Os perigos da utilização indevida de medicamentos

Como a pandemia mudou nosso relacionamento com o consumo de remédios

Por Pedro Furtado

Não é de hoje que a relação do brasileiro com o uso de medicamentos é algo conturbado. Uma pesquisa do Conselho Federal de Farmácia (CFF) revela que em dois mil e dezenove 77% dos brasileiros tinham o hábito de se automedicar. Hoje em dia, com a atual pandemia de COVID-19, esse número provavelmente tornou-se ainda maior.

Em entrevista, o Doutor Marcos Basílio corroborou com essa afirmação: “a pandemia tanto aumentou os temores e as crises que as pessoas passaram a sentir, como o acesso aos profissionais de saúde foi reduzido. Por critérios de segurança, porque os próprios profissionais se recolheram para não adoecerem, toda uma questão sanitária foi envolvida, e essa barreira, creio eu, potencializada pela necessidade, que também aumentou. Fez as pessoas recorrerem cada vez mais à automedicação. ”

A fala de Marcos Basílio também revela um fator decisivo para a prática da automedicação: o acesso ao sistema médico. Quanto menos acesso a profissionais da saúde, mais as pessoas consomem medicamentos por conta própria. Em entrevista, o Dr Daniel Melo, corroborou com essa afirmação: “Apesar de [a  automedicação] ser muito comum, em locais como Teresina, por ter mais acesso a pontos de atendimento de saúde e mais acesso a médicos, é menor ao que eu vejo aqui no interior de Picos e cidades vizinhas. Já que muitas cidades daqui são afastadas e pequenas, é mais difícil ter a presença de um médico todos os dias da semana, normalmente tem um médico que faz o atendimento na unidade básica de saúde[…] Quanto mais afastado da capital maior é a prática de automedicação.”

Um levantamento feito pelo maior portal do varejo farmacêutico do Brasil, o Consulta Remédios, mostrou que os 3 medicamentos mais buscados em 2020 foram: a ivermectina, a azitromicina e a hidroxicloroquina, todos medicamentos inicialmente indicados como possíveis métodos de tratamento ou quimioprofilaxia para o Covid-19. Embora, entre os profissionais da saúde aqui consultados, uma unanimidade concordou que o uso profilático de medicamentos não é efetivo, e o próprio Dr Daniel alegue que ”Na prática, “conversando com os colegas que tomavam [ivermectina de forma profilática] assim como eu tomava, sem exagero, a cada 10 que eu conversei 9 pegaram COVID. Se funcionasse, era esperado ser um número bem menor.” ele ainda acredita e defende o uso da mesma  para o tratamento da doença. “A gente acredita que elas funcionem, ou tem alguma função, algum benefício. A gente vê o benefício pelos estudos que tem, poucos estudos que são embasados, que superam os malefícios. O caso da hidroxicloroquina é muito polêmico, porque ela recebeu um problemão, que foi político. A droga virou política.” Ele afirma. Embora o médico também admita que a droga atualmente é muito pouco usada para tratamento de COVID-19 no Brasil, e ele mesmo não se lembre da última vez em que prescreveu o medicamento.

A Dra Ana Carolina Concorda com a afirmação de Daniel. Para ela “O uso de medicações e os estudos foram politizados a ponto de atrapalharem as pesquisas que evidenciassem benefícios e malefícios do uso de certas medicações.”

Um exemplo de fala discordante quanto aos benefícios destes medicamentos no que tange o combate ao COVID é a de Marcos Basílio, segundo o mesmo: “Fazendo uma retrospectiva, vários medicamentos inicialmente foram apontados como de grande valia no início, como a cloroquina, como a ivermectina, como Nitazoxanida, o Remdesivir. E à medida que eles vão sendo testados e estudados, vai se descobrindo que eles não eram tão eficazes assim [no combate a COVID-19]. Sobraram alguns estudos antigos apontando algum tipo de eficácia. Mas a quantidade dos que não apontam eficácia é maior.”

