A estigmatização das crenças e seus mitos

Com o objetivo de sanar inverdades e abordar vivências, a reportagem te convida a conhecer a realidade de quatro crenças distintas

Por: Luana Fontenele

Quando paramos para pensar em crenças, pensamos em algo que é inerente aos seres humanos. E com isso, determinados estereótipos nos vem a mente ao associar os atos de fé a condições que, por vezes, não condizem com a realidade.

A partir disso, a reportagem do Portal Luneta traz diversas visões de mundo e de crenças com o principal objetivo de dar a eles o protagonismo de sua escolha e a de esclarecer certos mitos atrelados, além de nos proporcionar uma imersão da realidade diferente à qual vivemos.

Diálogo inter-religioso é comum em muitas comunidades, como é o caso desse serviço de orações de várias crenças na Catedral de Nossa Senhora dos Anjos, em Los Angeles (Foto: Reprodução/ AP Images)

“TODO JUDEU É RICO E PERSEGUIDOR DE CRISTÃO”

Uma das religiões monoteístas, isto é, que só adoram a um deus, mais antigas que se tem registro é o judaísmo, e os seus adeptos são conhecidos como judeus para homens e judias para mulheres.

 O antissemitismo, popularmente conhecido como ódio aos semitas, sejam eles árabes, assírios e principalmente judeus, já existe há muitos anos, e foi intensificado no período da Segunda Guerra Mundial, principalmente por conta dos holocaustos que foi a morte em massa da comunidade judaica


 Maria Eduarda, convertida há 7 anos ao judaísmo, contou à nossa reportagem, que boa parte do ódio ao judaísmo no ocidente está relacionado ao cristianismo, em que muitos associam que os judeus são ruins, pois não acreditaram em Jesus e que o mataram.

“Eu li um livro da historiadora Hannah Arendt em que ela explica sobre esse sentimento anti-judaico. A base disso, segundo ela, também é econômica, pois muitos judeus há bastante tempo ocupam espaços de poder e riqueza, às custas, principalmente, da usura, condenada pelos cristãos desde a Idade Média, o que contribui ainda mais”, afirma.

Maria Eduarda conta ainda que já passou por situações complicadas relacionadas à sua fé, em sua própria família e que, por mais que ela tente desmitificar certos pontos sobre sua crença, a maioria prefere alimentar que judeus são: terroristas, avarentos, e perseguidores de cristãos.

“Minha madrinha (também judia) tem uma irmã (minha tia) que é extremamente católica e, infelizmente, ela tem um misto de medo/nojo/repúdio contra nossa crença. Minha mãe fez véus para minha madrinha, e minha primas, logo minha tia católica ao vê os véus, já foi logo dizendo: “”aí, credo”, assustada e com nojo”.


A judia ressaltou que por fazerem uso de véus em suas reuniões, as judias são comumente associadas às mulçumanas e estas, por sua vez, ao terrorismo. Ela relembrou ainda o episódio quando levou uma amiga a uma reunião e o pensamento continuou o mesmo.

“Perguntamos para nossa amiga como tinha sido para ela, aí ela disse que tinha estranhado os acessórios, que as pessoas tinham falado um monte de coisa que ela não tinha entendido, e que era coisa de terrorista. Então, não importa o quanto a gente tenta esclarecer, é isso que parte das pessoas pensam”.

“EXU É O DIABO. UMBANDA NÃO É DO BEM”

O estudante de jornalismo, Thiago Santos membro da Casa de umbanda Nosso Senhor do Bonfim, há cerca de dois anos, nascido e criado em família tradicionalmente católica, contou que a família recebeu com um baque a notícia de que ele agora era umbandista.

Thiago Santos ao lado de membra na Casa de Umbanda Nosso Senhor do Bonfim. (Foto: Arquivo pessoal)

“Na época, eu estava passando por muitos problemas como depressão e ansiedade, e a espiritualidade foi uma ferramenta fundamental para minha melhora mental, emocional e até física, e isso fez minha família perceber que seguir este caminho era o melhor para mim, e com isso, as muralhas da ignorância foram sendo derrubadas. E eu até entendo, muita gente compreende a umbanda de uma maneira que ela não é”, destaca Thiago.

