Fast Fashion: uma discussão sobre consumo consciente

As causas e consequências sociais e ambientais deixadas por um dos movimentos mais problemáticos do mercado da moda.

Por Rebeca Louise

Fonte: imagem do Google

Conceituando, fast fashion (ou simplesmente “moda rápida”) é uma jogada do mercado de alcançar seu maior e mais importante objetivo: lucrar. A expressão criada no fim dos anos 1990 veio para identificar setores da indústria que prezam pela velocidade do consumo. Original da Europa e adotada pelo Brasil, as características que compõem os produtos base desse movimento são peças baratas, de qualidade questionável e produzidas em imensa escala.

Dos motivos principais para que o brasileiro esteja refém (mesmo que se desvencilhando aos poucos) do fast fashion, um deles seria o salário mínimo. Nesse ano de 2021, assim como no ano passado, o aumento do salário mínimo não foi significativo, reduzindo o poder de compra do cidadão. Confira a explicação de Francisco Prancácio (42 anos), professor e chefe de departamento de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Piauí.

Sabe-se que a inflação já se faz presente por anos, além de que a pandemia da Covid-19 afetou diretamente a economia do país. Com isso e várias outras questões, o poder aquisitivo do brasileiro em suma decai, fazendo-o procurar por produtos dentro de seus orçamentos – afinal, o preço das roupas é o fator determinante para decidir optar pela compra, de acordo com pesquisa.

Fatores determinantes na hora da compra

Entram em cena as famosas lojas de departamento, o exemplo mais puro de fast fashion. Consegue-se brevemente analisar o estoque de lojas como Renner e Riachuelo e fazer a ligação com as características mencionadas acima: preços relativamente mais baixos do que outras lojas, de fácil acesso por se encontrarem geralmente em shoppings e centros de cidade. Mas como já dizia a física: para toda ação, uma reação.

Mão de obra escrava

Escândalos de trabalho escravo dentro do contexto de fast fashion são ordinariamente comuns. Lojas de grande referência no setor de departamento são Renner, Riachuelo e Marisa – e todas possuem seus nomes envolvidos em polêmicas de mão e obra escrava no Brasil. A fábrica da Renner, situada na zona norte de São Paulo capital, em dezembro de 2014 recebeu do Ministério do Trabalho 30 autuações (referentes a cada problema encontrado) e multa no valor de aproximadamente R$ 2 milhões de reais devido a 37 trabalhadores bolivianos (sendo 36 adultos e um adolescente de 16 anos) em jornadas longas e degradantes de trabalho.

“Apesar de terem registro em carteira, os trabalhadores viviam em alojamentos em condições degradantes, tinham descontos indevidos nos salários, trabalhavam em jornadas exaustivas, eram remunerados por produção e sofriam violência psicológica, verbal e física. Identificou-se ainda o crime de tráfico de seres humanos para fins de exploração laboral. A Renner poderá ser incluída na lista suja do trabalho escravo.”

Via Instituto Humanitas Unisinos.

Seguem seu mau exemplo as concorrentes citadas previamente; o escândalo da Riachuelo veio em abril de 2018, quando trabalhadoras fizeram um ato de protesto na avenida Paulista para explanar as más condições de trabalho as quais eram submetidas.

“A Riachuelo é alvo de mais de 2 mil ações trabalhistas, que vão de condições precárias de trabalho ao trabalho análogo à escravidão. Em uma delas, a fábrica do grupo foi condenada a pagar R$37 milhões por irregularidades trabalhistas, entre elas a jornada excessiva de trabalho.”

Via revista Fórum.

A Marisa, como a Renner, foi autuada pela exploração de, pelo menos, 17 trabalhadores bolivianos em 2007 e 2010, sendo multada em mais de R$ 600 mil reais pelo Ministério do Trabalho. Além disso, esteve envolvida na Operação Lava-Jato, ao depositar mais de R$ 3 milhões de reais para conta de doleira investigada.

As três varejistas não são as únicas a perpetuar o trabalho escravo no mundo da moda. Ter consciência dessa realidade fez com que a designer Samirames Cristiny (27 anos, Fortaleza – CE) desistisse completamente de consumir em lojas de departamento e outras variantes do fast fashion. Desde que começou a estudar sobre a exploração humana devido à indústria, Samirames compra vestimentas somente em brechós – isso quando ela mesma não faz as próprias roupas.

