Como as redes sociais interferem nas eleições?

Por Maria Luísa Araújo

O distanciamento social devido à pandemia deixa os internautas ainda mais conectados a relações virtuais. Boa parte do nosso tempo é gasto através de interações que as redes sociais proporcionam, o que consequentemente causa efeitos no pensamento dos internautas. Desse modo, o universo político vem aderindo às novas relações de comunicação entre as pessoas. É por meio do engajamento nas redes sociais que a interação com os eleitores se torna mais informal, simples e prática. Em meio às eleições municipais de 2020, por exemplo, houve a criação de um cenário mais participativo através do digital. O Instagram incorporou novas plataformas de interação, como o reels. Já no Twitter o discurso político costuma ser renovado em enquetes para analisar a opinião do eleitorado.

Nas eleições municipais de Teresina, alguns candidatos divulgavam filtros disponíveis nos stories (função do Instagram que permite a interação entre usuários). Desse modo, aqueles que apoiavam determinado candidato indicavam e compartilhavam sua preferência partidária. Porém, outros candidatos utilizaram o reels (recurso de divulgação de vídeos que concorre com o aplicativo TikTok), para divulgar suas propostas e se posicionarem contra a oposição.

A promoção de ferramentas que as redes sociais oferecem também inclui vídeos no Youtube, lives no Instagram e posts no Facebook. Assim, o conteúdo pode chegar para as pessoas com mais facilidade, intimidade e com um preço mais baixo. Mas, mesmo que esses fatores tornem as campanhas mais rentáveis e permitam que o posicionamento político seja compreendido aos variados tipos de eleitores, há também as dificuldades.

O presidente do partido Unidade Popular (UP) e ex-candidato a prefeitura de Teresina, Pedro Laurentino, diz que durante as eleições deste ano trabalhou muito em suas redes sociais e não reparou tanto nas dos outros candidatos. Porém, ele percebia que alguns bombardeavam informações aos internautas e maquiavam suas reais posturas. Laurentino argumenta sobre o seu processo na campanha à prefeitura da capital piauiense:

“O Facebook e Instagram me ajudaram a alcançar mais pessoas durante a pré-campanha. Entretanto, quando chegou na campanha em si e me tornei uma pessoa jurídica comecei a ter dificuldade na divulgação de minhas propostas, pois eu não conseguia pagar à vista a conta para a campanha. Então, impulsionamos a campanha de rua por meio da qual conseguimos atingir cerca de 30 mil eleitores (o que corresponde a menos de 10% do eleitorado). Tentamos resumir nossas propostas, mas campanha é disputa! Devemos mostrar o que defendemos e criticar as propostas dos adversários. Porém, o Facebook e Instagram não aceitavam críticas claras aos demais candidatos nas publicações e não tivemos muito espaço na mídia televisiva”.

Influência das redes no pensamento político

Mesmo que debates televisivos ajudem na situação da corrida eleitoral, a TV está deixando de ser o meio prioritário de divulgação política. Fora das plataformas digitais, percebe-se que a propaganda eleitoral na televisão é curta, não oferece comentários espontâneas vindos de quem está assistindo e possui mais custos financeiros. Para analisar a proporção das propagandas políticas, a pesquisa nacional Redes Sociais, Notícias Falsas e Privacidade na Internet, realizada pelo DataSenado em parceria com as Ouvidorias da Câmara dos Deputados e do Senado Federal aponta a influência crescente das redes sociais como fonte de informação ao eleitor, podendo explicar em parte as escolhas dos cidadãos nas eleições.

A amostra foi feita no período de 17 a 31 de outubro de 2019 e contou com 2,4 mil entrevistados, que têm acesso à internet, em todas as unidades da Federação. Além de reproduzir as proporções populacionais de gênero, raça, região, renda e escolaridade. Segundo o IBGE, a margem de erro é de dois pontos percentuais, com 95% de nível de confiança.

Infográfico feito com base na pesquisa

O percentual de entrevistados que decidiram seus votos baseados em informações vistas em alguma rede social é maior entre pessoas na faixa dos 16 a 29 anos. O impacto das mídias sociais também é maior entre eleitores que se consideram conservadores, pessoas com escolaridade mais alta e pessoas com renda familiar mais alta.

A estudante de Ciências da Natureza Sinária Costa (29) diz que sempre esteve decidida em relação a sua preferência partidária, mas que já chegou a discutir no Facebook devido à insatisfação com a gestão da atual prefeita de sua cidade. Ela afirma acompanhar diariamente o planejamento de vereadores nas mídias digitais.

“Apoio que os vereadores mostrem com frequência o andamento de seus projetos principalmente os voltados para o investimento em comunidades rurais. Isso é uma das condições de peso para a reafirmação do meu voto”, conta a estudante.

Já o acadêmico de Engenharia Cartográfica e de Agrimensura Thiago Almeida (20) admite que teve de procurar as redes sociais da candidata de sua preferência para conhecer mais sobre ela e suas propostas, pois não via muita divulgação na televisão.

