A MODA SOB A ÓPTICA DA INCLUSÃO, UMA QUESTÃO SOCIAL

Por: Carlos Santos e Jailson Oliveira

  A moda não consiste apenas em vestir as pessoas, definir tendências, realizar semanas de moda, expor looks em passarelas ou ter a melhor vitrina, ela tem a capacidade de transformar um objeto comum em objetos funcionais. As roupas, por exemplo, vão além de apenas cobrir nossos corpos, de nos enfeitarmos com adornos e parecermos agradáveis esteticamente aos olhos da sociedade, ela pode ir além. A moda reflete períodos históricos, sociais e culturais de um povo, além de facilitar a vida de determinados usuários.

As roupas inicialmente eram usadas para se proteger do frio, pudor e adorno, e só muito tempo depois, como representação de uma classe social. Com a evolução da indumentária, a mesma busca atribuir novos significados que estão diretamente ligados a um processo de evolução de uma sociedade. Com isso, surge um novo conceito de moda, o que passa a ser intitulado de moda inclusiva, que consiste no desenvolvimento de roupas pensadas para levar em conta as necessidades físicas e psicológicas de cada indivíduo, indo além do simples funcionalismo ao considerar também fatores como design, estilo e tendências do mercado fashion.

Maria de Jesus Medeiros é professora no curso design de moda e estilismo da UFPI (Universidade Federal do Piauí), e destaca a importância de desenvolver peças do vestuário pensado para pessoas com deficiência.

“Nem todos os consumidores são contemplados neste universo do consumo da moda, o caso de pessoas com alguma deficiência. Entendemos que há muito tempo, este foi um público considerado invisível. Entende-se ser uma das necessidades primarias a condição de vestir nosso corpo. Penso que a partir do novo Decreto nº5296 de 02/09/2004, alterando o anterior de nº3298 de 20/12/1999, foi essencial para instituição de uma “Política Nacional para Integração da Pessoa com de Deficiência”. Porque contempla “o conjunto de orientações normativas que objetivam assegurar o pleno exercício dos direitos individuais e sociais das pessoas”.

Naiane Martins é psicóloga, mãe, estudante, dona de casa e também cadeirante, e a sua limitação física não a impede de exercer nenhuma dessas funções. Mas o momento em que enfrenta uma grande limitação é no momento de compra do vestuário de moda. Ela destaca a principal dificuldade encontrada no momento da compra.

Naine Martins na aula da saudade de sua formatura | Foto: Reprodução Facebook

“Na realidade eu sempre tive dificuldade de comprar roupa. Como tenho escoliose e não gosto de usar nada me marcando, tento comprar roupas com a modelagem mais soltinha, o que na maioria das vezes não consigo. Desde que eu tina uns 10 anos o jeito que encontrei foi começar a fazer minhas próprias roupas. Geralmente só compro calças e shorts. O resto é feito sob medida. Escolho modelo, tecido, detalhes e sempre dando meus pitacos.”

Formada em psicologia, Naiane Martins conhece bem os fatores sobre a psicologia, e como conhecedora, ela destaca pontos importantes do quanto a roupa produz sentidos e significados quando uma pessoa com deficiência adquire determinada peça do vestuário.

“Na adolescência eu sempre ficava triste por não poder comprar uma roupa que eu gostava. Atualmente isso me incomoda bem menos, mas é muito chato e tem que ser algo bem trabalhado na sua autoestima. Imagina você chegar em uma loja e nada servir ou ficar legal por causa de algo que você não pode mudar. Lógico que vai te abalar. Trabalhei muito meu psicólogo para aceitar que o problema não era meu corpão. Então atualmente prefiro mil vezes pesquisar sobre moda e mandar fazer minhas roupas. Assim fica do jeito que quero.” relata Naiane.

  No entanto, o processo de produção de moda inclusiva ainda é muito escasso, falta mão de obra especializada e marcas que queiram aderir ao seguimento. Esses são alguns dos pontos que levam a essa escassez. O que diferencia o mercado de moda inclusiva da moda regular são os aspectos como mobilidade e ergonomia, que visem atender a determinado grau de deficiência. A professora Maria de Jesus aponta quais são as principais dificuldades no processo de produção de peças inclusivas.

“A possível dificuldade seria os tipos diferenciados de corpos a serem modelados de forma individual, por não ter o padrão estético, simétrico, ergonômico, antropométrico como tem a maioria dos corpos, identificados com medidas referenciais padronizadas”.

Um dos primeiros marcos na disseminação do conceito da moda inclusiva foi em 2014 na passarela do New York Fashion Week, um dos principais eventos do calendário fashion mundial, quando desfilou a primeira cadeirante, a psicóloga Danielle Sheypk.

Danielle Sheypuk desfilando na passarela do New York Fashion Week em 2014 | Foto: Getty Images

As marcas de modas geralmente nascem da criação de um briefing e um planejamento, a partir disso começa a se definir um público alvo, e outros pontos vão se estabelecendo para que assim surja mais uma marca de moda no mercado.  No entanto considerando que o Brasil movimenta mais de 50 bilhões de dólares por ano, e considerando os dados estatísticos do IBGE DE 2010, por que as marcas de moda inclusiva ainda são muito escassas? A professora Maria de Jesus destaca quais são os fatores que contribuem para a pouca existência de marcas que trabalhem no seguimento de moda inclusiva.

 “Penso ser muitos fatores que corroboram para que o segmento de Moda Inclusiva não atraia interesse a indústria de moda. Por ser uma indústria multifacetada, ela se presta a promover o consumo como maior alcance de lucro. O público de consumidores em geral, é identificado por biótipos padronizados entre os tipos masculino e feminino, sendo favorável a produção de massa. Isto é um fator facilitador na produção de vestuário. Certamente este é um dos fatores que não desperta interesse na expansão de muitas marcas. Considerando os vários biotipos de pessoas com deficiência física podemos identificar algumas categorias de cadeirantes, amputados, paraplégicos, cegos, síndrome de down, etc.”