O umbandista e médium afirma que a principal missão dos adeptos é a propagação de paz, amor e caridade, e as experiências no terreiro fizeram com que ele tivesse sua visão de mundo ampliada.

“Chegar dentro do terreiro, vestir o branco e ajudar pessoas que estão precisando de acolhimento e amor me faz perceber que um dia eu já fui como aquele alguém, e isso são experiências que marcam nossa vida como um todo. Porque a espiritualidade não se restringe a uma religião, a espiritualidade está no tratar o próximo, no sentir a vida, no falar, no respirar, e deve refletir em todos os âmbitos das nossas experiências”.

 De acordo com a reportagem feita pela revista ‘Super Interessante‘ , em parceria com Vagner G. da Silva, coordenador do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras (CERNe), Exu é um dos maiores orixás (um tipo de divindade). É uma espécie de mensageiro, que faz a ponte entre o humano e o divino.

“Quem nunca ouviu falar de exu como sendo o diabo? É um ditado muito comum por causa da herança gerada pelo próprio processo de colonização do nosso país. Infelizmente há um histórico de julgamentos, onde tudo que foge do aceito como padrão e convencional na sociedade provavelmente tende a ser demonizado”, desabafa Thiago Santos.


Thiago conclui dizendo ainda, que já passou pelas mais variadas situações de intolerância e preconceito por sua crença, em ambientes como: trabalho, rua, escolas, o que foi o caso até de pessoas saírem de sua vida, por não entenderem a sua chamada missão espiritual.

“Apesar disso, nem tudo são flores. Existe o preconceito e intolerância, e esses comportamentos se repetem em comentários ignorantes e até em pessoas que saem da nossa vida. Mas estamos aqui para quebrar esses estigmas né? Quebrar essas barreiras e construir relações de compreensão”, conclui o umbandista.

“SEITA QUE NÃO FAZ NADA NO SÁBADO”

Sabatista, quantas vezes você já se deparou com uma pessoa que se autodeclarou assim? E quantas vezes foi-se questionado a este alguém coisas como: “Você não faz nada no sábado”, “são uma seita”, “são preguiçosos”, “não gostam de trabalhar”.

Pois bem, os ditos como sabatistas fazem parte de grupos religiosos, que têm como o sábado, ou o sétimo dia, como um dia de guarda e de adoração, iniciado às 18h da sexta-feira até às 18h do sábado. Com isso, é deixado para segundo plano, coisas como, estudos e trabalhos. Englobam essa categoria, religiões como: judeus, algumas alas dos batistas e os adventistas do sétimo dia.

A jornalista Bruna Coimbra faz parte da igreja adventista do sétimo dia, e conta que já chegou a ser prejudicada em áreas da sua vida, por conta de sua escolha religiosa, e explica como é o sábado para a sua crença.

Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais em ação de entrega de cestas básicas durante o sábado. (Foto: Reprodução/Adventistas)

“Naturalmente, já perdi trabalhos por causa do sábado, pois este dia é, naturalmente, a questão mais controversa para muitos. Mas entender que isto não se trata de um dia comum da semana, e que na verdade tem a ver com temor e obediência ressignifica os questionamentos sobre nossa fé. Muitos acreditam que não fazemos nada no sábado, mas na verdade, é quando mais se trabalha, mas com outra finalidade. Não trabalhamos para o nosso sustento, mas para o sustento espiritual, físico e mental de outras pessoas”, afirma a jornalista.

De acordo com o site ‘Centro White-Unasp’ , o termo “seita” é geralmente um rótulo apologético e pejorativo, usado por líderes religiosos como um mecanismo de autodefesa, destinado a inibir as pessoas de se relacionarem com pretensos hereges.  

