A ascensão do veganismo

Entenda a “revolução alimentar silenciosa” pela qual o mundo vem passando.

Por Pedro Furtado

O termo vegano foi criado em 1944 pela The vegan society . De lá para cá, muita coisa mudou, e a cada ano o movimento vem ganhando novos adeptos. Uma pesquisa do IBOPE revela que, em 2018, 14% da população brasileira se considerava vegetariana, oque representa quase 30 milhões de brasileiros. Esse índice aponta um aumento de 75% em relação ao ano de 2012.

Esse percentual pode ser ainda maior nas capitais e grandes centros urbanos. Teresina não fica atrás, pois com o público vegano e vegetariano em ascensão, cada vez mais estabelecimentos especializados surgem, como confirma Edilberto Mendes, estudante de comunicação e vegano há mais de 2 anos: “em Teresina está crescendo cada vez mais o número de pessoas [veganas], tanto é que esses estabelecimentos estão aumentando cada vez mais. Toda hora está aparecendo um estabelecimento vegano em Teresina, e isso certamente é porque tem um público para eles atenderem. Não são restaurantes fechando, muito pelo contrário. São empresas que estão se preocupando com esse público.”

Várias empresas no mundo já notaram a este novo público que só cresce. Por exemplo, a gigante multinacional Nestlé, neste ano de 2021 anunciou uma versão vegana do seu famoso chocolate KitKat. O anúncio acompanhou uma declaração do chefe de confeitaria da empresa, Alexander von Maillot, afirmando que: “Há uma revolução alimentar silenciosa em andamento que está mudando a forma como as pessoas comem”.

Em um matéria também deste ano, o jornal G1 divulgou que um terço das vendas de hambúrgueres congelados de 2020 foram de hambúrgueres vegetais. Segundo a AgroMais, a demanda por carnes vegetais teve um aumento de 295% apenas no primeiro trimestre deste ano. Diversas empresas, das grandes e tradicionais da carne, a pequenas startups em crescimento, estão sabendo aproveitar essa situação e desenvolvendo suas próprias “carnes” plant based (100% vegetais).

Os motivos para mais pessoas adentrarem a dieta e ao estilo de vida são os mais variados, como explica a Nutricionista Ruty Rocha: “Alguns [aderem ao vegetarianismo] para proteger o meio ambiente e proteger o animal, e o outro grupo é o que percebeu que a alimentação vegetariana é uma alimentação que proporciona mais saúde, mais energia, mais vigor, um bem estar melhor… Então, esses são por conta da saúde. Alguns ainda, por conta de patologias associadas ou por não se darem bem com o consumo de alimentos de origem animal.”

Edilberto complementa a fala da nutricionista: “Eu acredito que talvez seja mais acesso a conhecimento.[…] as pessoas estão percebendo que é insustentável a forma de produção com que a gente se alimenta hoje em dia. Vai chegar um ponto que não vai ter mais como a gente consumir. O próprio planeta não vai disponibilizar os recursos para que a gente consiga manter esse estilo de vida.”

A afirmação de Edilberto deve-se ao fato de que a agropecuária é a maior causadora de desmatamento no Brasil, direta e indiretamente. Como aponta a WWF Brasil , a área cultivada de soja na América do Sul duplicou nos últimos 10 anos, e 79% desta produção é inteiramente destinada à produção de ração para alimentar gado. Na verdade 80% do desmatamento da área Brasileira da Floresta Amazônica deve-se à prática da pecuária, como aponta a ONG Mercy For Animals.

A fim de reduzir os impactos da produção de carne e da exploração animal muitas empresas já investem, além de carnes vegetais, em carnes artificiais cultivadas em laboratório. A startup israelense Future Meat ou seja, carne do futuro, anunciou em Junho deste ano (2021) a inauguração da primeira fábrica de carne cultivada do mundo. A empresa utiliza células retiradas uma única vez de animais, que podem ser replicadas infinitamente em biorreatores. Segundo a empresa, que atualmente já produz semanalmente meia tonelada de carne em laboratório, o cultivo de carne artificial deve reduzir em 80% a emissão de gases do efeito estufa quando comparada a pecuária (atualmente, segundo a revista Super Interessante, entre 20% e 25% do gás metano presenta na atmosfera vem da agropecuária); 99% menos uso de terra e 96% menos uso de água ( 70% da água potável consumida é destinada a agropecuária).

Biorreatores da Future Meat

Neste mesmo ano, no dia quatro de março, a  empresa BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão anunciou uma parceria com a Startup israelense Aleph Farms para produzir e vender produtos no Brasil com carne cultivada já no ano de 2024. Em seu release para imprensa, o presidente da BRF, Lourival Luz, declarou: “A BRF terá um papel de destaque nessa revolução alimentar, a maior transformação da indústria alimentícia dessa geração. Desde 2014, temos testemunhado uma crescente demanda global por novas fontes de proteína impulsionadas por diversos fatores, como preocupações ambientais, novas dietas e estilos de vida, que impulsionam o crescimento dos estilos alimentares, incluindo as dietas flexitariana vegetarianas em todo o mundo”. Ressaltando o papel do o aumento deste público, que busca diminuir o sofrimento animal e a degradação ambiental, de sua alimentação nessa “revolução alimentar”.

