Sequelas da Covid-19 ‘assombram’ pacientes curados

`Por Francine Dutra e Rebeca Louise

O coronavírus chegou causando muitas perdas desde o início dos primeiros infectados e, até hoje, a Covid-19 continua sendo uma doença misteriosa até para os especialistas. Casos graves da doença, que exigiram internação e UTI, tendem a abalar mais o organismo a longo prazo. Mas a verdade é que os episódios leves também podem deixar marcas prolongadas. Foi o que aconteceu com a diretora financeira Elayne Amorim, que mesmo quase não tendo sintomas, após um ano sofre com as sequelas.

“Peguei covid em maio de 2020, o único sintoma que eu tive foi a perda de olfato e paladar, e às vezes um pouco de dor de cabeça de forma bem leve. A perda de olfato e paladar de forma crônica durou uns dois meses. Após esse período esses sentidos começaram a voltar de forma confusa, que é o que ainda hoje eu tenho, o gosto é confuso e o cheiro também. Eu não sinto o cheiro normal das coisas, não sinto fragrância de perfumes, não identifico se é doce, amadeirado, se é detergente de limpar casa. Não sei se o cheiro é de flor, ou de talco. Não consigo mais fazer essa diferenciação”.

Elayne Amorim


Mãe de primeira viagem, Elayne também destacou a maior frustração de todo o período: não conseguir sentir o cheiro filha pequena. “O que mais me frustrou foi não sentir o cheiro da minha filha como eu sentia antes. Ela era bebezinha e eu sentia muito o cheirinho dela, e aquele cheirinho de bebê eu não sentia mais”, lamenta.

Um outro prazer da vida para a diretora era comer, ato que também perdeu significado por conta da covid. “Sempre gostei de todo tipo de comida. Carnes, pratos exóticos, panelada, sarapatel, e eu não consigo mais comer, não sinto mais o prazer de comer. Antes eu tomava café, hoje eu não consigo nem sentir o cheiro e não gosto de nenhuma forma, nem com leite. Refrigerante eu deixei de tomar completamente pelo fato do gosto ser muito ruim, insuportável, parece gosto de querosene, plástico queimado, tem o gosto muito estranho, Coca-Cola é o pior. É bem frustrante principalmente porque em Teresina o único turismo que a gente tem é o gastronômico, a gente só sai para comer e nem isso eu não saio mais”, completa.

“Otorrinos ainda não têm tratamento específico para perda de olfato pós-covid”

Mal-estar e queixas como dores de cabeça e perda de olfato tendem a se resolver sozinhos. Agora, se o incômodo é intenso, o ideal é procurar atendimento médico, foi o que Elayne fez, mas não conseguiu solução.

“Fui em um otorrino e a explicação que deram é que é uma doença relativamente nova que não se tem ainda um tratamento que vá trazer de volta o cheiro e o gosto como antes, eles não sabem ainda se tem como recuperar 100%, mas passaram complemento vitamínico, medicamentos e a terapia olfativa, de alternar cheiros, que é você tentar sentir o cheiro de um alecrim, depois café, cravinho, fazer essas alternâncias para tentar estimular seu sentido olfativo. Eu fiz, mas não vi resultado algum.”

Por mais inusitado que possa parecer, essas sequelas de Elayne deixadas pelo vírus são mais comuns do que aparentam. De acordo com uma pesquisa independente, aproximadamente 30% das pessoas que testaram positivo para o vírus tiveram uma espécie de reação adversa ao covid, gerando essas sequelas.

Além disso, 41,8% dos entrevistados que testaram positivo não tiveram o estado grave da doença. Dentre as sequelas comentadas pelos entrevistados, as queixas quanto à perda definitiva ou parcial de paladar e olfato estão entre as mais comuns, além de queda da capacidade respiratória, mas também há relatos de casos mais inusitados.

“Ainda fico com falta de ar e cansada muito fácil. Comecei a ter menos resistência ao frio; quando a temperatura começa a cair, surge uma tosse seca horrível, que dói o peito. Passo muito, muito mal no frio, de não conseguir respirar direito”.

Comprometimento pulmonar, ansiedade, insônia, depressão são sequelas comuns

Enquanto médico plantonista da UTI Covid do Hospital Regional Tibério Nunes em Floriano – PI, o médico João Pedro Torres comenta sobre suas experiências com pacientes com sequelas da Covid-19 que, de acordo com ele, infelizmente são muito frequentes.

“Algo que é bastante comum nesses pacientes com sequela pós-covid é a questão do comprometimento pulmonar, e claro, muitos deles posteriormente precisam da reabilitação pulmonar, e aí entra um papel importantíssimo da fisioterapia, tanto durante a doença quanto com o paciente já em casa para essa reabilitação”, comenta o médico.

Além disso, João Pedro revela ainda que muitos pacientes também são afetados neurologicamente, sendo o novo Coronavírus a causa de inúmeros pacientes desenvolverem ansiedade, insônia, depressão e até problemas de concentração. Outra espécie de sequela que o médico plantonista observou ser bastante comum é a cardíaca. “Já tive pacientes que estiveram na UTI Covid, foram acompanhados por nós lá e graças a Deus receberam alta. Posteriormente, desenvolveram algumas arritmias que precisaram ser acompanhadas pelo cardiologista”, completa.
ele.

médico João Pedro Torres (reprodução)

De acordo com o médico João Pedro Torres, as sequelas causadas pelo novo Coronavírus tanto podem ser
definitivas quanto temporárias, e o tratamento vai depender do sistema acometido e do grau de comprometimento sofrido pelo paciente.

O plantonista então exemplifica: “pacientes que sofrem de enxaqueca, que durante a fase aguda apresentam uma piora significativa dessas dores e após a melhora do paciente elas persistem, se faz
então necessário o acompanhamento do neurologista também. Essas sequelas tem o alvo terapêutico pré-definido e acompanhado com especialista”.

“Após 3 meses, consegui me recuperar de vez!”

Sarah D’arc foi uma das pacientes que viu as consequências do vírus diminuírem até elas desaparecerem de vez. A estudante de jornalismo da Universidade Federal do Piauí testou positivo para a doença no final de fevereiro desse ano e, junto com ela, uma sequela respiratória.

“Tive dificuldade na respiração nos primeiros meses após contrair o vírus, algumas posições me deixavam com falta de ar, como por exemplo dormir de bruços. Eu tinha muita dor de cabeça também, mas principalmente na hora de dormir, quando deitava a cabeça no travesseiro. Era insuportável”.

Estudante Sarah D’arc (arquivo pessoal)

A estudante revelou que só após 3 meses desde que se recuperou da Covid-19 que essa dificuldade para respirar cessou até desaparecer totalmente. “Acredito eu que também por causa da covid eu tive muita dor nas costas, então eu tive que me forçar a dormir de bruços, mesmo não respirando direito. Fiz acompanhamento médico e com o passar dos meses fui percebendo que eu já não sentia tanta falta de ar

Em Teresina, o Centro Integrado de Saúde Lineu Araújo (Cisla) oferece acompanhamento médico para pacientes com sequelas da Covid-19. As especialidades ofertadas pelo Centro de Saúde são, por exemplo, fisioterapia, pneumologia e cardiologia.

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