O cenário fértil para o aumento de depressão e ansiedade na pandemia de Covid-19

Os gatilhos que a pandemia trouxe para a saúde mental

Por Raissa Caroline

Imagem: iStock

O impacto que a Pandemia trouxe para o mundo gerou diversas mudanças no cenário mundial e na vida das pessoas: isolamento social, serviços interrompidos, escolas, universidades e comércios fechados. 

Diante de tudo isso, incertezas e preocupações se instalaram na mente e no emocional de todos. E para além da saúde física, a saúde mental também se tornou uma questão, uma vez que o isolamento social se tornou um cenário fértil para o aumento de depressão e ansiedade. Bem como para quem já sofria com transtornos psicológicos antes, pois se confrontou com novos gatilhos na pandemia. 

Um estudo feito pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) apontou que os casos de depressão praticamente dobraram desde o início da quarentena. Entre março e abril, dados coletados on-line indicam que o percentual de pessoas com depressão saltou de 4,2% para 8,0%, enquanto para os quadros de ansiedade o índice foi de 8,7% para 14,9%.

É o caso da estudante de biblioteconomia Ana Elizabeth, de 23 anos, que já sofria com ansiedade generalizada. Ela relatou que no início da quarentena teve muitas crises e ataques de pânico:

“Ficava ansiosa e em pânico com medo de algo ruim acontecer, de ficar doente. Ficava sem ar com o coração acelerado, devido ao fluxo enorme de informações que surgia nos jornais e internet”.

CORONOFOBIA

 O medo de contrair o Covid-19 originou um termo chamado “Coronofobia”. Este termo vem sendo usado para designar o medo, a preocupação e a ansiedade de contrair o vírus, referindo-se também ao impacto psicológico e aos prejuízos funcionais provocados nas pessoas por esta doença. Os medos mais comuns são o medo da morte ou de ficar gravemente doente, de contaminar os outros ou das perdas financeiras envolvidas, preocupações em torno do futuro. Tudo isso se associa aos quadros de ansiedade, pânico, depressão, angústia, paranoias, sensação de desesperança, entre outros. Isso pode afetar até mesmo o sistema imunológico deixando essas pessoas ainda mais vulneráveis.

O estudante de História Jorge Gabriel afirma que acredita que uma série de fatores durante a Pandemia colaborou ainda mais para o aumento desses transtornos psicológicos. “Em virtude do drama sociopolítico que vivenciar uma pandemia implica, tomando por referência o Brasil, o aumento do desemprego, os altos números de casos da doença, a impossibilidade de um grande contingente da classe trabalhadora (de carteira assinada e informais) em realizar sua quarentena, o negacionismo de boa parte de nossos representantes políticos e uma verdadeira bagunça quanto ao Ministério da Saúde, entre outras questões. Acredito que todo esse cenário de insegurança social se soma a questões mais íntimas de cada um, tornando o cenário propício para o agravamento de transtornos psicológicos.”

Em entrevista para o portal G1, o professor de Psicologia da Uerj Alberto Filgueiras, que coordenou o estudo feito, explicou que o sentimento de insegurança aumentou ainda mais o nível de estresse.

“O estresse causado por uma doença que pode matar e o desconhecimento sobre esta doença, inclusive das instâncias superiores, os órgãos que tomam as decisões, geraram um nível de insegurança nas pessoas. E esta ansiedade, esta insegurança das pessoas aumenta o nível de estresse, causando este tipo de comprometimento.”

Os dados analisados apontam que as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrerem com estresse e ansiedade durante a quarentena. Alguns dos fatores de risco são: alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para a depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico. 

O cenário fértil das perdas financeiras

Com o comércio fechado, o impacto financeiro na vida de milhares de brasileiros causou desemprego e prejuízos para pequenos e grandes empresários. Para a psicóloga Erdna Aires, essa foi uma das principais razões para o abalo psicológico na vida de milhares de brasileiros:

“Muitas pessoas perderam seus empregos, ficaram sem norte, sem saber o que fazer, sem saber como recomeçar. O que causou medo, pensamentos negativos e trouxe um bloqueio e uma paralisação diante dessa situação, o que fez com que essas pessoas ficassem ansiosas ou até mesmo em depressão.”

Como é o caso de Gabriel Aguiar, que teve muitas perdas por conta da pandemia. “Por conta da pandemia eu perdi meu estágio, tive que voltar para minha cidade natal pois não havia aulas, fiquei longe da minha namorada, não tinha mais um emprego e uma rotina. E por conta disso, me tornei mais triste e ansioso.”

