O dia em que o transporte público parou

Como a crise do transporte público de Teresina afeta a população que depende dele para se locomover

Por Aline Alves

Acordar antes que o sol possa dar os primeiros sinais de que está radiando em uma das capitais mais quentes do Brasil, passar um café preto, comer o mais rápido que pode e torcer para que a condução de hoje possa passar no horário, virou rotina na vida de Adriana Gonçalves.

“Antes era difícil porque eu moro muito distante e sempre foi ruim para pegar ônibus, hoje se tornou uma missão quase impossível sair de casa dependendo do transporte público aqui em Teresina. Além do medo de pegar essa doença, tem o medo de a gente chegar mais um dia atrasada, por causa de ônibus e não ter mais emprego esperando pela gente.”

A diarista que mora na zona Sul da cidade e não possui transporte próprio, teve que enfrentar duas batalhas em meio a pandemia da Covid-19, a de sobreviver à doença e ao desgaste de diariamente não saber que horas volta para casa.

A luta diária de Janaina se assemelha a de muitos teresinenses que em meio à crise sanitária precisaram continuar abrindo mão da segurança de suas casas e enfrentaram o medo de serem contaminados pela doença. Desde o início da pandemia, o setor de transporte público em Teresina sofreu diversas panes que ocasionaram apagões ininterruptos fazendo com que a população ficasse às escuras como de costume, sem saber para onde ir, como ir, e se vai dar tempo de chegar até lá.

As paralisações viraram rotina na vida de quem depende de condução, no calor do momento se culpa o motorista, o cobrador, o sindicato que motivou a pausa nos serviços, se culpa o trabalhador, mas não se culpa quem está no topo e insiste em não descer para enxergar o sofrimento cotidiano de quem necessita do funcionamento do transporte.

Trabalhadores protestam na frente da Prefeitura de Teresina. (Foto: Roberta Aline)

Motoristas e cobradores sobrevivem desde o início da pandemia, alguns já nem estão mais aqui para contar a epopeia que foi viver do transporte público em Teresina, uns desistiram do emprego, outros levados pela pandemia. Esgotados, cansados, desprotegidos e pouco respeitados por quem possui o poder na ponta da caneta. A missão de levar nossos conterrâneos de volta aos seus lares em segurança deixou de ser importante e passou a ser segundo, terceiro, quarto ou o quinto plano de quem está lá em cima.

Missão de Francisco Sousa que há anos trabalha na categoria e ocupa o cargo de secretário da previdência no Sindicato de Trabalhadores em Empresas de Transporte Rodoviário do Estado do Piauí.

“Infelizmente o transporte continua na mesma decadência!! As coisas estão se agravando para a nossa categoria, o trabalhador está sem perspectiva. A cada dia que passa, a situação piora. Não tem nenhuma solução para resolver o problema dos trabalhadores, as empresas não pagam o salário dos trabalhadores, a justiça não obriga as empresas, enquanto isso quem está morrendo à mingua é o trabalhador.”

Trabalhadores em mais um dia de paralisação. (Foto: Sintetro)

Lutar para trabalhar e manter o mínimo no prato é a batalha diária de Francisco e de outros tantos outros trabalhadores. No auge da pandemia, da crise econômica, do desrespeito, da ausência dos direitos trabalhistas, a fome também se fez presente na vida de profissionais do transporte público, o recebimento de doações de alimentos foi um alento e uma luz de solidariedade que se acendeu em meio a momentos que população e trabalhadores gostariam de esquecer. Quem tinha pouco abriu mão para que quem não tinha nada pudesse ter um pouco.

Mais de um ano depois, da pandemia, pós acordos descumpridos, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) foi instaurada para tentar explicar, ou pra tentar entender, ou pra tentar solucionar um problema que ainda parece sem solução, um espaço que deu liberdade pra que o procurador geral do município que a prefeitura não honrou com um acordo, porque não acreditava na resolução do problema, deixando centenas de trabalhadores ansiando pelo mínimo, valores que seis meses depois ainda não chegaram no bolso de uma centena de trabalhadores.

Uma guerra travada entre órgãos públicos, empresas privadas e que deixam a população e o trabalhador na linha de frente, sem proteção. Ainda é difícil enxergar uma solução, a neblina da estatização, da falta de planejamento, do desrespeito ainda paira sobre Teresina, e estacionou o transporte público em um local de difícil acesso. Apesar disso, a população segue acordando todos os dias, acordando mais cedo que o comum, correndo para a parada de ônibus, com a insegurança no peito, porque precisa trabalhar. Apesar disso, o trabalhador continua trabalhando para conseguir uma diária que deve alimentar o filho, a mãe, a esposa, o sobrinho, apesar de o transporte estar aos poucos parando de existir na capital a população e os trabalhadores seguem com a fé, típica de quem derrota um leão por dia, e de que acredita na ínfima possibilidade de que dias melhores poderão finalmente chegar para quem precisa.


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