem correspondido às expectativas da escola, embora uma pequena parte tenha se esforçado. Talvez a questão esteja ligada à falta de alfabetização dos pais. Isso é um ponto que não pode ser desconsiderado pelas escolas e profissionais da educação”, explana.

Diante desse cenário, o professor e coordenador conta quais medidas foram pensadas e colocadas em prática para que os pais não deixassem de matricular seus filhos, bem como para que os alunos tivessem acesso à educação pelo ensino remoto.

“Durante o processo de matrículas, foi necessária uma ação proativa da escola para que fosse alcançado um número de alunos suficientes para que as turmas fossem preenchidas, visto que houve um desinteresse colossal por parte dos pais de matricularem e ré-matricularem seus filhos”, comenta.

Natanael Ramos Araújo

A professora Maria das Dores Cruz de Sá, também da Escola Municipal Maria do Socorro Sousa Lima, relata como tem sido o ensino remoto, a partir de sua análise como profissional e mãe de dois alunos da escola onde trabalha. “Como professora, minha maior dificuldade para com os meus alunos da zona rural, é não estar presente na sala de aula com eles, por causa da pandemia. Mas os observo quando vou até suas casas entregar as atividades”, explica Maria das Dores.

A professora ainda comenta sobre o processo de aprendizagem dos seus filhos com o ensino remoto. Segundo ela, o desempenho das crianças tem sido bom, apesar das dificuldades: “Tenho dois filhos que estudam na escola onde eu dou aula. Graças a Deus, o processo de ensino dos meus filhos está sendo bom. As tarefas estão vindo para nossa casa e a gente os ajuda a responder. Não está sendo muito difícil”, relata a professora.

Professora Maria das Dores Cruz de Sá

Infelizmente, de acordo com o coordenador da unidade escolar, o caso dos filhos da professora Maria das Dores é uma exceção. Infelizmente, segundo ele, “a maioria dos alunos não tem aprendido de forma satisfatória. As crianças formam o grupo que mais tem sofrido grandes prejuízos no processo de aprendizagem durante o ensino remoto. Isso ocorre porque elas necessitam de um acompanhamento profissional eficiente e mais direto, o qual não tem sido realizado pela família de modo satisfatório”.

Ensino remoto é mais caro que o presencial

Ademais, o processo de ensino na modalidade remota encarece a educação, nas palavras do coordenador Natanael Ramos. “O ensino remoto acaba sendo mais caro devido aos gastos de material serem maiores. Alguns exemplos são: o deslocamento dos funcionários da escola para realizar a entrega de provas e atividades nas comunidades próximas e longínquas, o gasto com os materiais e impressões de cada disciplina, por semana, entre outros”, pontua o professor.

Nesse contexto, a expectativa dos profissionais é que as aulas presenciais possam retornar o quanto antes. A vacinação dos profissionais da saúde, no Maranhão, tem avançado significativamente, contudo, ainda resta uma minoria de professores para ser vacinada. Até o início de junho de 2021, 117.254 trabalhadores da educação já haviam recebido a vacina.

Além disso, grande parte da população estudantil ainda aguarda a vacina, principalmente crianças e adolescentes, para que se torne viável a retomada das aulas na modalidade presencial, de forma segura.

*A imagem principal é de Foto: Eder Chiodetto/Ateliê Foto. As demais são de arquivo pessoal

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