“Ninguém pode parar minha bicicleta ”

   Quando a ciclista Alfonsina Strada disse essas palavras seu obstáculo era ser a primeira mulher a competir como ciclista. Hoje enfrentamos uma pandemia global, mas os ciclistas continuam imparáveis

Anastácia Viveiros

   A pandemia causada pelo vírus da covid-19 fez o mundo parar desde 2020, mas não conseguiu parar os ciclistas. A Associação Brasileira do Setor de Bicicletas contabiliza que 2020 fecha com um aumento médio de 50% nas vendas de peças e bicicletas e que alguns meses chegaram a ter aumentos percentuais de 118%, mesmo sendo períodos fora das épocas de maior demanda. Mas o que estaria causando esse aumento durante um período tão instável e perigoso de pandemia? A resposta é praticamente unânime, o desejo de se exercitar.

   Em todo o mundo fábricas de bicicletas que antes operavam suprindo demandas e gerando excedentes, estão fazendo novas contratações e até falta de matéria prima para peças estão sendo registradas, com entregas sendo atrasadas. Como é o caso do Brasil a demanda explosiva do período de pandemia não está sendo suprida pelas fábricas que ficam principalmente em Manaus, uma zona muito afetada pela covid-19. Em Teresina o mecânico Wanderson Alves Silva afirma que o movimento no mercado de peças e manutenção que já vinha crescendo aumentou ainda mais, e esse novo público tem costumado procurar o ciclismo como alternativa de locomoção, esporte e lazer.

  O atleta e ciclista de destaque nos circuitos regionais Joceano Lustosa Alves aponta que o ciclismo já vinha crescendo antes da pandemia, mas que com os decretos e as restrições às academias e clubes, a população tinha a necessidade de praticar uma atividade e o ciclismo, que pode ser praticado ao ar livre, foi o esporte mais apropriado para esse momento.

  O profissional de educação física e ciclista, Flavio Viveiros Oliveira falou sobre algumas vantagens que pedalar traz. “Citando algumas habilidades e qualidades físicas trabalhadas pelo ciclismo, nas habilidades tem o equilíbrio, autonomia, coordenação e noções de espaço e já nas qualidades físicas entra a resistência, o processo circulatório, as capacidades neuromusculares, a tonicidade dos membros inferiores e abdômen, força e a questão cardiorrespiratória que é um dos principais agravantes para o indivíduo que é acometido pela covid e o ciclismo vai dar uma resistência muito boa. ”

   Lustosa afirma que a cena do ciclismo regional também tem muito o que oferecer aos que quiserem pedalar como esporte já que hoje se conta com campeonatos estaduais, provas comemorativas, campeonatos paralelos e provas de renome no Brasil. Sendo também provas com mais de um tipo de percurso que, assim, pode atender atletas de níveis diferentes. O Piauí inclusive já sediou um Campeonato Brasileiro, feito que poucos estados do Nordeste já conseguiram e o circuito do Picos Pro Race o fez.

   Para os atletas de um modo geral Flavio Oliveira afirma que os prejuízos foram grandes. “Quando se fala nas pessoas que faziam esporte de rendimento se fala de academias, clubes, centros esportivos… e olha é uma perda muito grande, visto que estamos na beira da olimpíada e tínhamos os jogos pré-olímpicos os jogos de treino a pronto para a olimpíada, então sem sombra de dúvida houve uma perda muito grande no aspecto rendimento. Porem tem um outro lado as pessoas têm que ser criativas e dar abertura à outras formas e maneiras de se exercitar e o ciclismo abraçou isso muito bem obrigado porque é um esporte individual. ”

  O atleta Joceano Lustosa ainda diz que outra das vantagens do ciclismo é a liberdade que o esporte proporciona. “Poder ir a lugares diversos e poder unir amigos para praticarem juntos, por mais que no momento ainda não seja aconselhável”. Antes da pandemia grandes grupos de ciclistas organizavam pedaladas para balneários e cidades próximas e os ciclistas do pedal noturno também faziam muitas pessoas irem para a porta de suas casas vê-los passar. Além do quê pedalar sozinho também é uma opção o educador Flavio Oliveira relata. “Pra quê terapia melhor do que sair pedalando em um parque ou uma rua? Você medita, faz sua auto avaliação… então sim sem sombra de dúvida é uma terapia, quando você faz algo prazeroso dá uma ótima sensação causada por vários hormônios… acetilcolina, dopamina, serotonina ativados pela atividade física”. No entanto a falta de segurança é um dos problemas relatados pelos ciclistas teresinenses e pequenos grupos têm se tornado cada vez mais comuns.

   Na locomoção a bicicleta também tem gerado renda e ajudado os trabalhadores a evitar o transporte público lotado que é um intenso foco de contaminação é o que diz o estudante universitário e ciclista casual Levi Barbosa. “Eu vejo que o maior motivo pra galera começar a pedalar e praticar esportes está diretamente ligado à busca de uma saúde melhor, a necessidade de se adaptar aos novos tempos, não só como hobby, mas como transporte para fugir do transporte público lotado e até como trabalho com a explosão de aplicativos de comida”.

   As bikes também têm ajudado a reduzir as despesas domésticas, com os tempos difíceis é preciso economizar a gasolina e em uma cidade de médio porte como a nossa ter uma bicicleta pode ser bem útil. Porém outra dificuldade relatada não apenas por este, mas por vários ciclistas e a muitos anos em Teresina é a falta de ciclo-faixas suficientes e de interligações entre elas para garantir a segurança de quem tem que disputar espaço com carros e motos, um problema aparte é que as ciclo-faixas existentes estão em áreas onde seu uso é majoritariamente recreativo e não ajuda muito quem realmente precisa se deslocar de bicicleta por Teresina.

   Muitas das pessoas que adquiriram hábitos saudáveis durante a pandemia pretendem mantê-los quando ela acabar, o que se espera é que as bicicletas possam ser um legado positivo desse período, um legado saudável, sustentável, acessível e resistente.

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