No portal Ig economia, Lourival Luz destacou ainda que: “Na pecuária tradicional, o abate leva de três a quatro anos para ocorrer. A carne cultivada tem ciclo de quatro semanas. A BioFarm terá capacidade produtiva equivalente a 40 mil cabeças de gado por ano, a partir de 2024, mas consumindo apenas 2% da área e 5% da água usados na criação de gado tradicional”

A tendência é que o preço da carne de laboratório, se equipare ao preço da carne animal tradicional, podendo eventualmente se tornar mais barato como afirma Sérgio Pinto, diretor de inovação da BRF, também no portal Ig economia: “Em três ou quatro anos, esperamos ter a carne cultivada custando US$ 5/kg (perto de R$ 29/kg ), o que mesmo em comparação ao preço atual é muito competitivo”

Além das vantagens ao meio ambiente e aos animais, a carne de laboratório também promete ser mais saudável, como revela Lourival Luz: “A carne cultivada é livre de quaisquer antibióticos, o que garante maior saudabilidade à proteína e menos riscos à saúde do consumidor”.

O consumo de carne já é hoje associado a vários problemas de saúde, incluindo Câncer, como aponta o Instituto Nacional de Câncer (INCA). principalmente carnes processadas e embutidos, como salsicha, linguiça, bacon e presunto. Estas estão classificadas no grupo 1 de carcinogênico, o mesmo patamar do uso de cigarros.

Apesar desses avanços tecnológicos serem de grande importância para a questão ambiental e da exploração animal, vale lembrar que ele não é o único caminho. Ninguém precisa depender de alimentos industrializados caros para diminuir a crueldade e a os impactos de sua alimentação. Como aponta o aluno de comunicação Luze Silva: “A gente tem ido na contramão de um veganismo elitista, a gente já tem tido diversos movimentos veganos que mostram que ser vegano não é caro, que ser vegano é inclusivo… A gente tem por exemplo o instagram “veganismo periférico“, que é de São Paulo por exemplo, e eles mostram isso no dia-a dia sabe. E acaba que a gente tem um grande problema do capitalismo, nesse sentido de se apropriar de diversos movimentos e acabar industrializando ele, então a gente tem, muito pautado na mídia, um veganismo mais caro, aquele com produtos industrializados, que nós da classe média ou classe baixa acabam vendo como inacessível. Sendo que não, o veganismo está dentro do dia-a-dia, daquilo que a gente já tem em casa e só precisa adaptar”.

Vegano periférico é também um documentário disponível no youtube

A questão do preço parece ser um fator decisivo para afastar muitos do veganismo, como mostra a fala de Ricardo André, estudante de direito; “Tenho  uma admiração pela causa, me sinto bem convidado a adentrá-la. Porém eu não chego a cogitar me tornar vegano ou vegetariano em um futuro próximo.[…] Não quero levar a minha alimentação como mais um encargo no meu dia a dia. Me afasta muito ter que pensar em onde me alimentaria e em que preço teria que desembolsar para manter uma alimentação vegetariana. Não quero ter que pensar no que comer e se é suficiente para o meu metabolismo acelerado e meu cotidiano corrido. Simplesmente só quero levar uma vida com alimentação sem encargos ou que me dê muito trabalho ou gastos além do habitual.”

A fala de Ricardo revela outro fator que afasta as pessoas do vegetarianismo e do veganismo: seu próprio conforto e praticidade, e Edilberto corrobora com essa visão em sua fala: “As pessoas ainda têm aquele costume de ter uma vida mais confortável. Porque às vezes a questão nem é a vontade, é o conforto. Às vezes as pessoas não querem abrir mão de algo pensando em outra coisa maior, na sua própria saúde ou no próprio sofrimento dos animais. As pessoas ficam tristes, muitas pessoas não gostariam que os animais sofressem ou gostariam de estar comendo animais, mas elas também não têm aquela força ou aquela iniciativa.”

Talvez, a existência desse público que busca pelo conforto revele a necessidade de mais produtos veganos acessíveis e populares no mercado. Apesar de que muitos substitutos para alimentos de origem animal, hoje já tem um preço bem competitivo, principalmente carnes e proteínas vegetais, ainda que estas não sejam encontradas em todos os mercados ou locais.

Entretanto a Ruty ressalta que para manter a saúde, alimentos industrializados não bastam, a nutricionista dá uma dica para aqueles que desejam iniciar nesse estilo de vida: “Tem que consumir um aporte maior de verduras e legumes, e não pode se confiar somente num  queijinho vegano industrializado, numa carne vegetal industrializada… Embora isso possa fazer parte da sua alimentação esporadicamente. O segredo para se alimentar bem é ter esse consumo alimentado de frutas, legumes, verduras, e sempre misturar uma leguminosa com um carboidrato, de preferência um carboidrato integral ou completo. Ficar atento as folhas verde escuro por conta do ferro, ingerir sementes, como a semente de abóbora e girassol ricas em zinco, gergelim, além de chia, linhaça… uma vez que eu decido ser vegetariano e decido tirar alimentos de origem animal eu preciso incluir esses outros alimentos vegetais que vão fornecer esse aporte de nutrientes.”

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