Duplo Isolamento

Jovens LGBT+ que deixaram a casa da família durante o isolamento social.


Sabrina Alana e Izaura Sindel

Com a chegada da pandemia, todos nós, humanos, fomos forçados a largar nossas rotinas diárias e permanecer em casa. Mas se por um lado somos todos humanos sob uma ameaça invisível que nos assola como espécie, por outro, somos infinitamente diferentes. E para alguns, o isolamento é mais severo e implica impactos maiores.

O isolamento social fez mais que afastar as relações, sob o mesmo teto, famílias repletas de entes desconhecidos, lutam ao enfrentar uma convivência antes suavizada pelo dia-a-dia individual de cada um.  Para a comunidade LGBTQIA+ o isolamento criou uma atmosfera potencializadora de abuso e violência psicológica. Dentro de famílias que foram obrigadas a conviver 24 horas por dia, jovens LGBTQIA+ se isolam dentro de si.

Segundo o psicólogo, Railan Silva estes conflitos já eram esperados em virtude da mudança drástica na convivência.

“Em qualquer sistema, qualquer grupo, há conflitos, mas dentro do ambiente familiar nesse sistema de isolamento, em que as pessoas precisavam estar ali cotidianamente, as pessoas tiveram questões emocionais, que afloraram de uma forma muito mais intensa, então vieram crises de ansiedade, conflitos nos relacionamentos, depressão, ideações suicidas, entre outros aspectos psicológicos que tomavam a proporção maior pelo modo como as pessoas estavam lidando com a vida naquele momento.”

Fonte: Coletivo #VOTELGBT

De acordo com uma pesquisa realizada pelo coletivo #VOTELGBT no final do ano passado, oito em cada dez pessoas que responderam a pesquisam afirmam terem tido consequências na saúde mental durante o isolamento social. A pesquisa entrevistou mais de 9mil pessoas LGBT+ em um questionário com cerca de 50 perguntas. Deste número, 10,91% afirmaram que o maior impacto que o isolamento social gerou foi o declínio da relação familiar e 54% afirmaram acreditar que precisam de acompanhamento psicológico. Além disso, um em cada dois LGBT+ entre 15 e 24 anos, indicaram saúde mental como maior problema do isolamento.

O impacto sobre esta minoria é tão notável, que após o início da conduta de isolamento adotada em todo o mundo, a ONU (Organização das Nações Unidas) emitiu um pedido aos países, que cuidassem da população LGBT+ local. Isso por causa da previsão no aumento de abusos e violência doméstica, além do afastamento dessas pessoas do seu grupo de apoio que muitas vezes se encontra fora do núcleo familiar.

Diante da situação de lidar com a família em tempo integral, muitos jovens optaram por sair de casa durante a pandemia. Esse é o caso de K., jovem de 26 anos que deixou a casa da família e relata a realidade dessa vivência.

Pra falar dos motivos que me levaram a sair de casa eu preciso situar alguns acontecimentos anteriores. Desde muito cedo eu entendi que a minha família era minha mãe porque eu não podia contar com quase mais ninguém. Meu pai nunca foi presente, pagou tardiamente por alguns anos de pensão, obrigado pela justiça e só. Apesar de muito próximo da minha mãe eu nunca me senti confortável pra me abrir com ela sobre a minha sexualidade, isso se deve também ao fato de que ela já demonstrava ser pouco aberta pra essas questões, de forma resumida quando conversamos sobre isso, eu ouvi um eu te amo, mas não te aceito. Um sentimento muito forte que ficou daí, foi que eu entristecia e envergonhava ela e eu vivi por um longo período esse conflito, como me sentir amado se minha mãe vive constantemente pedindo pra eu ser quem eu não sou? Como retribuir esse amor se eu sou tudo aquilo que ela não aceita? Ou seja, não dava pra ser feliz com uma responsabilidade dessas nas costas.

Eu sinto que só me tornei uma pessoa mais feliz me permitindo ser de forma mais aberta quem eu realmente sou, quando eu saí de casa. Não posso negar que as vezes as coisas ficam difíceis bate um desânimo e uma vontade de desistir mas no fim das contas o que sobressai é o meu desejo de continuar meus estudos, conquistar minha estabilidade financeira e amar quem eu quiser amar sem precisar ter que me expor à homofobia da família.

K. 26 anos, sobre deixar a casa da família.

O caso de K. não é isolado. A vivência num ambiente tóxico incentivou jovens a se aventurarem em meio à COVID19 em busca de sanidade mental e paz como relata o jovem de 20 anos A.

