Jovens lidam com o isolamento através do cinema em streaming e festivais online

O mercado de streaming no Brasil cresceu durante a pandemia e os festivais mudaram sua forma de ocorrer, mas o cinema continua como uma forma de arte que melhora a qualidade de vida.

Por: Ana Gabriela Freire

O mercado de streamings no Brasil se ampliou bastante durante os meses de pandemia / Imagem: Pixabay

Após um ano e dois meses de pandemia, o isolamento social limitou bastante as opções de entretenimento dos brasileiros, devido à proibição da abertura de diversos estabelecimentos comerciais. Dentre esses, se destacam os cinemas, levando os lançamentos e festivais de filmes a se adaptarem para que ocorram de maneira segura. Um exemplo é o Fantaspoa, festival de cinema de Porto Alegre que ocorreu online este ano, além do Cinefantasy, um festival internacional, e do Curtaflix, festival de curta-metragens brasileiros. Os jovens amantes dessa arte também tiveram que mudar seus hábitos, acompanhando esses festivais online e assinando novos serviços de streaming, por exemplo. De acordo com uma pesquisa da Nielsen Brasil em parceria com a Toluna, assistir tanto filmes quanto séries através desses serviços se tornou um hábito diário para 42,8% dos brasileiros, e, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), em julho de 2020 a Netflix tinha 17 milhões de assinaturas no Brasil, ultrapassando o número de assinantes da TV a cabo. Além de tudo, as relações dos espectadores com a sétima arte também foram modificadas e ela chegou até mesmo a ajudar a enfrentar melhor o isolamento.

Para a pesquisadora e cineasta Kytta Tonetto, a maior consequência do isolamento social durante a pandemia para o mercado audiovisual foi a sedimentação definitiva dos serviços de streaming: ”Essa característica atual do streaming não veio só para a pandemia, veio para ficar, inclusive outras grandes produtoras e distribuidoras de conteúdo audiovisual nesse período trataram de viabilizar seus serviços de streaming para distribuir no mundo todo.” Ela também frisa que no futuro salas de cinema e serviços de streaming coexistirão lado a lado, já que a mudança está consolidada. Outro grande impacto da pandemia ressaltado pela pesquisadora é o da quantidade de obras que estão sendo produzidas: “Diminuiu muito o número de filmes que foram produzidos nesse último ano e quem conseguiu produzir foram as grandes empresas, que tinham como controlar o acesso das pessoas – através de testes – e também cresceu a produção mais de coisas através de câmeras de celular. A própria Globo, alguns produtos foram realizados dentro da casa das pessoas, e isso tende a se resolver com a questão da vacina. As grandes empresas dos EUA já vão começar agora as produções de novo e nós vamos retomar no Brasil quando passar a fase de vacinação.”, diz.

Dentre os jovens que acompanham o mercado de filmes no Brasil está o vestibulando Guilherme Augusto Belém. Para ele, a experiência de estar numa sala de cinema é única: “assistir um filme numa sala é muito sensorial, tanto que muitas pessoas comentam com carinho sobre a sensação de um filme acabar, das luzes no escuro e o cheiro de pipoca. O que mais sinto falta é a imersão de ser levado para outro lugar quando me sentava numa poltrona do cinema.”, destaca. O jovem também nota a importância de que os lançamentos de longas e curta metragens continuem sendo feitos mesmo no cenário atual: “é muito animador ver que produções ainda estão conseguindo ser lançadas, não só pelo fator entretenimento mas também pelos criadores que se sustentam através da arte”.

Guilherme consegue continuar acompanhando produções audiovisuais graças também aos serviços de streaming. O vestibulando conheceu um streaming americano chamado Shudder que é voltado para filmes de terror e vem prestando atenção às obras dele desde então, tendo conhecido o filme Host, um dos seus preferidos a ser lançado na pandemia, graças ao Shudder. “É um filme que me surpreendeu e foi gravado e lançado durante a pandemia, todo feito remotamente. Curto e eficaz, mostra como a criatividade ainda persiste nos tempos difíceis.”, elogia. O jovem também acompanhou festivais de forma online, como o Fantaspoa e o Mix Brasil, gratuitamente, e frisa: “é muito bom ver esses festivais num ambiente online, que numa situação presencial provavelmente eu não teria acesso.”

A universitária Charlotte Cruz, que estuda cinema, acredita que sua relação com a sétima arte foi parcialmente modificada: “acho que passei a ver mais filmes, devido ao tempo livre. Eu não costumava frequentar tanto as salas por não ter dinheiro.”. O cinema físico em questão também é considerado especial para Charlotte: “é um ambiente muito surreal, você compartilha um momento e uma sensação com dezenas de outras pessoas. Penso que essa ideia de apreciação da arte em forma coletiva nos une, mesmo que por algo intangível. Salas de cinema também são bastante confortáveis e aconchegantes, talvez mais pela energia e entusiasmo de se ver um filme em si, do que pela estrutura.” A jovem tem como serviços de streaming preferidos Netflix, Prime Video e Mubi: “Acho que o Mubi tá mais no meu coraçãozinho por ser uma curadoria bem minuciosa e específica.”, explica. O Mubi é um serviço de streaming conhecido por disponibilizar filmes de culto e bastante raros, presente no Brasil desde 2011.

Embora estejam sendo lançados filmes durante a pandemia que tratam de assuntos tensos, parte do público prefere distância desses temas. A estudante de psicologia Ana Carolina Altman afirma: “filmes sobre a pandemia me estressam, assim como os feitos durante ela. Tenho priorizado filmes antigos como forma de escapismo, lembrete de quando isso não estava acontecendo.”. A jovem, que utiliza os serviços de streaming Netflix e Amazon Prime, também reitera que filmes antigos ou de época ajudam a diminuir a angústia de estar isolada: “Ver filmes internacionais de países distantes me ajuda com a sensação de claustrofobia do isolamento, fantasio em conhecer esses países e penso em o quão grande o mundo é. Tenho uma experiência parecida com filmes antigos e de época, que me ajudam a pensar na imensidão da história humana.”

Em todas as formas que se manifesta, a arte serve para o público como consolo e alívio dos problemas do dia a dia. Com Guilherme e Charlotte, a sensação foi semelhante no que toca ao cinema. Guilherme diz que “na falta da intimidade pré-pandemia foi importante ver histórias onde ainda existe algum conforto. As paisagens limitadas da nossa própria casa podem ser substituídas momentaneamente por aquelas representadas em um filme.”, enquanto Charlotte ressalta: “A grande sacada do cinema está nessa familiaridade com o nosso mundo, retratando semelhanças, sem necessariamente ser nossa realidade de fato. É uma fuga, é um espelho, é um conforto… tudo isso junto. Assistir filmes é um passatempo incrível num momento tão caótico quanto esse.” No fim das contas, o cinema acaba se tornando um companheiro para os que estão isolados por conta da covid-19.

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