Literatura compartilhada: a ascensão de perfis literários em Teresina

Diante ao período de quarentena da Covid-19, leitores de Teresina compartilham opiniões e indicações através do “bookstagram”

Por Guilherme Torres

Historicamente, a leitura foi associada a um hábito solitário, em que o leitor mantém um distanciamento físico e mental do seu redor. Contudo, com o crescimento das redes sociais, a cada dia essa ideia de solidão torna-se cada vez mais antiquada, uma vez que há milhares de leitores conectados mundialmente compartilhando opiniões, críticas e hábitos relacionados à leitura nas redes sociais.

É nesse contexto de compartilhamento e comunicação que surgiu o bookstagram: incialmente uma hashtag – termo associado a tópicos que podem ser pesquisados em redes sociais – que hoje tornou-se a nomeação de um segmento da plataforma voltado ao compartilhamento de resenhas, textos, analises, vídeos e conteúdos feitos por perfis literários.

No Piauí, apesar de várias contas já possuírem registros voltados ao bookstagram desde o início da plataforma, o segmento tornou-se mais conhecido após o período da quarentena – decorrente da pandemia do Coronavírus, em 2020 – devido à busca de dialogo e interação de leitores entre si, já que as livrarias, cafés e encontros físicos estavam sendo evitados.

Para Ariane Gomes, pré-vestibulanda e criadora do perfil Literariane (@literariane), sua conta surgiu como um meio de entretenimento. “O Literariane surgiu, como muitas outras contas, em meio à pandemia, quando senti a necessidade de expor minhas impressões sobre os livros que eu lia”, relata a jovem que, junto com outras contas literárias de Teresina, formam o Clube 86 (voltado a parcerias internas entre perfis).

É a partir de suas percepções e comentários literários que, sempre atualizando seus seguidores sobre as suas leituras, os perfis vão conquistando o público-leitor que interage e confia na curadoria feita por esses produtores de conteúdos.

Ariane Gomes escrevendo seus textos para o @literariane (Arquivo pessoal)

Para o escritor Ítalo Damasceno, colunista e autor de “O falso francês” (publicado em 2020), mesmo já conhecendo grandes perfis literários de outras regiões do Brasil, a descoberta de contas do bookstagram de Teresina permitiu a construção de uma ponte de contato entre um público-leitor mais jovem do Piauí com a sua obra, através de parcerias com os perfis.

“De primeira eu acompanhava alguns perfis literários de fora, até que caí em um perfil daqui de Teresina e fui vendo que aqui também tinha vários perfis, sobretudo de meninas. Vi que elas seguiam o mesmo modelo dos grandes bookstagrans de fora (fotos bem tiradas, stories, vídeos, reels, opiniões bacanas, um público fiel, sempre com uma boa média de seguidores), mas também reparei que elas se apoiavam muito entre si”, relata Ítalo.

É a partir dessa ligação de fidelidade entre os seguidores com os produtores de conteúdos literários que, mesmo sem um conhecimento prévio entre ambos, há o laço de contato através das opiniões em comum. É como relata a acadêmica de biologia da Universidade Estadual do Piauí, Anaelly Bastos, que devido a sua rotina ativa e conturbada (mesmo em tempos de pandemia), busca indicações literárias em perfis de resenhistas que possuem gostos e opiniões que se assemelham com a seu.

“Já há dois ou três anos atrás, eu sigo páginas que costumam ter o mesmo estilo de leituras que o meu, por que são indicações mais seguras para períodos que eu não tenho tempo para pesquisar algo para ler. Mas claro que também, às vezes, dou a oportunidade para outras indicações de livros que me tiram da zona de conforto, para eu não ficar engessada sempre nos mesmos gêneros”, comenta a seguidora.

Todavia, mesmo diante dessa confiabilidade por parte do público e de autores independentes, os perfis literários ainda enfrentam bastantes preconceitos quando trata-se de parcerias com livrarias teresinenses. Segundo a assessora de imprensa Eliziane Oliveira, criadora do perfil Nossa Literatura (@nossaliteratura), o vínculo de parceria com livrarias, editoras e até mesmo autores regionais é muito difícil.

“Apesar de já ter tido até encontros (do grupo de leitura coletiva) antes da pandemia em algumas livrarias, o que vejo é não há o menor interesse por parte das livrarias e desses espaços de abrigaram e oferecerem algo, algum suporte; nunca há um retorno por parte delas”.

Em tempos de quarentena (e em toda a história da humanidade) a arte serviu para compreender, eufemizar ou explicitar o mundo a nossa volta, sendo a literatura uma vertente polifônica e múltipla de vozes e olhares. Hoje, a estimativa é que a cada dia sua presença seja mais recorrente e democrática, seja na conversação social, ou por meios das redes sociais e compartilhamento virtuais de leitores.

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