Afro Empreendedorismo: Casa Fios e a valorização da cultura negra em Teresina

Mais do que tranças e cortes de cabelo, a Casa é um espaço de acolhimento e manutenção da autoestima preta

Por: Luze Silva

Atualmente, 56% da população brasileira é considerada preta ou parda. Segundo levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), mais de 12,8 milhões de donos de negócios em território nacional são negros. Para além disso, os dados também apontam que a cada 100 adultos negros no Brasil 40 são empreendedores.

No Piauí, o ano de 2021 começou com saldo positivo na geração de empregos formais. Segundo dados do Cadastro Nacional de Empregados e Desempregados (Caged), o PI ficou entre os 10 estados brasileiros que mais geraram novas vagas no mercado formal, registrando a abertura de mais de 2 mil postos de trabalho e a demissão de pouco mais de 400 pessoas no primeiro mês do ano. Ainda de acordo com a pesquisa, o setor econômico tem reagido e buscado novos atores para garantir o crescimento e geração de renda mesmo na pandemia.

Contudo, importante destacar que quanto ao empreendedorismo ainda há dificuldades. Quando se visualiza o afro empreendedorismo, as barreiras a serem ultrapassadas são ainda maiores. Isso se materializa porque para empreender, não basta apenas vontade e boas ideias; é imprescindível apoio e incentivo para aumentar as oportunidades. Embora com os entraves, o setor tem crescido e organizações criadas e gerenciadas por pessoas negras se mostram otimistas quanto às transformações sociais, especialmente no que diz respeito ao acolhimento e valorização da cultura negra. Esse é o exemplo da Casa Fios (a Fios Afro), que nasceu do desejo de autonomia financeira, mas que internalizou a proposta de empoderamento estético e se tornar um espaço dedicado para construção de memória.

Hoje, a Casa é gerenciada pela Mylenna Crateus, o Kelson Fontinele, a Sayane Cardoso e a Kathlen Karine. No início — em agosto de 2019 — a iniciativa surgiu do objetivo de ascensão e independência financeira dos integrantes, fomentando as oportunidades para os negros, já que são oferecidos serviços relacionados a cortes de cabelo, colocação de tranças e vendas de produtos de beleza. Mas não se restringe a isso, pois vai além. Para os fundadores, o desejo de construir algo com o formato de valorização do negro era uma constante, uma vez que estavam inteirados das questões raciais em Teresina. Enquanto Afro Empreendedores, veem a importância de continuar existindo com essa proposta de valorização da autoestima negra muito mais do que empoderamento estético.

Mylenna conduz uma fundamental reflexão ressaltando que a partir do entendimento da resistência como corpo preto político, se viu a possibilidade de valorização pautada no fortalecimento de narrativas negras que já existem na cidade desde sempre. Assim, a Casa se propõe em “oferecer esse espaço de acolhimento muito mais do que esse lugar de dor. É importante interagir com as outras pessoas porque, às vezes, a gente tá só nesse lugar de dor”, frisa.

A busca por visibilidade e o contorno das barreiras por meio da renovação de saberes

Dialogar com outras instituições, participar de mentorias e a busca constante por conhecimentos é parte basilar da Casa Fios. A renovação constante de saberes contribui significativamente para caminhar rumo ao processo irrefreável de inovação e amplas possibilidades para atuar sempre direcionados nos princípios de acolhimento, abrangência e troca de afetos. Mais do que lugar para realização de tranças e cortes de cabelo, a Casa se constrói com o propósito de fomentar sua rede de colaboradores, espelhando-se em ideias de fora que dão certo e, assim, trazendo-as para a realidade teresinense.

Myllena explica que beber dessas referências externas é fundamental para tornar o espaço também voltado para o cuidado às memórias, comportamentos e acolhimento das pessoas pretas. “Não temos muita referência de casa cultural, de um ambiente para acolhimento preto. Estudamos mentorias, nos fundamentamos em propostas e projetos que dão certo no Brasil. Procuramos estudar cada um em suas especificidades. É atualização atrás de atualização. Esse olhar mais diferenciado é o que gente não quer perder nunca”, compartilha a empreendedora.

