Novo perfil: pacientes intubados que morrem agora têm entre 20 e 49 anos

Por Ellen Geovanna e Lucas de Moraes

De acordo com o Centro de Operações Emergenciais (COE), a taxa de mortalidade de pacientes que precisam de ventilação mecânica nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI) no estado do Piauí é de 80%. O perfil que anteriormente era de pessoas acima de 70 anos, vem mudando e hoje grande parte dos pacientes têm entre 20 e 49 anos. 

Os dados no âmbito nacional se assemelham, no Brasil, cerca de 80% dos intubados por complicações de covid-19 morreram em 2020 de acordo com uma pesquisa disponibilizada a BBC News. Foi apurado que grande parte das mortes de pacientes intubados ocorrem no Norte (86,7%), Nordeste (83,7%) e no Centro-Oeste (83,6%), já no Sul e Sudeste a taxa foi de 76%.

A intubação é realizada pelo médico e acontece quando todas as formas de manter o paciente respirando normalmente falham. O médico urgentista do Hospital do Monte Castelo em Teresina, Fábio Benigno, fala sobre os casos de intubação.

“Chega um momento em que a gente percebe que, se não intervirmos, o paciente vai entrar em alguma parada cardiorrespiratória por hipóxia, que é pela falta de oxigênio, nesse momento se trata uma emergência médica e nós temos que proceder com a intubação. Então, ela não é uma sentença, ela é um evento crítico, porque é um recurso final para evitar que o paciente morra”.

Em março de 2021, Teresina chegou a ter 98% dos leitos de UTI ocupados e isso pode contribuir também para a alta da mortalidade desses pacientes. Quando necessitam da ventilação mecânica acabam encontrando leitos para realizar o procedimento em um momento que o estágio da doença está muito mais avançado e a intubação, nessa fase, não é eficaz o suficiente.

Equipamentos de UTI – Foto: Divulgação/SES

Em vez de kit intubação, hidroxicloroquina e ivermectina

Ao longo da pandemia foi se criando uma “familiarização” com os casos e com técnicas de intubação, mas os profissionais também enfrentaram problemas com recursos financeiros para equipamentos. O Ministério da Saúde direcionou grande parte de verbas para a compra de medicamentos sem comprovação de eficácia, como a hidroxicloroquina e ivermectina, para o tratamento de pacientes em caso grave.

O principal problema enfrentado pelos médicos e enfermeiros foi a falta do chamado “kit intubação”.  Esse kit contém os medicamentos que auxiliavam na hora de intubar os pacientes, pois este é um processo bastante invasivo e em vários hospitais do Brasil os profissionais não tinham acesso, complicando todo o procedimento necessário para salvar vidas. 

Essa realidade não chegou a atingir a capital piauiense e em abril a Fundação Municipal da Saúde (FMS) recebeu mais de 16 mil ampolas e 13 fármacos que são utilizados na assistência a pacientes com Covid-19 que precisam de ventilação mecânica. As UTIS do estado já chegaram a funcionar com apenas 15 dias de
estoques do kit intubação, mas segundo o secretário de Estado da Saúde, Florentino Neto, essa quantidade é normal e suficiente.

Fake news x ciência

Durante a crise do coronavírus é muito comum ver fake news sobre tratamentos e técnicas contra o covid e isso complica o trabalho dos profissionais na linha de frente. Uma das mais famosas era que médicos recebiam cerca de R$ 18 mil por cada morte com suspeita de covid e que a intubação era uma forma de que os pacientes chegassem ao óbito mais facilmente. No entanto, a Agência Lupa, da revista Piauí,
checou essa informação e constatou que era falsa.

“Isso faz com que o paciente ache que quando for intubado ele vai acabar morrendo, mas na verdade se ele não for intubado é que ele vai morrer. Então a intubação é uma tentativa de evitar essa certeza.”

Fábio Benigno
Foto: REUTERS/AMANDA PEROBELLI

A autônoma, Fiama Barroso, se viu em uma situação complicada após contrair a doença. Ela ficou com sintomas leves, mas sua filha de apenas 1 ano precisou ser intubada por insuficiência respiratória. “Com três dias que eu estava com sintomas da covid, ela apresentou febre e congestionando o nariz. O teste dela deu positivo e após uma tomografia viram que ela estava com 25% do pulmão comprometido”, relata Fiama

Existem perigos tanto durante  a intubação quanto depois. É um procedimento muito invasivo e que em alguns casos geram infecções na via aérea por outras bactérias já presentes em nosso corpo. Já a desintubação é um procedimento minucioso e uma retirada precipitada pode determinar a vida ou a morte do paciente, por outro lado, quanto mais tempo durar  a intubação maiores são os riscos.

“A gente sabe que infelizmente ainda existem altas taxas de mortalidade nas pessoas que vão para UTI e
que vão pro tubo, mas intubação é um ato médico que tenta evitar o pior” disse Benigno. 
Em uma entrevista concedida à BBC, o médico intensivista Ederlon Rezende, que coordena a UTI do Hospital do Servidor Público do Estado de São Paulo fala sobre alguns riscos ocorridos “Estudos mostram que a chance de um paciente com covid desenvolver pneumonia associada à ventilação mecânica é duas vezes maior que em pacientes sem covid.

E, quando os pacientes que têm covid desenvolvem esse quadro, o risco de evolução desfavorável é bem maior. “Com dois dias tentaram desintubar, mas não foi com sucesso, tiveram que intubar de novo, porque deu uma bactéria na garganta” complementa Fiama sobre o drama vivido com sua filha. Ao todo foram 15 dias de sufoco com sua bebê recém nascida na UTI, mas felizmente a criança sobreviveu sem sequelas maiores e ambas podem viver
tranquilas após o susto.

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