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 14,1 milhões de pessoas estão sem trabalho no país. A taxa de desemprego atingiu o recorde de 14,4% no trimestre encerrado em agosto. Em um ano, o Brasil perdeu 12 milhões de postos de trabalho e viu a população ocupada encolher para o menor contingente já registrado pela pesquisa do IBGE, iniciada em 2012.

Gráfico: site do IBGE

Milhares de brasileiros, pais e mães de família ficaram desempregados, com comércios fechados, com famílias para sustentar, sem poder sair para trabalhar com medo dos riscos da exposição. Tudo isso trouxe uma pressão na vida desses trabalhadores, abalando ainda mais a saúde mental dos indivíduos.

O cenário fértil das perdas familiares

O número de mortos no Brasil pela Covid-19 passou de 176 mil, segundo dados atualizados pelo Ministério da Saúde. São 176 mil famílias lidando com perdas familiares e de amigos próximos. Isso sensibiliza ainda mais o emocional dessas pessoas.

Como relata Ana Camila, que perdeu seu tio recentemente pela Covid-19. “Assim que ele pegou o vírus, eu já comecei a me achar irresponsável.” Ela relata que estava saindo normalmente, uma vez que as coisas haviam sido liberadas. “Quando ele morreu a ficha caiu, eu voltei a ter mais medo, passei a tomar cuidado não só comigo, mas com minha avó que é do grupo de risco, porque a gente só sente a gravidade quando é alguém próximo.”

Houve uma queda no isolamento social em todo o país nos últimos meses, e isso se deve desde a obrigação da volta ao trabalho presencial à simplesmente o sentimento de cansaço das pessoas de ficarem em casa. Pelo longo tempo que passaram em isolamento social, muitas pessoas estão preferindo arriscar as próprias vidas saindo de casa do que permanecerem por mais tempo em quarentena. Infelizmente, o que contribui ainda mais para a disseminação do vírus.

Como preservar a saúde mental em tempos de pandemia?

Foto: Reprodução Internet

A pesquisa feita pelo Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), sinalizou que quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade. Da mesma forma, aqueles que puderam praticar exercício aeróbico tiveram melhor desempenho do que os que não fizeram nenhuma atividade física, ou que praticaram apenas atividade de força.

A psicóloga Erdna Aires aconselha que para preservar a saúde mental é necessário uma reorganização na rotina.

“Ter uma rotina em casa, no trabalho, de lazer. Conversar com a família e amigos, mesmo que através de meios de comunicação. Evitar consumir muitas informações e notícias. Dormir bem, fazer uma atividade física e ter um momento de relaxamento.”

O estudante Carlos Gabriel relatou que desenvolveu estratégias para lidar com o momento vivido. “Bom tento compreender que é algo que está fora do meu alcance, pois algumas vezes, me sinto mal por não estar produzindo e levando meus projetos em frente. Além disso, tenho procurado formas de fugir um pouco da realidade, investindo em alguns hobbies.”

A Organização Mundial da Saúde divulgou um guia com dicas com cuidados para a saúde mental. Dentre elas, dicas para as pessoas em isolamento social:

Saúde mental para quem não tem condições de pagar

Os profissionais de psicologia migraram para o on-line, a fim de manter as sessões de terapia com seus pacientes. Mas para quem não tem condição de pagar, muitas iniciativas de centro de psicologias e de grupos terapêuticos independentes surgiram através da internet oferecendo terapias on-line de forma gratuita e produzindo conteúdo esclarecendo sobre os cuidados com a saúde mental. Este é o caso do Instituto de Pesquisa & Estudos do Feminino (IPEFEM), que oferece apoio terapêutico gratuito para qualquer pessoa acima de 18 anos, através de atendimentos individuais e em grupo.

Aplicativos para saúde mental também se tornaram aliados em casos de depressão, ansiedade, crises de pânico e outras coisas. Como o Cogni, um aplicativo que permite registrar seus sentimentos e variações de humor. Dessa forma, o indivíduo vai se conhecendo e aprendendo a lidar com suas emoções e comportamentos. Outro exemplo de aplicativo é o Zen, ideal para meditação guiada, que relaxa e auxilia no controle da ansiedade.

Durante a pandemia da Covid-19, o Ministério da Saúde recomendou aos gestores dos serviços da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) a não interromperem os atendimentos, porém adotando todas as medidas de prevenção para evitar a disseminação do coronavírus. Segundo dados preliminares de 2020, de janeiro a julho foram realizados 165.562.84 atendimentos de saúde mental em Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e em estabelecimentos da Atenção Primária à Saúde.

Além disso, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone pelo disque 188, e-mail e chat 24 horas todos os dias.

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