Para eles, as principais dificuldades encontradas são à questão financeira — pois estão se reestruturando — e a pouca visibilidade por parte da comunidade. Myllena destaca que tiveram a oportunidade de serem contemplados com alguns editais de apoio financeiro. Na sua observação, pontua que a visibilidade da sociedade é um dos temas que merece mais atenção, já que precisa ser impulsionado e discutido.  “Às vezes a comunidade não consegue ver (nossa) proposta. Não sei se pelo alcance ou pelo racismo estrutural, de ver um projeto e questionar se é viável, se tá com a estrutura ideal, por quererem nos posicionar em caixinhas”, questiona. Mesmo com essa realidade, ela coloca que têm certa visibilidade, mas nem sempre o apoio prático das pessoas conhecerem, visitarem e indicarem o projeto.

Kathlen Karine e Sayane Cardoso, integrantes da Casa Fios
Fotos: @cidadeobservada

Do convite inesperado à profissionalização: um caminho para a autoestima

Kathlen Karine começou a trabalhar profissionalmente como trancista em maio de 2019. O que a inspirou a trançar cabelos foi ter passado pela transição capilar. Para lidar com as texturas do próprio cabelo, sua mãe fazia tranças nela. Devido a esse contato, o exato momento em que percebeu ser possível ter uma renda trabalhando como trancista foi quando atendeu sua primeira cliente. Na primeira vez não cobrou, pois estava com receio de não entregar o trabalho que ela queria, mas comenta que o resultado foi excelente. “Ali eu tive a noção de que eu conseguiria fazer não só o cabelo dela, mas de outras pessoas.  Que eu poderia estar alcançando meus objetivos, melhorando minha técnica e, assim, estar atendendo outras pessoas para estar dando uma precificação melhor para os meus serviços”, ressalta.

Sua entrada na Casa Fios foi inesperada, especialmente pelo contexto atípico. Compartilha que sempre divulgou seu trabalho pelo instagram e, certo dia, recebeu uma mensagem da Fios Afro explicando como tudo funcionava e convidando-a para fazer parte da iniciativa. De imediato, pensou ser uma brincadeira. “Logo eu, que estou bem no início da carreira? Mas mesmo assim aceitei o convite. A princípio fiquei muito preocupada. Estava no início da pandemia”, observa. Por causa disso, tiveram certa dificuldade para encontrar uma casa para alugar em meio a esse cenário.

À época, a única técnica que sabia utilizar para trançar era a que sua minha mãe e tia tinham desenvolvido. Porém, com o passar do tempo foi se especializando e aprendendo novas formas de realizar seu trabalho. Além disso, Kathlen reconhece que utilizar tranças e colocar nas outras pessoas a fez passar pelo processo de auto aceitação, uma vez que foi assumindo sua identidade. “As tranças fizeram eu me enxergar de uma forma melhor, poderosa, porque elas dão um empoderamento surreal”, externa.

A trancista vai além e pontua que trançar outras pessoas também faz parte desse processo. “Tranço mulheres tristes com o cabelo (em transição) e quando termino o serviço elas se olham no espelho e dá para ver o sorriso, o brilho nos olhos. Cara, eu digo que é mágico. Eu tô morta de cansada, mas só de ver a alegria da cliente já me deixa feliz”, finaliza Kathlen, emocionada.

Durante esse período de pandemia o mercado de trancista cresceu muito em Teresina e tem evoluído cada dia mais. Para as trancistas que estão em busca de crescimento dentro da área se torna mais difícil porque há mais concorrência. Espaços como a Casa Fios são fundamentais, pois além de oferecerem serviços estéticos para a comunidade negra, também se voltam à construção de memórias, valorização de histórias e realizam o acolhimento nos seus atendimentos por meio da troca de afetos.

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