A (re)ascensão do movimento antivacina

Negacionismo e desinformação atrapalham o processo de imunização em curso.

Por Sabrina Alana e Izaura Sindel

Fonte: Freepik

Nos últimos dias, diversos países anunciaram o início de estratégias de vacinação visando imunizar suas populações contra o surto de Covid-19 que submergiu o mundo em uma pandemia, criando caos na saúde mundial e na economia. As muitas vacinas cotadas como boas concorrentes ao mercado, são fruto de estudos intensificados e massificados ao redor do globo, em um esforço para reverter a pandemia. Do outro lado desta moeda, grupos antivacina se tornam cada vez mais populares. Alimentados por desconfiança de políticos, oposição às regras do governo e teorias da conspiração, o movimento tem ganhado espaço principalmente na internet, onde a desinformação tem sido um inimigo difícil de combater.

O movimento antivacina não é novidade. No ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou uma lista em que o movimento antivacinas constava como umas das dez maiores ameaças à saúde mundial. De lá pra cá, o número de pessoas com confiança nas vacinas caiu de forma preocupante.

Manifestante contra vacinação durante protestos na cidade de Stuttgart, na Alemanha.

No Brasil, o movimento tem ganhado apoiadores que questionam desde a eficácia das vacinas até as intenções escondidas na vacinação em massa. O clima de polarização política agravado pela pandemia e eleições trouxe com ele desinformação em larga escala a respeito das vacinas, atualmente em fase de testes.

“Eu não tomo essa vacina nem qualquer outra que seja criada pra combater o Coronavírus. O Coronavírus não é isso, não é esse assassino”, acredita Luiz Carlos, 51 anos, que é designer gráfico e reside em Teresina. Na opinião de Luiz, a vacina é uma fraude e não trará nenhum benefício à saúde: “Não vejo sentido nesse vírus.”

Luiz não é o único a associar a vacina a fraudes e planos governamentais de controle da população. Nos últimos meses, a internet foi bombardeada com dezenas de notícias falsas a respeito das vacinas, desde falta de eficácia e efeitos colaterais maléficos, até nano chips que seriam instalados em humanos através das vacinas vindas da China.

No dia 8 de dezembro, o Prefeito de Teresina, Firmino Filho, comunicou por meio do Twitter que estava em negociações com João Dória, governador de São Paulo, para adquirir a nova vacina assim que possível. No post, embora a maioria dos comentários fossem positivos, alguns usuários apareceram para criticar a iniciativa.

Print de tuítes na conta oficial do Prefeito de Teresina, Firmino Filho. Fonte: Twitter

A médica Sâmia Nascimento, por outro lado, chama a atenção para a importância e necessidade das vacinas. “A vacinação é uma das principais formas de prevenção das doenças, sendo assim, ao vacinar-se o indivíduo protege não só a si, mas também a toda sociedade, pois ele evita a propagação das doenças. Antes de serem disponibilizadas para a população as vacinas passam por diversos estudos científicos e testes para comprovar sua eficácia e segurança. Além disso, também são fiscalizadas e monitoradas por órgãos públicos, respaldando ainda mais o seu uso. Então ao vacinar-se o indivíduo reafirma seu compromisso não só com sua própria saúde mas também com a saúde do coletivo. Apesar das conquistas já alcançadas com a vacinação que erradicou doenças como a Poliomielite no Brasil, existem alguns grupos que são contrários ao uso das vacinas alegando que elas podem causar malefícios ao corpo humano, o que já foi comprovado cientificamente que não é verdade. Além disso, a propagação de fake news sobre o uso da vacina só prejudica a saúde da população e causa o retorno de doenças que há anos não havia no país. Ao se vacinar o indivíduo protege além da sua saúde a saúde das outras pessoas pois ele evita a propagação das doenças, sendo assim, é extremante importante seguir o calendário vacinal e comparecer às campanhas de vacinação.”

O crescente movimento antivacina está se alastrando por muitos países. Recentemente o The Lancet publicou um relatório demonstrando o crescimento da descredibilidade das vacinas pelo mundo todo. O resultado demonstrou que houve redução drástica da confiança das pessoas na vacina, inclusive no Brasil, onde as vacinas foram quase sempre bem recebidas devido aos programas de conscientização e a disponibilidade das vacinas pelo SUS (Sistema Único de Saúde).  Os dados do relatório são preocupantes, pois o crescimento do movimento pode afetar a imunização do mundo inteiro e das próximas gerações.

A grande maioria dos governos têm trabalhado em campanhas para incentivar a vacinação e restabelecer a confiança dos cidadãos nas vacinas. No Brasil, o Presidente Jair Bolsonaro, se mostrou contrário às medidas de combate à desinformação e têm atrasado o início dos planejamentos para imunização da população. Em entrevista ao Brasil Urgente (Band), nesta terça-feira (15), o Presidente afirmou que não irá tomar a vacina. “Eu não vou tomar vacina e ponto final. Minha vida está em risco? Problema meu”. Na mesma entrevista, Jair Bolsonaro garantiu que está liberando uma verba de R$ 20 bilhões de reais para aquisição das vacinas, mas pediu responsabilidade aos cidadãos que decidirem tomar, alegando que os fabricantes não se responsabilizam por efeitos colaterais, e por fim, tornou a defender o uso da hidroxicloroquina.

“Alguns falam que não tem comprovação científica… Eu sei disso, mas não tem contraindicação. Está aí a disposição, pegou, toma”

Jair Bolsonaro, presidente do Brasil, sobre a hidroxicloroquina.
Protesto em São Paulo contra a vacina adquirida pelo governador João Dória. Fonte: Exame

Os apoiadores do Presidente Jair Bolsonaro são maioria entre os adeptos da nova onda antivacina, além de serem agentes de propagação das mais variadas teses contra vacinas. Lotam as redes sociais de críticas aos métodos científicos, pintam cartazes e vão as ruas em protesto contra a vacina que sequer chegou.

No último dia 17, o Supremo Tribunal Federal (STF) votou por tornar obrigatória a vacina que irá chegar para combater o novo coronavírus, para a maioria dos ministros votantes, um indivíduo não deve ter a opção de livre escolha quando o tema trata da saúde pública coletiva. Com esta decisão, a vacina deve trazer sanções para aqueles que se recusarem a receber imunização. A votação terminou com dez votos favoráveis e apenas um contra. Nesta mesma votação também ficou decidido que municípios e estados terão autonomia nas medidas de imunização.

Nenhuma medida contra o novo coronavírus está tão próxima quanto as vacinas, mas a luz no horizonte parece estar sendo bloqueada por nuvens carregadas de negacionismo, teorias conspiratórias e fake News. Na maior crise dos últimos tempos, o inimigo parece ser a desinformação.

A vacinação já começou em alguns países. Para outros, a previsão é apenas para o próximo ano. O Brasil ainda está em negociação para aquisição das vacinas. Até o momento nenhum esforço de vacinação em massa começou a ser planejado no país, exceto pelo estado de São Paulo. Ex-presidentes e grandes figuras nacionais já se ofereceram para tomar a vacina em frente às câmeras, numa tentativa de inspirar confiança na vacina. Os rumos de recuperação da pandemia no cenário mundial e local ainda permanecem turvos frente ao caos conspiratório e polarizado que se mantém. Embora a vacina esteja próxima, ainda existe muita falsa informação pra rebater e um longo caminho pra restabelecer a confiança na ciência que alguns grupos parecem ter abandonado enquanto pintavam bandeiras e cartazes políticos.

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