Endividamento Familiar, o problema crônico que afeta milhões de brasileiros.

Por Izaura Martins e Tatiele Sousa

Foto: Tatiele Sousa

No início do ano, é comum o consumidor tirar mais dinheiro do bolso. As dívidas que batem à porta geralmente são: Imposto sobre a propriedade de veículos automotores (IPVA), Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), material escolar, além das dívidas do ano que se passou, como alguma reforma na casa e presentes de fim de ano. E isso sem contar as despesas rotineiras, que permanecem no decorrer do ano, como as contas de luz, água e claro, o que se gasta para comprar os mantimentos de necessidade do mês, como alimentação e itens de higiene.

Caso não tome cuidado, o indivíduo pode não fechar a conta e se endividar. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de dezembro de 2020 realizada pela Confederação Nacional de Bens e Serviços e Turismo (CNC) constatou que 66,3% dos consumidores estavam endividados. (https://noticias.r7.com/economia/duas-em-cada-tres-familias-tem-dividas-aponta-pesquisa-06012021)

 Essa estatística representa um aumento de 0,3 ponto percentual em relação a novembro do ano passado e de 0,7 ponto sobre dezembro de 2019.

A autônoma Margarida Pereira faz parte dessa porcentagem e revela que não conseguiu controlar os gastos:

“O momento que vi que estava endividada foi quando parei para analisar as contas e o tanto que recebia. Principalmente, depois que o auxílio emergencial acabou… aí os prejuízos vieram: contas atrasadas, os juros, problemas até na saúde mental, pela preocupação. Pois fico muito estressada quando estou com muitas contas.”

Margarida Pereira conta que pretende mudar com relação ao seu gerenciamento financeiro:

“Quando eu pagar o que está pendente, vou ter mais cautela, comprar o básico e necessário. Sem exagero para não voltar ao endividamento. Pretendo até economizar, pois é uma forma de se assegurar se tiver problemas futuros além de não ter a necessidade de comprar fiado. Não quero acumular mais dívidas.”

A faixa azul leva em consideração quem recebe menos de dez salários mínimos, já a amarela representa quem recebe mais que dez salários. Os dados são da Confederação Nacional de Bens, Serviços e Turismo- CNC.

Em contraste a esse cenário, o supervisor de operações Eliezer Sousa conta tomar cuidados com as despesas e explica o motivo de sempre trazer as contas em dia:

“Bom, a estratégia para não ficar devendo é você comprar apenas o que precisa, a gente deve comprar o essencial para a sobrevivência… e o dinheiro que sobra você pode fazer um investimento. Eu sempre fui muito cuidadoso, por isso nunca me aconteceu nenhum episódio em que eu fui pego de surpresa, pois é melhor você ter e não precisar, do que você precisar e não ter […] a parte mais importante de quem cuida do seu orçamento, é você ter a segurança de que quando você precisa de um valor, ele vai estar disponível para você, sabe.”

Com relação ao endividamento, o economista e consultor empresarial Jusselino Correia diz que as raízes desse problema são oriundas de elementos comportamentais subjetivos:

“Uma parcela expressiva da população se endivida por que cede aos apelos do mercado! Todos os dias somos bombardeados pela propaganda e publicidade, incentivada em adquirir produtos e serviços, inclusive aqueles que estão além da nossa capacidade de pagamento […] nós vivemos em uma sociedade marcada pela aparência e consumo. As pessoas constantemente são estimuladas a comprar e consumir.”

Foto: Tatiele Sousa

Quando o assunto é problema financeiro, muito se fala em inadimplência e endividamento. Mas, as duas expressões carregam significados diferentes. Entenda a distinção:

 Endividado ou Inadimplente?

Os termos podem até ter o mesmo princípio, as dificuldades financeiras, mas as situações são diferentes.

O endividado é a pessoa que faz contas e possui a intenção de pagar, mas que em algum momento, por diversos motivos, se vê impossibilitado de quitar seus débitos. Isto é, o consumidor possui a tendência de quitar suas dívidas, mesmo que não seja de forma imediata. A inadimplência, por sua vez, acontece quando o consumidor não consegue mais pagar suas contas em dia, ocasionando uma avalanche de compromissos financeiros não quitados e por fim o nome no mercado de crédito negativado, o já conhecido, nome sujo.

Imagem: Reprodução site Pixabay

Em relação ao País

No Brasil, na categoria endividamento, as regiões onde essa situação é mais frequente são Norte e Nordeste. Elas estão entre as localidades que têm as taxas mais elevadas de famílias endividadas hoje, segundo a Radiografia do Endividamento realizada em 2020 pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP).(https://www.fecomercio.com.br/noticia/familias-do-norte-e-do-nordeste-sao-as-mais-endividadas-do-brasil-mostra-pesquisa-da-fecomerciosp)

Em ambas as regiões também foram registradas grandes porcentuais de famílias com contas em atraso e de rendimento mensal comprometido para pagar dívidas. A capital piauiense, Teresina, ocupa a terceira posição com 39% na lista das capitais brasileiras com maior comprometimento mensal da renda para quitação de dívidas.

Os dados dessa pesquisa referem-se a todo o Brasil e compara os meses de dezembro, dos anos de 2019 e 2020.

Em contrapartida, o Piauí aparece em último lugar e abaixo na média nacional em inadimplência. O total de inadimplentes, pessoas com contas em atraso e o nome sujo, ficou em 63,8 milhões em novembro de 2019, conforme a última divulgação pelo Serasa Experian em janeiro de 2020.  Enquanto a média nacional foi de 40,9%, ou 63,8 milhões de pessoas, o Piauí tem pouco mais de 780 mil pessoas com contas atrasadas e negativadas.

Comerciante há doze anos e proprietária de uma venda de alimentos, Maria José Silva fala que já passou por problemas financeiros muito sérios, porém sempre tomou cuidados para não cair na inadimplência:

“Eu sempre anoto tudo que vou comprando e tento ter controle de tudo, não tenho cem por cento, mas procuro fazer. E esse ano que se passou (2020), foi um ano muito difícil para evitar fechar as portas de vez, então reduzi as compras, passei a adquirir quantidades de mercadoria poucas e pagando à vista. Saí do boleto, porquê tem muito juros e passei a trabalhar com alguns fornecedores através da promissória, nela, eles não cobram juros ai fica mais fácil da gente negociar.”- frisou.


Os dados da pesquisa realizada pelo Serasa, atestam que o PI está entre os estados que menos paga o cartão de crédito com pontualidade.

O que fazer para evitar a inadimplência, quais suas causas?

O economista Jusselino Correia traça algumas orientações para controlar os gastos e aliviar as dívidas:

  • Não se deixar levar pelos apelos do mercado e reprimir esse consumo, ou poupar e no futuro efetuar essa compra de forma segura;
  • O ideal, é que cada pessoa consuma produtos que se enquadrem na sua faixa de renda. Então se eu sou da classe C, os preços de meus produtos vão ser compatíveis com minha renda, assim, só vou comprometer meu ganho com o que posso;
  • A oferta de crédito também pode ser vista como um vilão para a perda de controle do consumidor. Muitas vezes ela não é proporcional a sua remuneração, o valor do crédito geralmente é muito superior ao seu ganho. Isso pode ser visto como agravante;
  • Para evitar o comprometimento da renda, o melhor a se fazer, é optar por compras a vista e sempre que possível solicitar um desconto.

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