Desigualdade digital: reflexos na educação básica pública do Piauí em 2020

OS DESAFIOS DO ENSINO REMOTO EM TEMPOS DE PANDEMIA

Por Tatiele Sousa e Izaura Martins

Foto: Tatiele Sousa

Com a pandemia, veio também a necessidade de se readaptar e se isolar fisicamente para conter a proliferação do novo coronavírus. Diante dessas circunstâncias, as escolas tiveram de fechar as portas para evitar aglomerações e maiores danos à saúde da população.

No estado do Piauí, desde o dia 19 de março deste ano (2020), cerca de 228 mil estudantes da rede pública estadual estão com as aulas presenciais suspensas. Apesar da distância entre professores e estudantes, 195.790 alunos tiveram acesso aos conteúdos por meio de aulas on-line ou atividades impressas, é o que afirma a Secretaria de Estado da Educação (SEDUC). A análise leva em consideração as 656 unidades escolares estaduais espalhadas nos 224 municípios do Piauí. Por outro lado, cerca de 32.210 alunos ficaram de fora das transmissões de aulas online.

Evasão escolar, queda no rendimento dos alunos e falta de recursos para acessar as aulas, esses são apenas alguns problemas enfrentados pelos estudantes da rede pública diante da modalidade de ensino remoto.

Em relação a esse contexto, uma estudante da esfera pública estadual do Piauí que prefere não ser identificada, revela:

“Para que os alunos tivessem alguma aula, tinha que ter pelo menos internet. Lembrando que nem governo, nem escola disponibilizaram isto a nós, sempre fui uma aluna nota 10, mas esse ano na escola fiquei enfraquecida por conta disso. Falaram que os alunos que não tivessem acesso poderiam ir pegar na escola, mas não podemos esquecer que estamos com uma doença invisível, desconhecida, que na época estava em pico.”- comentou a jovem.

Além do corpo discente, quem ministra as aulas também sente algumas limitações por falta de suporte. O professor da rede estadual de ensino do Piauí, Michael Jackson Amorim revela algumas dificuldades enfrentadas por ele:

“Como professor, a gente não teve nenhum tipo de treinamento para encarar essa nova modalidade, tudo foi muito novo e jogado pra gente, sem de fato passarmos por nenhum tipo de critério. No decorrer das aulas que fomos conseguindo desenvolver uma logística, uma mecânica e uma forma de se trabalhar com essa nova realidade… nem sei dizer quantos desafios nós tivemos. A ferramenta que a gente utilizou foi basicamente o computador, celular, as redes sociais, criação de vídeos, mandando áudios, fazendo pdf’s e tirando fotografias de atividades e mandando, assim foi a nossa forma de conduzir nossas aulas e a coisa foi se desenrolando. Ao meu ver, essa maneira cria um distanciamento cada vez maior na relação entre professor e aluno” – relatou o professor.

Nesta perspectiva, essa conjuntura escancarou desigualdades, e uma delas é a digital. No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em 2019, cerca de 22,4% dos mais de cinco milhões de inscritos disseram não ter acesso à internet. Isso corresponde a aproximadamente 1.140.500 estudantes, como informa o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). (https://g1.globo.com/educacao/enem/2020/noticia/2020/07/07/a-cada-quatro-candidatos-ao-enem-2019-tres-declararam-nao-ter-acesso-a-internet-apontam-dados-do-inep.ghtml)

Um levantamento realizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) atesta que seis milhões de estudantes brasileiros não têm internet em seus domicílios, o que prejudica ainda mais o acompanhamento das aulas remotas. Os dados são baseados na pesquisa da Pnad Contínua de 2018 feita pelo IBGE. (https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/educacao/audio/2020-09/seis-milhoes-de-estudantes-nao-tem-acesso-internet-em-casa)

Reprodução IBGE

Algumas das populações sentem os impactos negativos da exclusão digital no ensino remoto de forma mais acentuada, são elas os negros e os pobres, é o que afirma o cientista social Marcondes Brito. Ele explica o porquê disso:

“Historicamente elas são as populações mais excluídas economicamente; então ter disponível não quer dizer que você tem acesso. Ter um celular é diferente de dizer que você pode acessar plataformas de conteúdos de conhecimento. As desigualdades sociais também geram desigualdade digital. Inclusive há várias pesquisas que revelam estes resultados; elas têm apontando que as desigualdades sociais implicam diretamente nas desigualdades digitais de acesso. Então se a população negra é mais vulnerabilizada, mais empobrecida e sofre mais com as desigualdades sociais, é evidente e lógico que ela também vá sofrer com desigualdades digitais, é de uma lógica perversa, mas lógica.”- concluiu.

