Artistas circenses de Teresina buscam alternativas para sobreviverem fora dos palcos

Com cortinas fechadas e lonas desmontadas, a alegria proporcionada pelos espetáculos foi substituída pela dura realidade

Por Lanna Artemizia Alencar

Embora sejam o centro das atenções quando estão em cima dos palcos montados a céu aberto ou sob grandes lonas, os artistas circenses enfrentam o forte impacto da Pandemia da Covid-19 desde os primeiros indícios da infecção no país. Com bilheterias fechadas devido às medidas de isolamento, os Circos tiveram de encerrar as atividades e as estruturas móveis que costumeiramente surgiam em diferentes bairros de Teresina foram desmontadas e recolhidas. Em busca de alternativas para os prejuízos sofridos, os artistas têm procurado novas fontes de renda e colocado de lado as manifestações artísticas que tanto espalham alegria e felicidade. 

Considerado uma arte milenar, o Circo reúne diferentes profissionais que se dedicam diariamente para darem vida aos espetáculos. Jovens e adultos com as mais variadas habilidades que se apresentam em shows itinerantes e, assim, ganham o pão de cada dia. Ao menos, essa era a realidade pré-pandemia, pois, atualmente, os artistas precisam lidar com a ausência de recursos e estruturas que proporcionem segurança para a realização dos shows. Desta forma, muitos tiveram de procurar trabalhos informais para lidarem com as novas condições de vida.

O malabarista e palhaço Luã Jansen está há anos na profissão e conduziu a criação de um projeto que incentiva crianças e adolescentes a aprenderem sobre o universo circense. O artista que já transitou por vários estados do país, hoje circula por Teresina sob duas rodas enquanto atua como mototaxista e entregador. “A classe artística foi muito afetada. Não tem como não dizer isso. Até as pessoas que produziam muito e já tinham um nome forte foram impactadas de alguma forma. Tem gente que não está fazendo mais nada artístico, assim como eu”, afirma Luã.

Apresentação de Luã Jansen. (Foto de Jonathan Dourado)

Com passagens em grupos de teatro, ele desenvolveu interesse pelo mundo da arte ainda na adolescência e, desde então, não parou mais. Além dos trabalhos de malabarismo, Luã, juntamente com alguns amigos(as), desenvolveu um projeto itinerante chamado “Circuito Circense” que insere algumas atividades desse meio em praças da Zona Sudeste da cidade. No entanto, por gerar aglomerações, os eventos foram suspensos. “Confesso que, no início, era tudo muito confuso. Eu achei que a minha vida como artista ia acabar e, de certa forma, acabou. Eu não tô produzindo praticamente nada! Ano passado, eu só fiz duas lives e uma apresentação ao vivo”, relata.

Por esse motivo, muitos artistas buscaram nas redes sociais um espaço para manterem-se conectados com o público e ainda terem uma fonte de sustento, como é o caso da acrobata Ana Lívia Bastos. Em 2020, ela utilizou os conhecimentos adquiridos ao longo de toda a carreira para ensinar, de casa, alguns fundamentos da linguagem circense.  “Sobre a oficina, foi um desafio, principalmente por que as acrobacias requerem cuidados e precauções de segurança. A solução foi muito diálogo com os participantes, falando sobre respeito aos próprios limites”, diz. A artista também relembra de uma apresentação online feita com o coletivo Circorisco, “filmamos também um espetáculo Teatro 4 de Setembro sem público. Foi estranho apresentar para uma câmera. Os aplausos e os sorrisos fazem muita falta”, conclui.

Ana Lívia Bastos na live do coletivo Circorisco. (Foto de Raissa Morais)

Embora isso tenha ajudado, ainda existem muitos empecilhos para que a arte possa de fato ser produzida por todos no universo online, tanto pela dificuldade de acesso como pela carência de letramento virtual. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, 339 mil lares piauienses não possuíam acesso à internet e o principal motivo seria o valor cobrado por este serviço. 

“Eu nunca fui um ‘cara’ muito ligado às redes sociais, então eu tive dificuldade para essa adaptação e, no final, eu mesmo desisti de trabalhar dessa forma. Eu não tenho estrutura, nem um local bom para fazer filmagem, o que complica ainda mais o trabalho”, pontua Luã.

Na ausência de meios que facilitem a realização do trabalho e garantam renda, a família de Nildo Acioly vende, atualmente, algodão doce, maçã do amor e brinquedos para conseguir sobreviver.  Nascido e criado dentro desse meio artístico, o trapezista e palhaço é proprietário do Circo Acioly e enfrenta, diariamente, os desafios da nova realidade para conseguir o sustento. “Essa pandemia acabou com a gente. Recebemos muitas doações e, graças a Deus, consegui distribuir com outras pessoas que também estavam passando dificuldades”, lamenta.

No fim de 2020, a filha de Nildo foi contemplada pelo edital da Lei Aldir Blanc lançado pela Prefeitura de Teresina com um projeto de Live Circense. Por meio desse apoio, foi possível realizar o pagamento dos artistas que participariam, bem como para a montagem do Circo que serviria de palco para o evento. No entanto, após uma forte chuva, a estrutura desmoronou e o projeto precisou ser engavetado.

Devido a todas essas dificuldades, o experiente palhaço precisou guardar por um momento o sorriso que tanto marcou os espetáculos e expôs a face de um trabalhador preocupado com o destino dessa atividade que transforma a vida de tantas pessoas.

“Minha profissão é fazer alegria. Enquanto eu tiver vida, vou lutar pela cultura circense!”, afirma Nildo com veemência.

Sobre o futuro, o artista admite rezar pelo fim da pandemia para que todos que vivem desse setor possam, finalmente, voltar a compartilhar felicidade.

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