Outro entrevistado, ainda, o Doutor Ítalo Costa, que coordena o setor de Urgência do Prontomed Adulto de Teresina, afirma que a insistência em recomendar medicamentos sem comprovação “Baseia-se apenas no fato de um grupo de especialistas terem um grupo de pacientes que tiveram êxito com a administração da medicação, porém não podemos fazer relação de causalidade. Pois [estes protocolos] podem ter tido êxito porque foi uma doença com manifestações leves, que independente da medicação ela iria evoluir bem.”

Essa discordância entre os profissionais de saúde demonstra mais uma faceta da relação atual do Brasileiro com o uso de medicamentos: o público médio muita vezes não sabe quem está mais correto em meio a discordância, e salvaguardados pela opinião de médicos e especialistas que alegam resultados positivos de certas substâncias ou condutas que podem não ter ainda sua eficácia cientificamente comprovada. Podemos Verificar isso na fala do entrevistado  José Avelar, Engenheiro Civil aposentado, que diz fazer o uso de ivermectina a mais de um ano junto a toda sua família: “Recebi vídeos de profissionais de saúde tratando da eficácia do uso preventivo da ivermectina. Passei então a pesquisar sobre os profissionais autores destes vídeos, sobre onde o uso da ivermectina se mostrou eficaz e sobre os efeitos colaterais daquela medicação. Após esta pesquisa decidimos adotar a ivermectina como tratamento profilático ao COVID.”

Outro problema decorrente do consumo de medicamentos por conta própria, são as dosagens inadequadas, Gabriel Braga, aluno de medicina que atuou durante seis meses no telemonitoramento a pacientes com COVID-19, revela: “teve paciente tomando três comprimidos por dia. Eu tentava falar com toda educação do mundo: “Olha, não tem eficácia, isso aí não precisava estar tomando, mas não adiantava, eles continuavam tomando em sua maioria. Nessas horas fui orientado a que? a fazer redução de risco, ao menos ensinar o cara como tomar, para evitar maiores problemas.”

Gabriel Braga destaca ainda, e Marcos Basílio concordou com sua afirmação, que o que se sustentou com critérios até agora para o tratamento de Covid foi o uso de corticoides. Mas mesmo eles, muitas vezes são usados de maneira incorreta. E o mais chocante é que segundo o estudante, menos de 6% dos pacientes monitorados por ele que tomavam doses erradas de medicamentos estavam tomando por conta própria, a maioria recebia recomendações de médicos em desacordo com as dosagens de estudo e com os protocolos e diretrizes de hospitais de referência. “de quinze que fizeram uso de corticóides somente um acertou a dose. Era erro demais, pessoas com quinze dias de corticóide em doses baixíssimas, era gente tomando o terceiro esquema de azitromicina, gente que já tinha repetido ivermectina duas vezes.”

É de se destacar na fala do estudante o uso inadequado de azitromicina, um antibiótico. O uso indevido desses medicamentos pode ter consequências graves, além de desregular a flora bacteriana do corpo, pode contribuir para o surgimento de superbactérias, resistentes a antibióticos e mais difíceis de se tratar.

Gabriel resume esses erros como causados por Imperícia. “Em parte isso é reflexo da busca de informação em fonte errada. Também de uma cultura que é bem comum aqui no país, especialmente daqueles médicos que não têm convívio com o meio acadêmico pós formação, que é aquele negócio: terminou o curso, param de estudar, e simplesmente tocam serviço, se acomodam. A partir daí não se atualizam mais e se defasam. Médico não pode parar de estudar em momento algum na vida.”

E nessa grande novela do coronavírus, o que nos resta é aguardar os avanços das pesquisas e ir nos cuidando até lá, pois como a ciência sempre evolui, e novos estudos surgem todos os dias, é possível que amanhã seja descoberto que alguma substância taxada como ineficaz se mostre a melhor alternativa. Ou que, do mesmo modo, algum medicamento amplamente utilizado mostre-se trazer consequências que inviabilizam sua utilização para o caso do COVID em específico. E se o modo como usamos medicamentos hoje trará consequências amanhã, sejam bactérias mais fortes, sejam efeitos colaterais adversos por utilização inadequada, só o tempo dirá.

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