Fonte: Instagram

Ao ser perguntada sobre os atrativos da indústria fast fashion, ela comenta:

“O consumo de fast fashion é muito fácil, muito prático. Tem tudo dentro da loja, basta entrar, pegar e pagar barato. Ninguém pensa ‘de onde essa roupa veio’ ou ‘quem fez a minha roupa’, ninguém pensa nisso. Esse é o objetivo da fast fashion, fazer as pessoas consumirem de maneira rápida e não ligarem para o que está por trás dela. Por isso escondem todo o processo. Chegar na loja e pagar 30 reais em uma blusinha está ok. Mas não imaginam que por trás dessa peça barata teve uma pessoa que ganhou menos de 1 real para fazê-la”.

Confira vídeo publicado em rede social, Samirames fala abertamente do caos da indústria.

Questões de consumo

No estudo da indústria tecnológica usa-se um termo chamado “obsolescência programada” para referir-se à produção de aparatos tecnológicos, consistindo na crítica de que essas peças foram forjadas com o intuito de se tornarem obsoletas; assim, o mercado garante que haja alta rotatividade de consumo. No mercado da moda, é possível enxergar uma certa semelhança, uma vez que os tecidos utilizados nas confecções (como citado anteriormente) não possuem alta qualidade.

Fonte: pesquisa autoral

De acordo com a pesquisa, é possível ver que a maior porcentagem de pessoas consomem em lojas de departamento, assim como também possuem a iniciativa de comprar roupas quando as que já se tem estão desgastadas. Tudo não passa de uma jogada da própria logística do meio fast fashion para forçar a rotação de consumo – afinal, o importante para as grandes corporações sempre será o lucro, e não as consequências a seguir. Esse desgaste iminente contribui excessivamente para o tópico a seguir.

Poluição

Empregando mais de 75 milhões de pessoas ao redor do mundo, a indústria têxtil se destaca por seu alto teor de poluição. É responsável pela emissão de 10% de todos os gases estufa do planeta – ou seja, mais poluente que os transportes aéreos e marítimos combinados, segundo reportagem de 2019 do jornal Valor Econômico.

Por consumir cerca de 93 trilhões de litros anuais e responder por 20% de todas as águas residuais do mundo (contaminadas por química proveniente dos inúmeros produtos utilizados nos processos de extração e cultivo de matérias-primas para a produção de fios, tecidos e roupas), esse setor da economia assume a segunda posição no quesito poluição, perdendo o posto de primeiro lugar apenas para o ramo petrolífero. Além disso, os desperdícios têxteis resultantes da indústria da moda aumentaram mais de 800% desde a década de 60, de acordo com a Agência de Proteção Ambiental. Há, ainda, o descarte irregular de roupas em aterros no mundo, com uma média de prejuízo de 500 bilhões de dólares ao ano.

“Libera 500 mil toneladas de microfibras sintéticas nos oceanos todos os anos. As pessoas consomem, em média, 60% mais peças do que há 15 anos e cada item é mantido no armário por metade do tempo de antes. A complexa e diversa cadeia da moda no mundo é, no geral, insustentável.”

Via Valor Econômico
Fonte: Fundação Ellen MacArthur

Ademais, existem as questões ambientais voltadas para o cultivo do algodão, especialmente destinado à confecção. Estima-se que pelo menos 24% de todos os inseticidas e 11% de pesticidas fabricados destinam-se para a produção dessa fibra natural usada em 40% de todas as roupas feitas ao redor do mundo e, de acordo com a Water Footprint Network, as fazendas de algodão são as que mais consomem água no processo de cultivo.

“É um problema de muitas faces. Se, por um lado, existe a necessidade de muita terra disponível para plantio, do outro está a preocupação com os colaboradores envolvidos no processo que são expostos a produtos químicos. O uso de muitos inseticidas e pesticidas gera um efeito dominó. Com o eventual uso das substâncias, os insetos desenvolvem tolerância, o que significa a compra de mais produtos químicos. Com isso há o declínio da fertilidade do solo que é usado com exaustão e que acaba exigindo mais fertilizantes, colocando os agricultores em enormes níveis de dívida.”

Via Estadão.