Em relação aos adventistas, diferentes justificativas têm sido sugeridas para considerá-los como sectários. Uma das mais comuns é a alegação de que os adventistas advogam algumas doutrinas distintivas não compartilhadas pela maioria dos cristãos

“Um mito muito forte é que somos uma seita, resultado de uma crença pejorativa em torno desse conceito. No dicionário, seita é uma doutrina ou sistema que se afasta da crença ou opinião geral. Nesse ponto, somos realmente bem incomuns. Mas associar nossa doutrina a ritos que ferem a dignidade humana é totalmente equivocado. Esse é o ponto mais complexo de ser comentado, porque a explicação não é meramente intelectual”, destaca Bruna.


A adventista destaca ainda que o que realmente limita a compreensão, sobre todos os sistemas religiosos, é o preconceito. “Buscar informações a respeito não implica em envolvimento profundo, se a pessoa não desejar. Mas o mínimo necessário para respeitar quem é diferente de nós”.

 “TERRORISMO E OPRESSÃO ATRAVÉS DO VÉU”

De acordo com o Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil há cerca de 35 mil seguidores do Islã, mas de acordo com algumas instituições islâmicas brasileiras, atualmente o número de seguidores é superior a 1,5 milhão de fiéis.

Muçulmanos na meca, cidade sagrada para o Islã. (Foto: Reprodução)

Islão, islã ou islamismo se trata de uma religião abraâmica monoteísta articulada pelo Alcorão, um texto considerado pelos seus seguidores como a palavra literal de Deus, e pelos ensinamentos de Maomé. Os seguidores desta religião são chamados de muçulmanos.

A estudante de psicologia e muçulmana, Heryka Glins, contou que desde quando se converteu vem passando por situações preconceituosas, em que precisou se ‘acostumar’, com os ataques. Afinal, os muçulmanos são popularmente conhecidos pelo seu modo de se vestir especialmente as mulheres, em que a maioria faz uso do hijab.

mulçumana enfrento olhares, comentários, piadinhas, pessoas que atravessam a rua para não cruzar comigo, pessoas que saem do transporte público para não estar no mesmo ambiente que eu. Logo no início isso foi muito difícil, porém infelizmente ou nos acostumamos ou sofremos muito com algumas atitudes de pessoas desinformadas”, desabafou Heryka. 

Em entrevista à revista ‘Esquinas’ , Mohammed Barakat, xeique da Mesquita Brasil, no Centro de São Paulo, afirma que os agentes das ações de terrorismo estão muito distantes de Deus e da religião. “O profeta diz que o muçulmano não é muçulmano se as pessoas não estiverem protegidas de sua língua e de sua mão”, sugere Barakat. Nas suas palavras, um muçulmano não deve agredir outro, nem verbal, nem fisicamente.

Heryka destaca que ao contrário do que é propagado, o Islam é uma religião de paz, que prega o respeito, amor ao próximo, aos animais, humildade e fé. E relembra um dos episódios em que sentiu na pele o que é o preconceito por sua escolha de crença.

“A experiência que mais me marcou enquanto mulher mulçumana foi certa vez que entrei em uma condução pública e uma senhora que já estava sentada quando me viu agarrou a bolsa que usava e dela retirou um terço católico (mulçumanos também tem um terço, que é diferente e é rezado de forma também diferente) e começou a rezar como se já estivesse no Apocalipse. Não é preciso muito para entender que ela estava com medo de mim, lembro de pensar “o estereótipo da minha religião é explodir e não roubar””, ressalta.



E com isso, Heryka conclui afirmando o quão triste é o desrespeito às escolhas individuais, a respeito de crenças e o preconceito velado, sem o mínimo esforço de entender as diferenças e de exercitar o principal, que é o respeito, a todos e às suas escolhas.

“É triste, mas se não tentarmos entender que o que falta para muitos é além do conhecimento é o aprender que cada indivíduo tem o direito de acreditar no que quiser, acabamos “comprando briga” com todos a nossa volta. E o que aprendi com o Islam é que o respeito deve começar por mim.”, conclui.

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