O dilema do antifascismo virtual

Em um ano marcado pela pandemia, as manifestações antifascistas ganharam força e engajamento nas redes sociais.

Por Eric Medeiros e Luiz Miranda

Imagem: Internet

Em meados de junho deste ano de 2020, o Brasil observou um fenômeno virtual singular: o súbito aumento de perfis se denominando antifascistas nas redes sociais. O motivo dessa ação veio principalmente por influência dos protestos de cunho antifascistas efetuados nesse mês em decorrência do crescimento da extrema direita nos últimos anos e do assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. Porém, por mais que o movimento Antifa exista no Brasil desde a Era Vargas, seu significado ainda parece permanecer desconhecido pela maioria da população e até pelos que se consideram simpatizantes da causa.


Os principais agentes da popularização desse tema nas redes sociais são tanto a organização Black Lives Matter, quanto os protestos a favor da democracia e contra o governo de Jair Bolsonaro. Além do coletivo ‘Entregadores Antifascistas’, que emergiu entre o pico da pandemia e as manifestações pró-democracia. No entanto, o movimento antifascista surgiu durante a Primeira Guerra Mundial em oposição aos governos autocratas da época.


Porém, foi só na Segunda Guerra Mundial que o movimento se consolidou, inicialmente, como uma resposta ao fascismo de Mussolini e ao Nazismo de Hitler. Dessa forma, o antifascismo se pautou principalmente através de duas bandeiras: a do comunismo e a do anarquismo, que, inclusive, estão representadas em um dos símbolos que se popularizaram nas redes, sendo a bandeira vermelha para comunismo e a preta para o anarquismo (variando entre as posições de acordo com qual ideologia o indivíduo está mais alinhado).


O Portal Luneta entrou em contato com alguns simpatizantes virtuais do movimento Antifa para perguntar acerca de sua relação com tais movimentos. Mas o que se percebeu é que uma grande parte desses entrevistados não simpatizavam ou, ao menos, conheciam a ligação do comunismo e anarquismo com o movimento antifascista.

A professora e doutora em História Social, Marylu Alves de Oliveira, da UFPI, esclareceu se há como se posicionar antifascista sem simpatizar com ambas as ideologias.

“Isso gera uma compreensão muito reducionista do antifascismo enquanto
movimento. Existe como tradição na Europa, em decorrência das tradições nazistas e fascistas, o movimento Antifa que tem como principais articuladores: comunistas e anarquistas; mas também compõe um grupo de social democratas que aceitam o capitalismo como uma forma de organização social. Não é um movimento único de comunistas e anarquistas.”

Seguindo essa narrativa, atualmente muito se popularizou a ideia de que não basta
apenas não ser racista, tem que ser antirracista. Ao ser questionada se esse conceito não
se aplicaria também ao antifascismo, a professora pontua que:

“Seria o mesmo princípio. (…) O fascismo implica a ideia de eliminação de
determinados grupos, que existem ideias que devem ser erradicadas totalmente da
sociedade. E isso vai contra até a ideia de democracia. (…)Eu acredito que ser
antifascista é uma postura coerente com quem acredita que a democracia ainda é um valor importante para a sociedade. Então não basta não ser fascista, é preciso também ser antifascista.”

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