Por dados tão aterrorizantes, várias marcas e empresas da indústria da moda sentiram-se pressionadas a tomar uma atitude para retardar tais efeitos da poluição causada, tentando migrar para a moda sustentável. Um porta-voz da H&M (outra rede de fast-fashion) disse, durante a Assembleia Ambiental das Nações Unidas de Nairóbi em 2019, que a intenção é deixar de usar tecidos oriundos do algodão.

Slow fashion

Como alternativa para ir em oposição ao mercado varejista, têm-se falado cada vez mais em slow fashion (ou apenas “moda lenta”), tendo princípios opostos à fast fashion. Se no meio da moda rápida o mais importante é vender, independente de qualquer fator, a moda lenta já prioriza tanto a qualidade dos produtos, quanto a questão ambiental por trás disso. Por não prezar pela produção em larga escala, esse movimento, mesmo que indiretamente, já colabora com menos desperdício de tecido e descarte irregular de peças de vestuário.

As maiores representantes desse movimento da moda seriam lojas on-line (por baixo estoque quando comparado aos varejos) e os brechós (reutilização de materiais ainda em boas condições para uso). Porém, o consumo em lojas de brechó ainda é vítima de muitos preconceitos. Em entrevista, Lays Chaves, 26 anos, conta como é administrar um dos maiores brechós de Teresina.

E: Lays, você considera que existe algum tabu no consumo de roupas de brechó?

Lays: Infelizmente ainda existe sim. Todos os dias trabalhamos pra quebrar o preconceito acerca da compra de itens usados, mostrando que eles ainda podem ter qualidade, valor e utilidade, mesmo já tendo sido usados anteriormente.

E: Você mesma já presenciou esse preconceito?

Lays: Não que eu me recorde, mas ligam muito o fato de não serem peças a R$5, R$10. Associam peças usadas/brechó a locais de venda de itens muito baratos e isso eu presenciei. Não se tem o conhecimento ainda de que existem diversos nichos de brechó, com diversos valores aplicados. Mas nunca foram mal educados comigo e nem demonstraram preconceito diretamente pra mim.

E: Entendo, então o preconceito está mais atrelado ao valor das peças, é isso? Pergunto porque já ouvi falar sobre “más energias” e “roupas de defunto” e afins.

Lays: Ah sim! Sim, ainda tem gente que não compra em brechó atrelando a esses comentários e pensamentos mesmo, mas não chegou nada pra mim assim. Sobre o preço, seria um complemento do preconceito. Mas a cada dia a gente trabalha pra mostrar o trabalhão que temos em resgatar peças de qualidade pra revender.

E: Lays, pra você, existe muita diferença entre comprar de brechó e comprar em lojas de departamento, por exemplo?

Lays: Existe! (risos). Brechó é mais honesto, a gente sabe de onde pode vir a peça, a história que envolve aquela venda, o processo legal de encontrar algo único e que você gosta. Comprando em loja de departamento a gente tem mais opções claro, mas todos os dias surgem brechós novos com diversas opções de peças. se sairmos da zona de conforto, conseguimos garimpar peças legais e do nosso estilo. A diferença maior mesmo é sobre a disponibilidade das peças, nas lojas de departamento elas estão em maior quantidade e tamanhos e o acesso é mais rápido. Mas se você quiser mudar e ter estilo único sem ninguém estar usando a mesma peça que você, é só se organizar e acompanhar os brechós do seu estilo.

E: Lays, você considera que as pessoas estão comprando cada vez mais em brechó? Suas vendas são boas?

Lays: Acredito que sim. Todos os dias tem novos seguidores e novos clientes de olho nas nossas novidades aqui. As vendas estão boas, consigo bater minhas metas mensais tranquilamente e cumprir o meu propósito de fazer a moda circular.

Um comentário

  1. […] Relacionar questões ambientais e moda é, também, falar sobre Fast Fashion (em português, “Moda…. Esse novo conceito, surgido por volta de 1990 com o barateamento da mão de obra e da matéria-prima, consiste na produção de peças com valores mais baixos e um tempo de vida mais reduzido. Ademais, o Fast Fashion também anseia acompanhar as tendências do momento, o que acarreta numa desenfreada produção e, consequentemente, mais descarte. Estima-se, segundo dados da Prefeitura de São Paulo, que 170 mil toneladas de resíduos têxteis sejam gerados anualmente no Brasil. Pelo menos 40% desses resíduos são reprocessados por empresas recicladoras, enquanto os outros 60% são descartados em aterros sanitários. […]

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