Há diferentes níveis de desigualdades digitais, que vão desde a falta de aparelhos tecnológicos como computadores e celulares, até a ausência ou má qualidade da internet. E ainda, os níveis de acesso e graus de limitações, como por exemplo o caso das zonas rurais, onde os alunos também tiveram as aulas presenciais suspensas e migradas para a internet. É indiscutível que essas limitações interferem no rendimento e desempenho dos alunos no processo de aprendizagem.

Com relação aos alunos que possuem o mínimo, como internet e alguma ferramenta que possa usar para estudar e acompanhar as aulas, a pedagoga Káryta Lima reflete que diante desse cenário, algumas ações são válidas para tentar mitigar algumas dificuldades por parte dos estudantes:

“O aluno que tem suporte, o que ele pode fazer para melhorar o processo de aprendizagem? -Olha, ele pode buscar na internet, livros, resumos, mapas mentais, vídeo aulas. O professor também pode orientá-lo e apontar opções de ferramentas; obviamente que isso tudo depende não só da condição do aluno, mas também do interesse dele e da correta orientação dos professores e do efetivo acompanhamento dos pais em casa.” – ressaltou.

Em contraste, para além das limitações impostas pela segregação tecnológica, os jovens são acometidos com outros estímulos que a pandemia trouxe. Um deles é o deslocamento desse público das salas de aula para o mercado de trabalho de forma antecipada, uma vez que a renda da família é comprometida e o jovem vê urgência em se subsidiar. Em consequência, pode surgir o desinteresse e abandono dos estudos, o que fortalece a estatística da evasão escolar.

De modo geral, as consequências da exclusão digital para esses jovens da rede pública piauiense podem se estender a um cenário nacional. Alguns dados do censo já mostram que a falha no processo educacional gera prejuízos ao País a curto e longo prazo. Por exemplo, a estimativa de queda de 1,5% no PIB mundial até o fim do século como consequência da interrupção das aulas. Conforme documento divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico- OCDE (https://economia.uol.com.br/noticias/reuters/2020/09/08/interrupcao-no-ensino-pode-causar-queda-no-pib-global-pelo-resto-do-seculo-diz-ocde.htm), que trata dos atos na pandemia sobre a educação, o impacto será ainda maior em países que prolongarem o período de aulas suspensas, como é o caso do Brasil.

Sobretudo, os reflexos socioeconômicos e fomento a desigualdades sociais, uma vez que os mais pobres continuam sendo a parcela mais afetada dessa equação, e o abandono dos estudos pós pandemia. Resultados da pesquisa Juventudes e a Pandemia do Coronavírus, realizada pelo Conselho Nacional de Juventude (Conjuve) (/www.juventudeseapandemia.com), apontam queda de renda e abandono dos estudos como desdobramentos da pandemia. A pesquisa analisou a situação de 33 mil jovens de todas as regiões do País.

Ainda segundo a pesquisa, 28% dos estudantes brasileiros considerou não retornar à escola quando acabar o distanciamento social e 49% cogitam desistir do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).

                                                                                                                           Foto: Reprodução site Pixabay

Não há garantias de um ensino de qualidade se a aprendizagem é comprometida por ausência de suporte para que a transmissão de conhecimentos chegue a todos e a todas, sem quaisquer desvantagens.

Além disso, para a estudante que não teve condições de acompanhar o ensino remoto, a desigualdade é um inimigo antigo, intensificado pela pandemia:

“Esse ano foi prova de quem tem na realidade dinheiro conseguiu tudo. Só passaram as pessoas que realmente tinham condição de estar ali toda hora no pé da escola. Já os demais ficaram aí, se culpando perguntando onde erraram. Se a igualdade na sala já era difícil, on-line só provou o quanto isso é verdade” –finalizou a jovem.

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