“Desde que eu era criança os meus pais já percebiam que eu era uma criança diferente mais afeminada e tal. E aí com 15 anos eu falei pra eles que eu era gay e a minha relação com eles começou a piorar a partir daí, mas já era bem ruim porque eles viviam me podando, eu não podia sair direito, minha vida era controlada, eu não podia namorar. E aí a gente começou a brigar muito em casa, inclusive, agressão verbal e física. Eu acabei que não queria mais, eu estava tendo um quadro de depressão e ansiedade que estava sendo agravado por causa dos meus pais e aí eu resolvi me desligar”.

Segundo o Governo Federal, os números de violência doméstica cresceram durante a pandemia, as ligações ao 180, número de telefone para denúncias de violência doméstica ou contra a mulher, mostram esse aumento. No entanto, não existem dados específicos sobre a violência doméstica à comunidade LGBT+.

Fonte: Agência Brasil

A saída de casa não é fácil, diante do colapso instaurado na política nacional, e frente à pandemia, os jovens que fugiram do ambiente agressivo caem em águas desconhecidas, e terminam por construir um grupo de apoio na rua. Esse foi o caso de A., que praticamente deixou a casa dos pais e atualmente mora com alguns amigos.

“Como eu tinha e ainda tenho medo da reação dos meus pais, eu nunca saí assim de casa de verdade, eu só comecei a me distanciar, comecei a sair e passar um dia fora de casa, depois uma, duas semanas, e agora eu não piso mais em casa. Eu faço visitas na minha casa, e as pessoas da minha casa ainda acham que eu moro lá e que eu estou visitando aqui. Hoje eu ainda recebo algum dinheiro dos meus pais, eu faço  também um trabalho informal, um bico de aulas particulares de matemática, estou procurando um emprego formal, estou morando com meus amigos e meu namorado são eles que me ajudam.

Então foi bom ter saído, mesmo com as dificuldades. Mas eu acho triste precisar sair, acho triste ter precisado chegar a esse ponto.

A. 20 anos, estudante.

As políticas direcionadas à proteção da população LGBT no Brasil são escassas e se encontram quase que completamente invisibilizadas desde o início do governo Bolsonaro. Nas principais cidades, existem coletivos e grupos de apoio que auxiliam pessoas LGBT em situações de vulnerabilidade. No entanto nas milhares de cidades no interior brasileiro, jovens LGBT sofrem diariamente agressões emocionais, psicológicas e físicas. Muitas vezes almejando a saída de casa muito cedo. De acordo com Railan, que atende clinicamente e também participa do Projeto Vidas LGBTQIA+, a violência que chega a estas pessoas por vezes é sstil, mas acarreta um quadro crescente de violência social.

 “Apesar de recentemente nós termos legislações que protegem a população LGBTQIA+ a partir da decisão do supremo tribunal em relação a lei do racismo, mas há muitas violências intra-familiares que não chegam nesses dispositivos, e a violência psicológica muitas vezes é sútil. Um comentário homofóbico ou transfóbico ele acontece de uma forma muito sútil e muitas vezes as pessoas estão dependendo financeiramente, então vem uma violência patrimonial, vem uma violência de ordem física até, mas pra chegar nesse ponto, já aconteceu muitos aspectos antes, então pra essas pessoas saírem dessas relações não é tão fácil, é a família é onde era pra ser o lugar de segurança delas. E com isso revelar uma orientação sexual, assumir um relacionamento pode acarretar numa expulsão de casa. Muitas pessoas nesse momento não tinham pra onde ir, as casas de acolhimento tavam lotadas, aqui no Piauí por exemplo nós não temos casas de acolhimento pra pessoas LGBTQIA+ especificamente. Mas essas pessoas precisam ser acolhidas por ONGs por movimentos sociais e ser ajudadas com cestas básicas entre outros aspectos pra se manterem vivas. A gente tem uma política de morte contra essas pessoas que não conseguem ter segurança nem dentro da própria família. […] As pessoas tem o direito de serem como são, o que a gente tem como pesquisa é que a transfobia, lgbtfobia como um todo, acarreta muitos efeitos psicológicos como depressão, crises suicidas entre outros aspectos, então o que precisa mudar é o preconceito e a discriminação e não as pessoas que precisam se adaptar ao desejo de que as pessoas sejam héteros e sigam uma norma social que tá imposta a séculos. A sociedade mudou e as pessoas precisam entender isso.

Duplamente isolados, isolados da rua e isolados de si, o número de lgbt+ em busca de novos rumos e existências cresce. A vista da sociedade refugiados procuram lares onde deixem de ser uma estatística que não se torna um dado utilizável.   

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