“Para mim os políticos estão aproveitando muito bem as redes sociais para interagir, não vejo um ponto que precisa ser melhorado”, diz Thiago.

Um fator importante interligado a essas opiniões são as discussões políticas divulgadas através de perfis como o “Teresina Ordinária”, que possui 132 mil seguidores e, desde antes do período eleitoral, estabelecia o entretenimento por variados temas, que incluíam a política.

“O trabalho envolvendo temas políticos deve ser cuidadoso, pois trabalhamos com públicos diferenciados. Nunca recebi ameaças ou processos, mas já recebi comentários vindos de alguns dos apoiadores a vereadores do estado e pedidos de políticos para a realização de posts que poderiam favorecê-los. Algo que recusamos, pois não é o intuito da página”, esclarece o administrador do perfil e estudante de engenharia civil, que prefere identificar-se apenas como João.

Fake News e a utilização das redes como estratégica ideológica

A internet pode colaborar positivamente no sentido informativo. Porém, o lado negativo está na formação das chamadas “bolhas sociais”, que acabam disseminando notícias falsas. Segundo a mesma pesquisa citada anteriormente, o brasileiro está atento ao problema das notícias falsas, mas quase metade dos entrevistados (47%) considera ser difícil identificar a veracidade das informações recebidas. Por outro lado, aproximadamente oito em cada dez entrevistados já identificou uma notícia falsa nas redes sociais. A maioria dos entrevistados (82%) verificam se uma notícia é verdadeira, antes de compartilhá-la.

Infográfico feito com base na pesquisa

Contudo, uma das vantagens das redes ao empenho eleitoral deve-se à preparação da reputação do político para a sociedade. Muitos parlamentares tiveram a vantagem de perceber a tempo a mudança do meio das comunicações, conseguindo conquistar um maior número de eleitores e chamando atenção para seus ideais sociais.

A mestranda em Comunicação pela UFPI Rannyelle Andrade destaca que, nas eleições municipais de Teresina, os candidatos souberam utilizar o espaço digital para compartilhar o seu dia a dia, agenda política e propostas para a prefeitura municipal.

” Dois exemplos que posso destacar nessa campanha eleitoral foram a então candidata, Gessy Fonseca com 29 anos, empreendedora e que nunca disputou uma eleição, mas usou o espaço das redes sociais para ganhar a adesão do público e resultou na terceira candidata mais votada nas eleições. Outro candidato que se destacou nos debates e nas redes sociais foi o deputado estadual Fábio Novo, jornalista e pedagogo com uma trajetória política, utilizou de forma bastante assertiva o espaço digital para realizar o debate com o eleitorado. Alguns pontos que vale serem ressaltados na campanha realizada por ele foi o SAC 2.0, conteúdo com propostas claras e objetivas, que conseguiu construir uma narrativa mostrando as suas realizações enquanto secretário de cultura, deputado e cidadão. Apesar do forte antipetismo que vemos sendo construído desde o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, o candidato conseguiu ficar em quarto lugar”.

Rannyelle ainda diz que desenvolveu pesquisas e observou a falta de interesse do estado em formar cidadãos com criticidade política, por isso cursos sobre o tema são quase inexistentes ou pouco divulgados. Ela explica que essa falta de interesse em desenvolver os cidadãos sempre partiu do conceito de que, quanto mais o cidadão é consciente dos seus direitos, mais ele irá cobrar daqueles os representam.

Contudo, é fundamental que o marketing na área da política mantenha um bom cronograma de postagens com intenção de exercer a democracia e livre opinião para ajudar no esclarecimento dos eleitores. Segundo a análise de Karina Matos, mestre em Ciência Política e pós-graduada em Propaganda e Marketing, os políticos e todos os outros profissionais estão reconhecendo que a comunicação digital não é o futuro, e sim o presente. Sendo um meio excelente para engajar a atenção dos mais jovens.

“ Não vou citar nomes de partidos ou candidatos, mas é só dar uma olhada em quem já investe nesse meio, quem tem uma equipe, quem está presente nas redes, quem mais se expõe é quem sai na frente. O que uso como balizador são páginas com posições muito extremistas, redes onde apenas a opinião de quem fala tem sentido ou espaço, onde o ódio é disseminado, onde o preconceito é evidente e onde os direitos básicos do cidadão são esquecidos não merecem o meu tempo”, destaca Karina.

Um fato permanente é que as mídias sociais formam possibilidades transformadoras para o universo político. O extremismo de ideais nas redes deve ser intolerável por quem é cidadão, quem exercita a democracia, respeita o pluralismo de opiniões e fundamentos que vão contra todas as maneiras de alienação. Ademais, é necessário cautela e a busca frequente pela credibilidade de determinado conteúdo. De fato, políticos pertencentes aos altos patamares encontraram no meio digital a oportunidade de conciliar pensamentos divergentes em favor do bem comum, mas alguns desses parlamentares também conseguiram destaques através da divulgação de polêmicas ou apelativas. Para que o cidadão não se sinta influenciado devido o seu desconhecimento no uso das ferramentas da internet, é necessário que saiba, cada vez mais, pesquisar e se atualizar constantemente.

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