O movimento punk de Teresina

Por Eric Medeiros e Luiz Miranda

Desde o surgimento do Grito Absurdo, considerado o primeiro grupo punk de Teresina, em meados da década de 80, veio se consolidando nas periferias, subúrbios e casas de shows da cidade uma forte cena underground que vai do mais agressivo Hardcore (no melhor estilo “Califórnia Brasileira”) até o mais sujo Punk Puro, passando pelo Crossover, Grindcore, entre uma gama diversa de possibilidades musicais. No entanto, por mais que a resistência e perseverança dos integrantes dessa cena mostre que vieram para ficar e expor suas pensamentos e ideais, a sociedade teresinense parece ainda não estar preparada para compreendê-los.

O baixista da banda Banheiro de Rodoviária, Carniça, ao ser questionado sobre como a sociedade teresinense enxerga o movimento punk, responde:

“Eu acho que a sociedade teresinense nem pensa no punk (risos). Se pensa, eu acho que vê de uma forma ruim. Eu acho que as pessoas daqui que não fazem parte da galera alternativa (‘vamo’ dizer assim) tem a cabeça muito fechada, não se interessa muito por nada diferente demais do habitual, ‘tá’ nem aí para as questões sociais, acha perda de tempo, não acompanha nem o que o governo daqui faz com a cidade.”

No entanto, recentemente, tem acontecido uma explosão de bandas no município bastante sintonizadas com os problemas que sempre assolaram a nação brasileira, como o aumento das desigualdades sociais, a constância dos casos de violência policial, além de discussões extremamente atuais, tal qual o ressurgimento do fascismo no país a temas altamente delicados como o bullying, depressão e ansiedade. “O momento político do Brasil e do mundo pede com urgência a força da contestação punk” afirmam integrantes da Cianeto HC, uma das bandas mais importante no cenário hardcore atual de Teresina.

“O punk, assim como outras tribos (como o rap), é um espaço para que pessoas que se sentem fracassadas, oprimidas e financeiramente exploradas possam se expressar e lutar contra um sistema que te induz a falhar todos os dias. Eu acredito que apesar do preconceito que ainda é muito evidente (como é sobre tudo aquilo que é produzido na periferia), aos poucos a mentalidade também começa a mudar. Gosto de pensar em nossas produções como um germe de um pensamento descolonizado que germina e que gera uma mudança silenciosa.”

Banda Cianeto HC. Fonte: Internet

Porém, por mais que a cena tenha sofrido um considerado aumento de bandas em atividade ela ainda tem dificuldade em “sobreviver até mesmo no underground”, afirmam integrantes da banda Escrotos. Sobre isso a Cianeto HC, expõe:

“O problema mais grave que eu vejo, (além dos reacionários) é a de que existe uma “competição” no underground. Se as bandas querem sobreviver aos perrengues do capitalismo precisam permanecer unidas e não arrumar picuinhas desnecessárias. Tem punk que se acha dono do conceito porque tem mais visual ou chuta latas de lixo mais longe do que qualquer um. Acredito que o punk se faz na rua, mas também em qualquer outro lugar, é uma filosofia de vida que procura um pensamento livre de uma hegemonia branca, eurocêntrica e masculina.”

Ao ser questionada, sobre se a facilitação do acesso à internet aumentou a procura e divulgação dos materiais das bandas na capital, o grupo rebate:

“É difícil dizer com exatidão. É claro que o acesso à internet democratizou o acesso. Os streamings nos conectaram com o outro lado do mundo. Mas também nos deixaram mais sedentários e sonolentos. Tem sido mais difícil militar e trocar experiências pessoalmente. As pessoas ficam naquela: porque sair de casa e acompanhar um show, se posso ouvir no conforto dos meus fones de ouvido? De fato, as fronteiras são cada vez menores, ao passo de que nossas relações ficaram menos “pessoais”, menos “humanizadas” com a internet. Não consigo projetar até que ponto essa globalização é positiva de fato.”

Chakal, integrante da banda Obtus. Fonte: Internet

Uma das maiores personalidades do punk teresinense é o músico Chakal Pedreira, que integrou diversas bandas da cidade e atualmente faz parte da Obtus, banda mais influente da cena punk da capital. Dono de um grande acervo da história do movimento, ele já tocou em diversas capitais do nordeste com a Obtus.

Quando perguntado sobre o que mudou no movimento nos últimos anos, Chakal responde:

“O movimento hoje continua expondo sua proposta tanto através de bandas como através de fanzines e redes sociais. Esse momento crítico em que vivemos esse “fascismo” e alienação em massa, as bandas e pessoas do movimento expõem suas ideias aproveitando esses meios. Tem uma galera que sempre tá produzindo e jogando na rede material tanto audiovisual como textos. Sempre tem uma nova geração que trás características peculiares tanto na música como na ação.”

Teresina já possui bandas com mais de 20 anos de carreira, além de várias que já estão se consagrando na cena local, dentre essas estão por exemplo: a já citada Cianeto HC, Obtus, Banheiro de Rodoviária, Escrotos, Rg-00, Grito Absurdo, Kandover, Garoto Androide, Pancreatite Noise, Kálifa, Resistência Libertária, Mordedura, Aloha Haola, entre outras. O material delas pode ser encontrado facilmente tanto nas redes sociais, como Youtube e Spotify.

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