Os dados estatísticos acerca da pessoa com deficiência são atualizados a cada dez anos, em virtude da pandemia do corona vírus instalado no país, os mesmo não puderam ser atualizados, mas de acordo com os dados do IBGE de 2010, no Brasil, 23,9% da população possui alguma deficiência, o que representa em torno de 45,6 milhões de pessoas. Deste percentual, 18,8% possuem deficiência visual, 5,1% deficiência auditiva, 7% deficiência motora e 1,4% deficiência intelectual.

E assim, considerando a visão mercadológica, é possível perceber um número bastante expressivo de um público que, ainda é bastante excluído como potenciais consumidores e que assim como toda as pessoas sem deficiência também tem desejos e necessidades que devem ser atendidos pela indústria de desenvolvimento de produtos. Artemísia Caldas é professora no curso de Design de Moda e Estilismo pela UFPI (Universidade Federal do Piauí), e destaca por que o mercado ainda não se atentou para atender a essa demanda desse público.

“Apesar desse assunto está sendo bem discutido e se encontra também em destaque nas propostas de pesquisas de alguns estudantes, esse questionamento surge sempre sem uma resposta validada. Você questiona de forma ampla o mercado sem delimitar se é no país, regional ou mais precisamente local, vejo como uma problemática de muita polêmica no sentido mais abrangente sobre o assunto inclusão. Ainda nos esbarramos na polêmica dos tipos de segmentos que serão inclusos como moda inclusiva.  Temos muitos segmentos que podem e merecem mais atenção e ainda estão longe de serem enxergados como uma boa demanda de mercado.” Afirma Artemísia.

Aos poucos a moda vem evoluindo, e deixando para trás a característica do que antes era fútil, e vem adotando novos conceitos, como pode ser visto na inclusão, na sustentabilidade e dentro de outros contextos sociais. No entanto, a moda vem passando por modificações constantemente, e mesmo conquistando novos espaços dentro da moda, quando se trata da qualidade dos produtos do vestuário adaptado para pessoas com deficiência é possível identificar as dificuldades encontradas por pessoas com deficiência. A consumidora Ana Maria Santos é deficiente visual e relata quais as dificuldades encontradas quando vai a uma loja fazer compra de roupas.

“A principal dificuldade que eu sinto, é que as vezes quando eu chego em uma loja para comprar é que o vendedor por achar que sou uma pessoa com deficiência ele quer me empurrar qualquer coisa as vezes coisa que não tem nada a ver com meu estilo”.

Partindo de um caráter evolutivo, ao acompanhar essas transformações de mercado e de valores sociais, é que vão surgindo novos horizontes e desafios para o profissional em design de moda que devem dar um novo conceito para a moda, buscando a sustentabilidade e inclusão, em virtude da amplitude do mercado e do anseio desse público de ter produtos que atendam às suas necessidades nas lojas.

 A moda inclusiva trabalha com à criação de conceitos que envolvem o ser humano e não apenas uma classe social, um estilo ou um determinado segmento de mercado. Atender ao público de pessoas com deficiência é um tanto desafiador, a professora Artemísia Caldas pontua como o profissional em moda deve encarar esses desafios, e assim ampliar o mercado tornando-o mais inclusivo.

“Aprofundando a percepção no sentido do desenvolvimento dos processos criativos relativos a produtos para segmentos de moda inclusiva que ainda se encontram rejeitados pelo mercado investidor, para que assim possam proporcionar visibilidade a necessidade do mercado sobre essa demanda que ainda se encontra a margem dos investimentos. Ao investir no amplo mercado de moda o retorno é mais rápido, enquanto que investir nos segmentos de moda inclusiva, o retorno é muito mais lento e precisa investir em estratégias de marketing para ter retorno a médio e longo prazo. O mercado precisa acordar o quanto antes no sentido de investir nesses segmentos.”

Incluir é aceitar as pessoas como elas são, sem olhares indiferentes, compreender que essas pessoas tem sim o direito de ir e vir, mesmo que com prioridades mas são de direitos delas, e dentro da moda eles encontram um ponto ligado a autoestima que faz com que esse indivíduo transite melhor na sociedade. A professora Maria de Jesus destaca a importância de ter olhares voltados para a moda inclusiva.

“Considera-se importante todo o processo de aprendizado, em razão do desafio das diversas práticas, neste caso falamos do eixo de tecnologia do vestuário. Este eixo está conectado com as demais áreas do processo de formação de saberes teóricos e práticos. Portanto, envolvemos a pesquisa, a criação, o desenho, a produção do vestuário, etc. para conduzir metodologias de ensino-aprendizado. Sobre esta pauta Moda Inclusiva trata de uma política educativa relevante na formação dos sujeitos na área do design de moda.” Afirma Maria de Jesus.”

Portanto, a moda tem o seu papel de fundamental importância com a inclusão dessas pessoas, partindo dos aspectos que refletem as suas necessidades de mobilidade, acessibilidade, conforto e bem estar, visto que, quando se elabora um projeto especifico, respeitando as peculiaridades desse público, e quando se adequa os estudos da antropometria, ergonomia e usabilidade, necessários no desenvolvimento da modelagem, inerentes a um artigo de moda e o direciona para esse consumidor, afirma-se ser um momento de inclusão na moda. Como já diz Cidreira

Vestir é um ato de significação que está além de motivos como pudor, proteção e adorno.

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